REPRESONTOLOGIA E TEORIA CRÍTICA: O FOCO NAS BARREIRAS
- Ricardo Cortez Lopes

- há 13 horas
- 3 min de leitura
Por Ricardo Cortez Lopes*
A represontologia refere-se a um objeto bem delimitado — a representação —, mas não pode abdicar de teorias que permitam encontrar e investigar esse objeto na realidade vivida. Afinal, sem a teoria, não teríamos como abordar diferentes níveis de decisão e acabaríamos restritos a observações isoladas, sem conexão causal.
Assim como essa ciência aceita diferentes abordagens — dedutiva, indutiva, hipotético-dedutiva, experimental, entre outras —, ela também pode lançar mão de teorias e técnicas formuladas em outras áreas do conhecimento. Por isso, é totalmente viável utilizar uma teoria crítica para delimitar e investigar objetos da representação.
Aliás, a teoria crítica parece ser atualmente uma das perspectivas mais utilizadas entre os acadêmicos. Por essa razão, vale muito a pena problematizá-la no âmbito da represontologia.
De maneira mais sintética — e possivelmente injusta —, a teoria crítica pode ser compreendida como um sistema de representações cuja representação-núcleo associa o referente “justiça” ao presente “igualdade”. Ao observar a realidade social, porém, essa representação identifica um grau de nitidez zero ou próximo de zero: a igualdade, de fato, não existiria.
A partir desse diagnóstico, outras representações procuram produzir ações capazes de corrigir esse baixo grau de nitidez: por meio do Estado, da abolição do Estado, da educação, da transformação econômica, da ação política e assim por diante.
Toda crítica aponta para algo que deveria ser, isto é, para uma representação que destoa da realidade observada. A teoria crítica afirma que deveríamos ser iguais e, a partir disso, diferentes autores denunciam desigualdades materiais, como Marx; desigualdades sociais, como Bourdieu; desigualdades subjetivas, como Foucault; e desigualdades educacionais, como Althusser, entre muitas outras.
Tudo isso é apreciado historicamente, uma vez que a História permite explicar os processos de dominação. Mas como esse arcabouço pode ser traduzido em termos representacionais?
Um primeiro postulado seria o de que as representações não circulam de maneira inteiramente espontânea: elas são espalhadas, promovidas, limitadas ou contidas de acordo com determinados interesses sociais. Nesse caso, a circulação representacional não ocorreria ao acaso, pois as representações seriam, em algum grau, intencionalmente controladas.
Ainda assim, permanece a possibilidade de resistência, que também constitui um dos temas centrais da teoria crítica.
Um segundo postulado seria o de que, para uma teoria crítica represontológica, o mais importante não é apenas identificar quais representações foram escondidas, mas compreender os mecanismos utilizados para impedir que elas circulem e se proliferem.
A barreira representacional pode ser construída tecnologicamente, por meio da seleção daquilo que será mais ou menos difundido. Também pode ser construída pela autoridade, que reduz ou quase anula determinados estoques de representações. Por fim, pode ocorrer por blindagem, mediante a mobilização de uma série de outras representações destinadas a cercar, legitimar e proteger a representação dominante.
A finalidade desses mecanismos seria a construção de um discurso único. Mas como esse discurso se efetiva? O teórico crítico procura justamente compreender os processos que tornam esse bloqueio possível.
O represontólogo, por sua vez, estará preocupado com a representação resultante desse processo de violência. Quais fatos foram acrescentados ao seu reservatório factual? Quais representações possibilitaram ou impediram o bloqueio? Quais representações conseguiram resistir e continuar circulando?
Além disso, quando uma representação é promovida e se expande sem o seu correspondente reservatório factual, qual é o resultado produzido? O que acontece quando uma representação se torna dominante sem que os fatos que deveriam sustentá-la sejam igualmente difundidos?
Toda essa dinâmica ajuda a captar dados para a reflexão representativa. A teoria crítica, nesse sentido, oferece à represontologia instrumentos para compreender não apenas quais representações circulam, mas também quais barreiras determinam aquilo que poderá ou não ser representado.
Curso de Introdução à Represontologia: https://www.institutoparajas.org/challenge-page/cc27cc60-1b9a-46f6-8d40-cad208f5a28b?programId=cc27cc60-1b9a-46f6-8d40-cad208f5a28b&participantId=aa1ccc75-5a7a-4ed5-a6a3-681736b3eea6
Referências:
LOPES, Ricardo Cortez. Repræsontologia: fundamentos da ciência das representações. São Paulo: UICLAP, 2024.
Tags: #Represontologia #Repraesontologia #Representação #Representações #CiênciaDasRepresentações #Represontology #RepresontologiaCrítica #TeoriaCrítica #BarreirasRepresentacionais #Marx #Foucault #Bourdieu
* Escritor e Pesquisador. Doutor, Mestre e Graduado em Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
.png)



Comentários