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PARA ALÉM DA CARTOGRAFIA: JUVENTUDE, EDUCAÇÃO E A CONSTRUÇÃO DE UMA VISÃO MAIS JUSTA DO MAPA MUNDI

26 de set.
3 min de leitura

Por Daniel Camurça Correia*


O mapa-múndi de Mercator foi elaborado pelo cartógrafo flamengo Gerardus Mercator e publicado em 1569, inicialmente com uma finalidade fortemente relacionada à navegação marítima. Sua projeção cilíndrica preserva características importantes de direção e orientação, tornando-se extremamente útil para representar trajetórias sobre os oceanos.


Entretanto, transformar a superfície curva da Terra em uma representação plana exige inevitavelmente algum tipo de distorção. Na projeção de Mercator, essa distorção aumenta conforme nos afastamos da linha do Equador em direção aos polos. Como consequência, territórios situados em latitudes elevadas aparecem visualmente muito maiores do que realmente são.

O mapa, portanto, não constitui uma fotografia neutra do planeta, mas uma determinada maneira de selecionar e representar suas características espaciais.


As limitações tornam-se evidentes quando observamos a comparação entre as áreas dos continentes. A África, por exemplo, aparece proporcionalmente muito menor em mapas baseados em Mercator do que sua área territorial efetivamente representa. Segundo a Agência Brasil, em informação publicada em 5 de setembro de 2026, a África possui aproximadamente 14 vezes a área da Groenlândia, embora determinadas representações possam fazê-las parecer semelhantes.


Essa distorção não significa que Mercator tenha sido concebido para produzir preconceito, mas sua utilização prolongada pode reforçar imaginários históricos de centralidade do Norte Global. Quando crianças observam repetidamente uma representação em que determinadas regiões parecem gigantescas e outras diminutas, a imagem espacial pode influenciar suas percepções sobre importância, poder e tamanho.


Uma escolha técnica pode adquirir consequências culturais quando é apresentada como se fosse uma representação absolutamente objetiva do mundo. Atualizar a representação cartográfica significa reconhecer que diferentes mapas respondem a diferentes finalidades e que nenhuma projeção plana consegue preservar simultaneamente todas as propriedades da superfície terrestre.


A escolha de uma projeção mais adequada para fins educacionais pode contribuir para que estudantes compreendam melhor as dimensões reais dos territórios e a diversidade espacial do planeta. A Equal Earth, desenvolvida para representar as áreas continentais de maneira proporcionalmente mais fiel, constitui uma alternativa particularmente relevante para essa finalidade.


A mudança também possibilita questionar representações tradicionais que foram naturalizadas durante séculos e incorporadas aos livros, salas de aula, meios de comunicação e plataformas digitais. Isso não significa apagar Mercator da história da cartografia, mas compreender criticamente suas virtudes, limitações e finalidades originais. Atualizar o mapa, nesse sentido, significa também atualizar a educação para que a representação visual do mundo não produza interpretações simplificadas sobre os povos e territórios.


A Organização das Nações Unidas assumiu papel relevante nesse processo ao apoiar internacionalmente a discussão sobre representações cartográficas mais proporcionais. Em 4 de setembro de 2026, a Assembleia Geral aprovou, por 164 votos favoráveis, seis abstenções e um voto contrário, uma resolução que incentiva governos, escolas e empresas de tecnologia a utilizar mapas que representem melhor o tamanho dos continentes.


Esses números foram divulgados pelo Escritório do Assessor Especial da ONU para a África, que identificou a iniciativa como uma campanha liderada pelo Togo e pela União Africana. A decisão possui caráter de recomendação e não elimina a utilização de Mercator em atividades nas quais suas características continuam sendo tecnicamente apropriadas, especialmente a navegação.


A atuação da ONU, portanto, deve ser compreendida como esforço internacional de conscientização e de promoção de representações cartográficas mais equilibradas. Seu significado ultrapassa a simples substituição de uma imagem por outra, pois envolve discutir como o conhecimento espacial pode influenciar a maneira como sociedades interpretam o planeta. A iniciativa possui especial importância para a África, continente frequentemente representado de maneira reduzida nas imagens convencionais do mundo e também submetido, historicamente, a narrativas externas que simplificaram sua diversidade.


A proposta denominada “Correct the Map” procura enfrentar justamente essa percepção distorcida, incentivando representações capazes de evidenciar a dimensão territorial africana. A ONU afirma que a resolução busca estimular mapas que mostrem de maneira mais precisa o tamanho real dos continentes, especialmente daqueles que sofrem maior distorção nas projeções tradicionais. O objetivo, contudo, não deve ser transformar uma projeção cartográfica em instrumento de disputa ideológica, mas ampliar a capacidade crítica das pessoas diante das imagens que utilizam para compreender o mundo.


Ao apresentar a África, a América do Sul e outras regiões segundo proporções territoriais mais adequadas, a educação pode combater percepções rasas baseadas em aparências cartográficas. Um mapa mais equilibrado não elimina preconceitos sozinho, mas pode contribuir para que novas gerações compreendam que nenhum continente é pequeno em importância, nenhum povo é periférico por natureza e nenhuma representação visual deve ser confundida com a própria realidade.





* Escritor e Pesquisador. Doutor, Mestre em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Graduado em História pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Professor da UNIFOR e da UFC.

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