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A INTERNACIONALIZAÇÃO DOS ANIMES JAPONESES: MERCADO, EXPORTAÇÕES E OPORTUNIDADES DE NEGÓCIOS NO BRASIL

há 4 dias
4 min de leitura

Por Daniel Camurça Correia*


A indústria japonesa de animação, conhecida mundialmente pela produção de animes, constitui um importante segmento da economia criativa e do comércio internacional de bens e serviços culturais. Para compreender sua dimensão econômica, é necessário analisar não apenas a venda de episódios, mas também o licenciamento, os serviços de streaming, os filmes, os produtos derivados e os direitos de exploração de personagens. Segundo a Associação de Animações Japonesas (AJA), em seu relatório Anime Industry Report 2025, o mercado amplo de animes movimentou aproximadamente 3,84 trilhões de ienes em 2024.


No mercado interno japonês, o consumo de animações alcançou aproximadamente 1,67 trilhão de ienes em 2024, conforme os dados divulgados pela AJA. Esse montante representa os gastos estimados dos consumidores com o conjunto de atividades econômicas relacionadas aos animes, e não apenas a compra de ingressos de cinema ou assinaturas de plataformas digitais. A comercialização de produtos licenciados, a distribuição pela internet, os lançamentos cinematográficos e outras modalidades de exploração comercial também contribuem para esse resultado. Portanto, o mercado doméstico permanece relevante, embora a expansão internacional tenha adquirido um peso ainda maior na estratégia empresarial do setor.


A expansão dos animes para outros países ocorreu progressivamente, apoiada pela distribuição televisiva, pela comercialização de produções audiovisuais e pelo fortalecimento de personagens e franquias reconhecidos internacionalmente. Produções japonesas chegaram a diferentes mercados estrangeiros décadas antes da popularização dos serviços de streaming, conquistando públicos por meio da televisão aberta, de canais especializados e de lançamentos em vídeo.


Posteriormente, a internet ampliou as possibilidades de distribuição simultânea, enquanto as plataformas digitais facilitaram o acesso a títulos japoneses em diferentes idiomas. Segundo o Ministério da Economia, Comércio e Indústria do Japão (METI), o mercado internacional de animes cresceu de aproximadamente 270 bilhões de ienes em 2011 para 1,46 trilhão de ienes em 2022.


A expansão também está relacionada à transformação dos animes em propriedades intelectuais comercializadas por diferentes canais. Nesse ínterim, uma mesma obra pode gerar receitas com licenciamento internacional, exibição digital, produtos colecionáveis, jogos eletrônicos, trilhas sonoras e adaptações cinematográficas. A aquisição e a integração de empresas de distribuição, assim como os acordos com plataformas internacionais, ampliaram a capacidade de circulação dessas produções. Sob a perspectiva da gestão internacional, essa estratégia permite diversificar as fontes de receita, alcançar novos consumidores e prolongar o ciclo comercial de cada franquia.


Quanto aos países consumidores, é importante distinguir o tamanho do público, a audiência e o valor efetivamente gasto em animes. O Anime Global White Paper 2026, elaborado pela GEM Partners, apresenta dados de audiência de 2025 que colocam Japão, China e Índia entre os três países com maior proporção de espectadores na pesquisa, com índices de 55%, 42% e 41%, respectivamente.


Os Estados Unidos também constituem um mercado estratégico, enquanto França, Coreia do Sul, Reino Unido e outros países europeus e asiáticos possuem públicos relevantes. Esses indicadores demonstram a amplitude geográfica do consumo, mas não devem ser confundidos com um ranking de países por receita, pois audiência e poder de compra são medidas distintas.


Em relação ao faturamento internacional, a AJA estima que o mercado externo de animes movimentou aproximadamente 2,17 trilhões de ienes em 2024, superando o mercado doméstico japonês.


Esse valor corresponde à dimensão econômica estimada do mercado internacional associado aos animes, incluindo diferentes formas de exploração comercial. É fundamental, entretanto, esclarecer que esse montante não representa o lucro bruto das empresas japonesas nem o valor líquido recebido exclusivamente pelas produtoras. Para calcular o lucro, é importante observar, seria necessário conhecer os custos de produção, distribuição, licenciamento, tributação e demais despesas, informações que não estão integralmente discriminadas nesse indicador. Ainda assim, o volume de receitas internacionais evidencia a importância estratégica da exportação de conteúdo cultural para a economia japonesa.


No Brasil, os animes possuem presença consolidada na cultura popular, impulsionada historicamente pela televisão, pelo consumo de mangás, pelas comunidades de fãs, pelos eventos especializados e, mais recentemente, pelas plataformas digitais. A GEM Partners inclui o Brasil entre os mercados acompanhados em suas pesquisas internacionais de audiência e comportamento dos consumidores de animes.


Do ponto de vista da gestão e do comércio internacional, o cenário revela oportunidades que merecem investigação. O licenciamento de personagens, a distribuição de produções independentes, a comercialização de produtos oficiais, a realização de eventos e a oferta de conteúdos acessíveis em português são possibilidades de expansão. Também existe espaço para pesquisas sobre hábitos de consumo, disposição para pagar, diferenças regionais, modelos de assinatura e comportamento dos públicos universitários. O desafio empresarial consiste em transformar a popularidade cultural dos animes em estratégias sustentáveis de internacionalização, respeitando os direitos de propriedade intelectual e as particularidades do mercado brasileiro.


A ausência de dados públicos detalhados sobre o consumo nacional constitui, simultaneamente, uma limitação para decisões empresariais e uma oportunidade para pesquisas de mercado, novos investimentos e desenvolvimento de negócios especializados.





* Escritor e Pesquisador. Doutor, Mestre em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Graduado em História pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Professor da UNIFOR e da UFC.

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