COMÉRCIO INTERNACIONAL DE QUADRINHOS E MANGÁS: UM MERCADO A SER COMPREENDIDO
Por Daniel Camurça Correia*
Os quadrinhos constituem uma linguagem narrativa que articula imagens, enquadramentos, personagens, textos e sequências visuais para construir histórias. No Ocidente, sua consolidação editorial ocorreu especialmente entre o final do século XIX e o século XX, com a expansão dos jornais, das revistas e, posteriormente, dos álbuns e graphic novels. Nos Estados Unidos, personagens como Superman, Batman e Spider-Man ajudaram a transformar os quadrinhos em produtos culturais de grande circulação internacional. Na perspectiva do comércio exterior, entretanto, é necessário compreender que o produto comercializado não é apenas o livro: envolve direitos autorais, licenciamento, tradução, distribuição, personagens e propriedade intelectual.
O ramo dos quadrinhos tornou-se parte relevante da indústria editorial e do mercado global de entretenimento. No mercado francês, por exemplo, a NielsenIQ-GfK registrou 68 milhões de exemplares de histórias em quadrinhos, mangás e segmentos relacionados vendidos em 2024, movimentando aproximadamente €837 milhões. No Japão, o mercado de quadrinhos, considerando publicações impressas e digitais, alcançou ¥704,3 bilhões em 2024, segundo a Research Institute for Publications e a All Japan Magazine and Book Publishers’ and Editors’ Association. É importante observar que não existe, para Marvel, DC e outras grandes marcas, uma divulgação pública uniforme do faturamento anual exclusivamente editorial; por isso, números de conglomerados como Disney ou Warner Bros. não devem ser apresentados indevidamente como faturamento específico de quadrinhos.
O mangá, por sua vez, corresponde à tradição japonesa de histórias em quadrinhos, desenvolvida em formatos editoriais próprios e posteriormente internacionalizada. Embora existam diferentes gêneros, públicos e estilos, o mangá consolidou características particulares de narrativa visual, publicação seriada e organização editorial. Sua internacionalização transformou-o em importante produto cultural japonês. No Japão, as vendas de mangás chegaram a ¥704,3 bilhões em 2024, com ¥512,2 bilhões provenientes de quadrinhos digitais, ¥147,2 bilhões de volumes impressos e ¥44,9 bilhões de revistas. O dado revela uma transformação fundamental: o crescimento contemporâneo do setor está cada vez mais relacionado à digitalização.
No Ocidente, os números demonstram uma expansão igualmente significativa. Nos Estados Unidos, foram vendidos aproximadamente 21,8 milhões de exemplares de mangás em 2023, quase metade dos 44,7 milhões de graphic novels comercializados naquele ano, segundo dados do BookScan/Circana analisados pela publicação especializada Publishers Weekly. Em 2022, outra estimativa baseada no mercado norte-americano registrou 16,9 milhões de unidades de mangá vendidas e faturamento superior a US$246 milhões. Em 2024, apesar da retração de 18% no segmento adulto de mangás, eles ainda representavam 42% dessa categoria de graphic novels nos dados da Circana. Na França, foram vendidos 36 milhões de volumes de mangá em 2024, correspondendo a aproximadamente €309 milhões.
O perfil dos consumidores também demonstra que não é adequado imaginar os quadrinhos como produtos exclusivamente destinados ao público infantil ou masculino. No Japão, pesquisa da Kodansha realizada em 2024 encontrou 43,4% de preferência por mangás entre pessoas de 3 a 74 anos. Entre os grupos pesquisados, meninas adolescentes apresentaram o maior índice, com 61,6%, seguidas por homens de 35 a 49 anos, com 57,5%, meninos adolescentes, com 55%, homens de 20 a 34 anos, com 51,6%, e mulheres de 20 a 34 anos, com 49,1%. Nos Estados Unidos, os dados da Circana também mostram forte presença do mangá entre leitores jovens e adultos, enquanto a França apresenta um mercado no qual o mangá representa 52% do volume de vendas de quadrinhos.
A comparação entre Oriente e Ocidente permite identificar uma característica estratégica: o consumo tornou-se transnacional. Uma obra criada no Japão pode ser traduzida nos Estados Unidos, publicada por uma editora norte-americana, distribuída digitalmente para leitores europeus e posteriormente adaptada para cinema, televisão, jogos ou produtos licenciados. Em 2024, por exemplo, o ranking norte-americano de mangás da Circana foi fortemente dominado por Jujutsu Kaisen, Chainsaw Man, Spy x Family, My Hero Academia e Berserk, enquanto o mercado japonês continuou apresentando enorme diversidade de títulos e formatos. A circulação internacional, portanto, não elimina as diferenças culturais, mas transforma essas diferenças em oportunidades comerciais.
O futuro desse mercado editorial internacional tende a depender cada vez menos da simples venda de exemplares impressos e cada vez mais da administração integrada de propriedade intelectual, plataformas digitais e múltiplas formas de consumo. O avanço dos e-comics no Japão, a presença do mangá nos Estados Unidos e sua participação expressiva no mercado francês indicam que a fronteira entre livro, audiovisual, streaming, jogos e produtos licenciados continuará diminuindo. Para o comércio exterior, quadrinhos e mangás devem ser compreendidos como ativos culturais internacionalizáveis. O profissional que compreender tradução, direitos autorais, distribuição, comércio digital, comportamento do consumidor e licenciamento estará melhor preparado para atuar em um mercado no qual a arte sequencial pode transformar-se em uma cadeia internacional de negócios.
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* Escritor e Pesquisador. Doutor, Mestre em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Graduado em História pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Professor da UNIFOR e da UFC.
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