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GASTON BACHELARD: ENTRE A CIÊNCIA E A POESIA, A EDUCAÇÃO COMO FUNDAMENTO ÉTICO E POLÍTICO DA SOCIEDADE

há 5 dias
2 min de leitura

Por Gustavo Bertoche*


Em 16 de outubro de 1962 Gaston Bachelard nos deixava.


Bachelard nasceu em 1884 numa família de pequenos comerciantes no interior de Bar-sur-Aube, na Champagne. Passou a infância nos campos. Foi funcionário dos Correios. Esteve nas tricheiras por 38 meses durante a guerra, instalando e reparando cabos telegráficos, e recebeu a Croix de Guerre. Tornou-se pai em 1919 e viúvo em 1920. Entre 1919 e 1930, foi professor de física e química no liceu de sua cidade.


Obteve seu doutorado em filosofia, na Sorbonne, em 1927, quando também publicou seu primeiro livro e tornou-se professor na Faculdade de Letras em Dijon. Em 1940 foi para a Sorbonne, onde substituiu um de seus mestres, Abel Rey, na direção do Institut d'Histoire des Sciences et des Techniques. Lá teve como alunos toda uma geração notável de intelectuais — como M. Foucault, J. Derrida, P. Bourdieu, G. Durand, F. Dagognet.


A despeito de ter vivido a guerra e de ter lecionado na Sorbonne sob o regime de Vichy, a sua filosofia não possui um caráter político ou ético — não, no sentido tradicional.


A ética e a política de Bachelard são a ética e a política da vida científica e da vida poética. Para Bachelard, a ciência e a poesia são os pólos do mundo humano; tudo o que lhe interessa está inscrito entre esses pólos. De um lado, o pólo da racionalidade científica, da luz diurna, com a sua exigência de método, rigor e crítica. Do outro, o pólo da imaginação poético-literária, da noite misteriosa, com a liberdade do sonho e do devaneio.


A indiferença de Bachelard ao discurso sobre a ética e sobre a política é, no fundo, uma lição de ética e de política. Explico. Para Bachelard, a tarefa mais fundamental de qualquer sociedade deveria ser a educação dos jovens para o conhecimento e para a imaginação. Tudo o mais deveria ser secundário. Neste sentido, ele escreveu que a escola não deveria servir à sociedade, mas a sociedade deveria servir à escola: a escola deveria ser a finalidade da sociedade. Afinal, a maior — e talvez a única realmente importante — responsabilidade de cada geração é preparar a geração que a sucederá.


Em suma: pouco importam a ética e a política se toda a sociedade não mobilizar-se em função de uma educação científica e poético-literária para os jovens — o que, por si só, constituir-se-á como uma formação ética e política.


Diante de nossas circunstâncias, talvez Bachelard, cuja morte hoje completa 64 anos, seja a voz a ser ouvida em nosso tempo.





* Escritor e Pesquisador. Doutor, Mestre e Graduado em Filosofia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Professor da Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR).

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