O VOTO ALÉM DA RAZÃO: MEDO, RESSENTIMENTO E A PROMESSA DE RESTAURAÇÃO DA ORDEM NO BRASIL
Por Gustavo Bertoche*
Flávio Bolsonaro recebeu 47% dos votos válidos no primeiro turno da eleição presidencial. 56 milhões de votos. Então dezenas de milhões de brasileiros são fascistas?
Ora, as pessoas não entram na seção eleitoral levando tratados de teoria política ou comparando definições de democracia, autoritarismo e fascismo. Elas entram levando outra coisa: seus afetos – seus medos, seus ressentimentos, seus vínculos, seus desejos.
* * *
Em “O Mal-Estar na Civilização”, de 1930, Freud sustentou que a vida em sociedade nos exige uma renúncia dolorosa. Precisamos limitar a nossa agressividade, regular os nossos desejos, reprimir as nossas pulsões e aprender a lidar com as frustrações. E sentimos um mal-estar difuso o tempo todo.
Sem compreendermos que esse sentimento é inevitável – pois ele é o outro lado da civilidade –, procuramos um responsável.
Um responsável – como a criminalidade dos centros urbanos, que é hoje um elemento fundamental na formação e na distribuição dos afetos do brasileiro.
* * *
Com efeito, o mal-estar é potencializado pelo medo de ser assaltado, de perder um filho para o tráfico, de ter a moto roubada, de ter o celular levado na rua. O que era difuso, agora tem uma causa nomeável: os bandidos.
Acontece que boa parte da população sente que partidos identificados à esquerda se preocupam mais com as causas sócio-econômicas da criminalidade, e com os direitos dos criminosos, do que com as perdas e o sofrimento das vítimas. A questão aqui não é se essa representação corresponde à realidade; a questão é que essa representação existe e produz efeitos político-eleitorais.
E vejam, amigos: alguns episódios reforçam essa percepção. Lembremo-nos daquela declaração da professora Márcia Tiburi, que depois viria a ser candidata pelo PT ao governo do Rio de Janeiro: “Eu tenho um sentimento a favor do assalto. Eu penso que tem uma lógica no assalto”. Sim, essa declaração, de intenção paradoxal, foi o ponto de partida para o desenvolvimento de uma interpretação social do crime. Mas é claro que uma frase polêmica como essa será muito mal-recebida por quem tenha sido vítima. Afinal, a pessoa trabalha, compra um celular e o perde, diante de um revólver apontado para sua cabeça. E depois escuta, de uma intelectual moradora da zona sul carioca, que ela “é a favor da lógica do assalto”.
Nós sabemos que é possível condenar um assalto ao mesmo tempo em que as suas circunstâncias sociais são descritas. Mas essa descrição social sofisticada é recebida pelo cidadão que tem medo como uma espécie de justificação, ou validação, do crime – e como um silenciamento da vítima, que perguntará simplesmente: “mas... e eu? Quem reconhece a minha perda? Quem reconhece a minha raiva? Quem entende que sofri uma injustiça, quem brigará por mim, para que isso não aconteça novamente?”.
Lembremo-nos também daquele vídeo, que continua circulando na internet, no qual Lula dizia que o ladrão roubava um celular para “tomar uma cervejinha”. Essa frase é uma montagem: é retirada de dois momentos diferentes de uma entrevista de 2017 – num primeiro momento, Lula associava o roubo de celulares à falta de perspectivas profissionais; num outro momento, falava de torcedores rivais que poderiam tomar uma cervejinha num bar depois do jogo.
O vídeo é uma falsificação. Mas por que ele pareceu verossímil para tanta gente, a ponto de ainda hoje ser lembrado, com ironia, quando há um assalto? – “era para tomar uma cervejinha...”
Ele ainda é lembrado porque se enquadra em estruturas interpretativas já formadas. Para quem enxerga a esquerda como excessivamente compreensiva em relação ao criminoso, a história da “cervejinha do assaltante” faz sentido porque se encaixa no conjunto da narrativa.
* * *
Essa narrativa inclui uma nostalgia – a nostalgia de que uma certa ordem teria sido perdida: a ordem de um tempo em que a família teria sido mais estável, a escola teria sido melhor e mais disciplinada, os filhos teriam respeitado os pais, os homens teriam sido mais masculinos e as mulheres, mais femininas, e as pessoas teriam tido menos medo.
Pouco importa se esse passado existiu exatamente dessa maneira: ele funciona como contraste entre diferentes imagens – a ordem anterior, a desordem decadente no presente. Deseja-se restaurar algo que se crê haver desaparecido.
Acontece que toda narrativa de decadência traz uma pergunta: quem fez isso conosco?
Para que uma comunidade que se sente ameaçada compreenda a sua própria situação, precisa dar nome a um adversário de vida ou morte.
No Brasil contemporâneo, esse inimigo pode ser “o PT”. Pode ser “o Lula”. Mas pode também ser muitas outras coisas: “a ideologia de gênero”, “a doutrinação nas escolas”, “o politicamente correto”, “os direitos humanos para bandidos”, “a vagabundagem”, “quem não trabalha e vive de Bolsa Família”, “as universidades de esquerda”, “a imprensa militante”, “o STF”, “o sistema”.
O que importa aqui é a estrutura que reúne tudo isso: uma estrutura na qual certas forças produzem a desordem – destruindo a família, tornando a escola permissiva, relativizando a sexualidade, recompensando quem não trabalha, protegendo o criminoso.
* * *
Assim, uma posição política adquire significação moral – uma moral dualista, simplista, que ignora a complexidade da existência humana. De um lado estão os trabalhadores, e do outro os que vivem de roubar o trabalho alheio, diretamente (pelo revólver) ou indiretamente (pelo Bolsa-Família). De um lado estão as vítimas; de outro, os que protegem os criminosos. De um lado estão os pais tentando educar os filhos; de outro, professores doutrinadores. O adversário deixa de ser simplesmente alguém que possui um programa político diferente: torna-se a encarnação de quem impede a restauração da ordem.
E diante de uma força tão tenebrosa, já não se pode mais simplesmente desejar vencer uma eleição. Surge também o desejo de remover a sua influência, de neutralizar os seus valores, e de, enfim, impedir que essa desordem permaneça destruindo o mundo. Em outras palavras: acabar com a “ideologia de gênero”, acabar com a “impunidade”, acabar com a “vagabundagem”, com a “doutrinação”, com a “proteção aos criminosos”.
E tudo é muito simples.
A solução para a criminalidade é aumentar a punição.
A solução para a educação é acabar com a doutrinação.
A solução para a pobreza é obrigar ao trabalho, mesmo que precário.
A solução para a crise da família é eliminar a ideologia de gênero.
E o mundo, agora simplificado, volta a ser inteligível.
* * *
Buscamos objetos para explicar o nosso mal-estar. A raiva diante da criminalidade pode encontrar o “defensor de bandido”; a angústia diante da crise da família pode encontrar a “ideologia de gênero”; a frustração econômica pode encontrar “quem vive de Bolsa-Família sem trabalhar”; a sensação de impotência política pode encontrar o STF, as universidades, o “sistema”. E como síntese desse objeto de aversão estão Lula e PT. O assalto na rua, uma discussão sobre gênero na escola, a sensação de empobrecimento da classe média, uma decisão do Supremo – tudo isso passa a ser percebido como manifestações distintas de um mesmo agente histórico.
E aqui surge um aparente paradoxo: como é possível que uma pessoa vote “contra o partido que defende criminosos” e, ao mesmo tempo, vote a favor de um candidato investigado pela suspeita da prática de crimes? Porque Flávio Bolsonaro é investigado por corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Por que essas suspeitas, nesse caso, pesam tão pouco para quem afirma votar contra o crime?
A resposta é que “crime”, na experiência política, não funciona como uma categoria jurídica e moral homogênea. Há uma diferença essencial entre o conceito jurídico de crime e a figura do criminoso no imaginário popular.
Quando alguém afirma que um determinado campo político “defende bandidos”, a imagem evocada não é exatamente a do político engravatado, rico, bem-falante, suspeito de corrupção, lavagem de dinheiro ou evasão de divisas. É a imagem do assaltante, do traficante, do homem em cima de uma moto que aponta uma arma para a vítima. É o criminoso da rua, e não o do gabinete, que encarna imediatamente a desordem temida.
E o político, mesmo quando é investigado por possíveis crimes, pode continuar encarnando simbolicamente a promessa de ordem.
Notem, amigos: o voto num candidato investigado por crimes, porque ele promete agir com mais rigor contra o crime, corresponde a uma contradição jurídica. Mas do ponto de vista psicológico pode não haver contradição nenhuma.
* * *
E há ainda outro mecanismo que regula a decisão de voto: a do viés. As denúncias são recebidas de modo diferente – dependendo do lugar ocupado pelo denunciado. Uma acusação contra o adversário é recebida como confirmação: “eu já sabia!”; uma acusação contra alguém do próprio campo pode ser interpretada de outro modo: “é perseguição”, “querem tirá-lo da disputa”, “o sistema está reagindo”, “a imprensa escolheu um lado”.
Esse processo de decisão não é racional: ele se dá por afetos, a partir de informações que se inserem no interior de narrativas que abraçamos previamente. É por isso que a pergunta “o meu candidato fez ou não fez isso?” freqüentemente cede lugar a outra, bem diferente: “de que lado está quem o acusa?”.
* * *
É essa a razão pela qual, no fundo, não importa o que está escrito no plano de governo de um ou de outro candidato. Quem já escolheu previamente um lado não está preocupado em ler e conhecer as teses e propostas das diferentes candidaturas: as do próprio campo são automaticamente interessantes, ou então são estratégicas para ganhar a eleição, e as do campo adversário são automaticamente mentirosas, falaciosas, manipuladoras. O voto dado por identidade de afetos não requer o conhecimento de propostas.
Isso significa que o eleitor pode ignorar por completo a política tributária, o plano industrial, as reformas administrativas, o programa para a educação do candidato – e ainda assim saber perfeitamente por que está votando nele. Afinal, esse eleitor não está escolhendo um programa. Ele está escolhendo um lado. Ele sabe, em primeiro lugar, CONTRA QUEM está votando, sabe quais valores acredita estarem ameaçados, sabe quais transformações culturais ele teme, sabe de quem ele desconfia. E sabe em qual campo político encontra a representação de maior proteção para a sua família, para a sua propriedade, para a sua religião, para a sua concepção de ordem.
É assim que uma eleição deixa de ser uma comparação racional-econômica de programas de governo, e se aproxima de uma escolha identitária.
* * *
Wilhelm Reich descreve bem esse fenômeno no livro “Psicologia de Massas do Fascismo”, publicado em 1933. Ali, Reich explica como os indivíduos podem apoiar forças políticas que, sob determinados aspectos, parecem contrariar seus próprios interesses materiais: o trabalhador pode votar em quem promete diminuir suas proteções trabalhistas, ou uma pessoa de baixa renda pode votar em quem promete reduzir os benefícios dos quais depende.
A questão, mostra Reich, é que a acusação de que essas pessoas estejam agindo contra seus próprios interesses revela algo sobre o próprio acusador: revela que o acusador está pensando exclusivamente em termos de interesse econômico.
Só que nós somos muito mais do que isso: o interesse econômico é somente um dos tipos de interesse que nos movem.
Porque vejam: a segurança de andar nas ruas sem ser assaltado é um interesse. A família é um interesse. A religião é um interesse. O reconhecimento é um interesse. A tradição cultural é um interesse. A vida numa ordem moralmente mais justa é um interesse.
Façamos um experimento mental. Suponhamos que alguém acredite que uma candidatura lhe proporcionará a manutenção de um benefício abstrato futuro, como o aumento no salário mínimo um pouco superior à inflação, ou a garantia de uma aposentadoria no futuro. Isso significaria, talvez, duzentos reais a mais no mês, ou um benefício num futuro distante algumas décadas. Porém, no imaginário dessa mesma pessoa, essa candidatura trará políticas de segurança que deixarão seus filhos mais expostos ao crime. Se, para essa pessoa, a segurança atual e concreta dos filhos vale mais do que duzentos reais, ou uma aposentadoria no futuro, a recusa dessa candidatura é perfeitamente racional, ainda que lhe traga prejuízo econômico.
É claro que essa pessoa pode estar errada sobre quais políticas aumentarão ou reduzirão a segurança, assim como pode estar errada sobre quais políticas lhe beneficiarão economicamente. Mas a questão não é essa. A questão é que não se pode simplesmente afirmar que alguém “votou contra os próprios interesses”, sem que se estabeleça, previamente, quais interesses deveriam governar sua escolha. Ou: dizer que alguém está votando contra seus próprios interesses implica uma posição imaginária de saber, melhor que o outro, o que vale mais para o outro. Essa posição é pretensiosa e autoritária.
Não, não podemos interpretar de maneira excessivamente econômica a política: pessoas podem desejar prioritariamente a ordem, a autoridade, a proteção, a sensação de pertencimento, inclusive aceitando perdas materiais em troca disso.
* * *
O mal-estar difuso numa sociedade precisa encontrar uma representação.
O medo, o ressentimento, a insegurança, a frustração, a agressividade – tudo isso pode acabar organizado num conjunto de representações, e atribuído a uma causa nomeável.
E tudo isso pode ser potencializado pelo entendimento de que há uma inversão moral em curso: a pessoa trabalha, paga impostos, respeita as regras, e não se sente enxergada pelo governante – enquanto quem rouba e assalta recebe compreensão, justificativa ou proteção. O sentimento de impotência diante de injustiças cresce a cada dia.
Até que um dia aparece alguém que diz: “eu estou do seu lado”.
A força desse tipo de proposta ao cidadão que se sente injustiçado é tremenda. E mais: ela não depende de nenhum livreto com um programa de governo. Ela movimenta algo que se posiciona antes de qualquer reflexão racional: ela diz respeito a valores.
É por isso que a questão eleitoral no Brasil de hoje não pode ser reduzida à questão da prosperidade, do crescimento do PIB, dos direitos trabalhistas. Porque boa parte da sociedade já não pede isso. Pede outra coisa, ao mesmo tempo mais simples e mais complexa: pede ordem.
* * *
Retornemos finalmente, depois disso tudo, à pergunta que provoca esta reflexão: milhões de brasileiros se tornaram fascistas?
De onde vejo, amigos, essa pergunta está mal colocada.
A pergunta deve ser outra.
E para formular essa outra pergunta, precisamos partir da constatação, agora mais elaborada, de que, para dezenas de milhões de brasileiros, o mal-estar de viver em sociedade (o mal-estar que é o produto inevitável da limitação da nossa agressividade, da regulação dos nossos desejos, da repressão das nossas pulsões) é amplificado pela percepção de que tantos outros podem, impunemente, dar vazão aos seus desejos mais primitivos: podem roubar o fruto do trabalho dos outros, ou podem viver sem rotina de trabalho, às custas dos benefícios sociais, ou podem utilizar as estruturas judiciais do Estado para perseguir inimigos pessoais. Isto é: para milhões e milhões de brasileiros, a sociedade se tornou ainda mais insegura, estruturalmente injusta, moralmente invertida. Diante da possibilidade de retirar do poder aquele que é identificado com um agente dessa desordem fundamental – Lula, o PT, as suas políticas –, diante da promessa de algum reordenamento da sociedade, esses milhões de brasileiros começam a aceitar custos que, em outras circunstâncias, seriam rejeitados. Essas pessoas podem até aceitar conviver com certas contradições, podem até aceitar a possibilidade de perder renda, direitos trabalhistas ou outro tipo de benefícios – desde que a ordem seja restaurada.
Reformulemos, então, a nossa pergunta inicial.
Não mais: “será que 47% dos eleitores brasileiros são fascistas?”.
A pergunta, depois da nossa reflexão, se torna outra, muito mais séria, que pode efetivamente conduzir ao exercício do pensamento: o que aconteceu com a nossa sociedade nas últimas décadas para que tantos brasileiros agora estejam dispostos a apoiar uma promessa de restauração da ordem, ainda que precisem ceder coisas importantes?
É a partir daí que se pode começar a compreender o resultado das eleições de domingo.
Tags: #PolíticaBrasileira #Eleições2026 #PsicologiaPolítica #ComportamentoEleitoral #PsicologiaDasMassas #SociologiaPolítica #SigmundFreud #WilhelmReich #MalEstarNaCivilização #VotoEmocional #IdentidadePolítica #PolarizaçãoPolítica #MedoEPolítica #RessentimentoSocial #Autoritarismo #Fascismo #Bolsonarismo #FlávioBolsonaro #Lula #PT #SegurançaPública #CriseDaDemocracia #Conservadorismo #ValoresMorais #DisputaDeNarrativas #ManipulaçãoPolítica #ViésDeConfirmação #ImaginárioSocial #RepresentaçõesSociais #OrdemSocial #DemocraciaBrasileira #AnálisePolítica #PensamentoCrítico #InstitutoParajás
* Escritor e Pesquisador. Doutor, Mestre e Graduado em Filosofia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Professor da Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR).
.png)




Comentários