top of page

O HOMEM-ARANHA, O MISTÉRIO E A REPRESONTOLOGIA

Atualizado: 17 de jan.

Por Ricardo Cortez Lopes*


A série “Represontologia da Cultura” apresenta artefatos culturais analisados por meio da Represontologia, a ciência das representações. O objetivo é apresentar aplicações dos conceitos e também sugerir temas de pesquisa (quem sabe para publicação na Revista Colirium). Hoje falaremos sobre Mistério, vilão do Homem-Aranha.


O Homem-Aranha surge a partir da história de Peter Parker, um jovem tímido, inteligente e socialmente deslocado, criado pelos tios Ben e May em Nova York. Sua vida muda radicalmente quando ele é picado por uma aranha radioativa durante uma visita escolar a um laboratório, adquirindo habilidades extraordinárias como força sobre-humana, agilidade, reflexos ampliados e a capacidade de escalar paredes. Inicialmente, Peter utiliza seus poderes de forma egoísta, buscando reconhecimento e ganhos pessoais. No entanto, após a morte trágica de seu tio Ben — morte que poderia ter sido evitada por ele — Peter aprende a lição que se torna o eixo moral da narrativa: “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”. A partir desse momento, o Homem-Aranha passa a viver um conflito permanente entre a vida comum e o dever heroico, marcado por culpa, sacrifícios e escolhas difíceis.


Mistério, cujo nome verdadeiro é Quentin Beck, é um dos vilões mais simbólicos do Homem-Aranha justamente por não se apoiar na força física, mas na ilusão, no engano e na manipulação da percepção. Ex-dublê e especialista em efeitos especiais, Beck utiliza tecnologia avançada, truques ópticos, hologramas, gases alucinógenos e encenações teatrais para criar ameaças falsas e confundir tanto o herói quanto o público. Seu capacete icônico em forma de redoma reforça essa estética de espetáculo e artifício. Mistério representa um antagonista psicológico: ele ataca a mente do Homem-Aranha, colocando em dúvida o que é real e explorando seus medos, culpas e inseguranças. Mais do que derrotar Peter fisicamente, Mistério busca controlar a narrativa, transformar a mentira em verdade e provar que a realidade pode ser moldada por quem domina a imagem.


Ele é uma figura metamórfica, assim como Shang Tsung, Máskara e Hagen (também ator), mas não possui poderes sobre-humanos: seus recursos são cênicos. Ou seja, ele manipula representações internas, e não externas, possíveis a partir da magia ou da ciência. Do ponto de vista da Represontologia, as representações internas de Mistério focam mais em sua capacidade normativa do que analítica: ele quer que sua ilusão seja crida como realidade — embora saiba que não é. É justamente aí que reside o seu “superpoder”: o domínio estratégico da verdade.


O vilão atua diretamente no chamado reservatório factual, criando factóides que contradizem aqueles da vítima, provocando um trânsito nos núcleos representacionais que gera desorientação. Esse processo faz com que o indivíduo deixe de confiar no próprio julgamento e, assim, não possua uma representação estável a partir da qual possa agir.







* Escritor e Pesquisador. Doutor, Mestre e Graduado em Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação

© 2018, Instituto Parajás (@institutoparajas)

 

Revista Parajás (@revistaparajas) - ISSN: 2595-5985

Revista Colirium (@revistacolirium) - ISSN: 3085-6655 

Revista IBEFAT (revistaibefat)

  • YouTube - círculo cinza
  • Facebook - círculo cinza
  • Instagram - Cinza Círculo
  • Spotify
bottom of page