MÍDIA E PRESENTE: COMO A REALIDADE ESTÁ DENTRO DA REPRESENTAÇÃO?
- Ricardo Cortez Lopes

- há 14 horas
- 2 min de leitura
Por Ricardo Cortez Lopes*
Quem considera a representação como se fosse um espelho provavelmente estranhará quando se fala da realidade dentro da própria representação.
Sim, a representação possui uma abordagem dualista: existe uma mente humana e existe um mundo externo. Mas não se trata de um dualismo extremo. Isso não significa que a mente não interfira na percepção, assim como um remédio também pode interferir no funcionamento da mente. A representação é um instrumento utilizado pela mente para simular o mundo externo, mas isso não quer dizer que não possam ocorrer misturas entre essas duas dimensões.
O mundo é percebido pelo aparelho cognitivo: os sentidos captam estímulos e os enviam, por meio dos neurônios, para o cérebro. Digamos que você enxergue um cachorro latindo. Nesse primeiro instante, porém, existe apenas um conjunto de informações: formas, cores, sons, movimentos e assim por diante.
Podemos dizer que esse cachorro, enquanto indivíduo, é uma mídia de uma representação. Ele existe fora da mente humana e transmite informações que poderão ser organizadas pelo sistema representacional.
Nesse primeiro momento, o conjunto de informações captado pelos sentidos passa a ser chamado de presente. Esse presente será comparado com o grande armazenamento factual da mente e, a partir da periferia, chegará a uma representação. Mas o trabalho ainda não está completo.
Você já teve a impressão de ter compreendido algo de maneira errada porque olhou muito rapidamente? Isso acontece porque a indexação pode acionar outra representação ou atribuir um peso maior a apenas uma das informações recebidas.
Por exemplo, a forma do cachorro visto de longe pode chamar mais a sua atenção, fazendo com que você associe diretamente aquele presente ao referente “lobo” e chegue, assim, à representação Lobo.
Depois, porém, você acessa essa representação em maior profundidade e compara outras informações presentes em seu armazenamento factual. Percebe, então, que:
aquele tipo de lobo que você inicialmente imaginou não existe no Brasil;
o animal está abanando o rabo;
ele não fugiu nem tentou atacar;
ele não está acompanhado de uma matilha.
Você se aproxima e acaricia a cabeça do animal. Ele não arranca a sua mão, o que lhe permite observar melhor a distância entre os olhos, o focinho, o porte e outras características.
Muito provavelmente, portanto, trata-se de um cachorro.
Nesse caso, seu armazenamento factual — ou episódico — acrescentará mais uma forma possível de cachorro. Dependendo da importância que esse animal assumir em sua vida, ele poderá até mesmo produzir uma nova representação individual.
Mas também pode acontecer de ser um cachorro diferente de tudo o que você já viu, a ponto de você quase não conseguir classificá-lo como cachorro. Nesse caso, o processo representacional será outro — e falaremos sobre ele em um momento oportuno.
A realidade está dentro da representação porque o presente carrega informações provenientes do referente externo. Essas informações não entram prontas na mente: são selecionadas, comparadas, indexadas e organizadas pelo sistema representacional.
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Referências:
LOPES, Ricardo Cortez. Repræsontologia: fundamentos da ciência das representações. São Paulo: UICLAP, 2024.
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* Escritor e Pesquisador. Doutor, Mestre e Graduado em Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
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