MORTAL KOMBAT E A REPRESONTOLOGIA
- Ricardo Cortez Lopes

- há 13 horas
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Por Ricardo Cortez Lopes*
A série “Represontologia da Cultura” apresenta artefatos culturais analisados por meio da represontologia, a ciência das representações. O objetivo é apresentar aplicações dos conceitos e também sugerir temas para pesquisas futuras destinadas a quem deseja trabalhar com represontologia. O post de hoje é sobre Mortal Kombat, mais especificamente sobre Shang Tsung, feiticeiro originário da Exoterra.
O poder mais conhecido do personagem é a capacidade de se transformar nos outros lutadores do jogo. Inicialmente, esse recurso também funcionava como um truque técnico para economizar imagens e modelos de personagens. Contudo, ele nos permite realizar algumas reflexões sobre as representações dos indivíduos.
Para a represontologia, cada pessoa possui uma vida representacional. Ao mesmo tempo, produz uma representação de si para os outros e participa da construção das representações que os demais formulam a seu respeito. Da mesma forma, cada indivíduo também produz representações sobre as pessoas com as quais convive ou que observa.
Shang Tsung, portanto, possui representações dos lutadores que encontra e consegue, por meio da magia, realizar uma metamorfose externa completa com base nelas. Ele altera sua aparência, assume a voz do outro personagem e copia aquilo que ele sabe fazer, incluindo suas técnicas de combate e habilidades especiais.
Provavelmente, essas representações são construídas pela observação das lutas durante o torneio e também pela absorção das almas de seus adversários. Ao absorver uma alma, Shang Tsung não adquire apenas energia: ele parece acessar parte da vida representacional daquele indivíduo.
A construção do corpo de uma pessoa depende, ao menos parcialmente, de sua trajetória e de sua vida representacional. O corpo carrega hábitos, gestos, habilidades, marcas e experiências acumuladas ao longo do tempo. A magia de Shang Tsung funciona, nesse sentido, como uma espécie de atalho para toda a trajetória daquela pessoa.
Ele não precisa viver as experiências que formaram o corpo do lutador, aprender seus movimentos ou desenvolver suas habilidades. A representação que possui do indivíduo transforma-se diretamente em corporeidade.
A mente de Shang Tsung, no entanto, permanece separada. Ele assume o corpo, a voz e as capacidades do outro, mas não deixa de ser ele mesmo. A representação externa é modificada por completo, enquanto sua identidade e seus objetivos permanecem preservados.
Ainda assim, somente a transformação da corporeidade já permite inúmeros disfarces, enganos e estratégias. Shang Tsung demonstra, portanto, como uma representação de outro indivíduo pode ser utilizada não apenas para imitá-lo, mas para ocupar temporariamente sua aparência e reproduzir sua trajetória corporal.
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Referências:
LOPES, Ricardo Cortez. Repræsontologia: fundamentos da ciência das representações. São Paulo: UICLAP, 2024.
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* Escritor e Pesquisador. Doutor, Mestre e Graduado em Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
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