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JIMMY NEUTRON, CIÊNCIA MÁGICA E A REPRESONTOLOGIA

Por Ricardo Cortez Lopes*


A série “Represontologia da Cultura” apresenta artefatos culturais analisados por meio da represontologia, a ciência das representações. Apresentamos obras e situações em que a representação ultrapassa um referente. Os objetivos dessa série são mostrar aplicações dos conceitos e também sugerir temas de pesquisa (quem sabe para publicação na Revista Colirium). Hoje falaremos sobre Jimmy Neutron.


Jimmy Neutron é uma animação que acompanha Jimmy, um garoto extremamente inteligente e um inventor genial que vive criando máquinas incríveis na cidade de Retroville. Apesar de seu intelecto avançado, ele enfrenta problemas típicos da infância, relacionados às amizades, à escola e às situações inesperadas provocadas por suas próprias invenções, que muitas vezes saem do controle. A animação mistura ciência, humor e aventura, mostrando que a genialidade não impede ninguém de enfrentar desafios cotidianos e aprender com os próprios erros.


Na sociologia e na história, fala-se muito da Belle Époque, período marcado pelo otimismo e pela expectativa positiva que parte da humanidade depositava na ciência, na tecnologia e no progresso. Esse otimismo foi profundamente abalado pelos acontecimentos do século XX, especialmente pelas guerras, pelo Holocausto e pela bomba atômica, episódios que fortaleceram as críticas à ideia de que o desenvolvimento científico conduziria necessariamente a humanidade a um futuro melhor.


Nesse contexto de otimismo, a tecnociência era vista quase como uma forma de magia. Era comum imaginar que o futuro seria maravilhoso e completamente tecnológico, chegando-se, muitas vezes, a excluir a própria natureza dessas representações.


A ciência aparecia, então, como uma liberação da imaginação, de modo que as representações seriam apenas um passo em direção à realidade. Em Jimmy Neutron, os inventos sugerem que o mundo pode ser dominado e que qualquer referente se torna alcançável quando existe a invenção correta. A representação deixaria de ser necessária porque a ciência seria capaz de abolir as fronteiras entre aquilo que se imagina e aquilo que pode existir.


Jimmy torna-se, assim, o intermediário dessa aparente eliminação da distância entre a representação e o referente. Isso faz dele um “gênio” não apenas no sentido de possuir uma inteligência extraordinária, mas também no sentido de realizar desejos. Aquilo que os outros personagens imaginam pode ser transformado por ele em realidade.


Desse modo, a fé na ciência aparece como uma representação constantemente reforçada pela tecnologia: quanto mais extraordinárias são as invenções de Jimmy, mais se alimenta a ideia de que a ciência pode tornar tudo possível.





Referências:


LOPES, Ricardo Cortez. Repræsontologia: fundamentos da ciência das representações. São Paulo: UICLAP, 2024.





* Escritor e Pesquisador. Doutor, Mestre e Graduado em Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

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