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GOD OF WAR E A REPRESONTOLOGIA

Por Ricardo Cortez Lopes*


A série Represontologia da Cultura apresenta artefatos culturais analisados por meio da represontologia, a ciência das representações. O objetivo é demonstrar como filmes, jogos, livros e outras produções culturais podem ilustrar conceitos da teoria represontológica, além de sugerir novas possibilidades de pesquisa (quem sabe para publicar na Revista Colirium). Nesta publicação, analisamos a franquia God of War.


Lançada em 2005, God of War acompanha a trajetória de Kratos, um guerreiro espartano que enfrenta deuses, monstros e criaturas da mitologia grega e, posteriormente, da mitologia nórdica. Ao longo de sua jornada, a narrativa desenvolve temas como vingança, culpa, redenção, paternidade e destino, ultrapassando o simples conflito entre heróis e divindades.


Se outras obras permitem discutir a ideia de um Deus absoluto, God of War abre espaço para refletirmos sobre deuses relativos e especializados: entidades que não criam toda a realidade, mas representam aspectos específicos dela, como a guerra, o mar, a sabedoria, o trovão ou a morte.


Nessa perspectiva, cada divindade pode ser compreendida como uma representação sobrenatural de determinada dimensão do mundo natural. Os fenômenos e as experiências humanas são personificados, adquirindo identidade, vontade, corpo e poder.


Por isso, as estátuas, os templos e as imagens dos deuses não representam diretamente os fenômenos naturais, mas as próprias representações sobrenaturais desses fenômenos. Em outras palavras, simbolizam entidades que já possuem um caráter representacional. Uma estátua de Ares, por exemplo, não representa diretamente a guerra, mas uma divindade que, por sua vez, representa a guerra.


Kratos ocupa uma posição singular nesse universo. Ao eliminar os deuses, ele destrói representações personificadas, algo possível porque essas representações assumem forma individual e corpórea. Diferentemente da ideia de um Deus absoluto, concebido como transcendente e não corporificado, os deuses de God of War podem ser enfrentados fisicamente justamente porque estão encarnados em personagens.


Cada divindade possui um corpo, uma personalidade, uma história e determinados poderes. A representação torna-se, portanto, um indivíduo que pode agir sobre o mundo, ser ferido e até mesmo morrer.


Outro aspecto interessante é que Kratos somente consegue derrotar essas divindades utilizando armas e artefatos igualmente sagrados. Isso sugere que uma representação transcendente somente pode ser superada por outra que compartilhe da mesma natureza simbólica. Uma arma comum não seria suficiente para destruir um deus; é necessário utilizar um objeto que também pertença à ordem do divino.


Ao derrotar uma divindade, Kratos não elimina necessariamente o referente representado. A morte de um deus da guerra, por exemplo, não significa o desaparecimento da guerra. O que é destruído é a forma personificada, corpórea e sobrenatural por meio da qual aquele fenômeno havia sido representado.


God of War oferece, assim, um rico campo para pensarmos como as representações se relacionam entre si, como adquirem corpo e poder e como podem ser combatidas, transformadas ou substituídas dentro de um sistema simbólico.





Referências:


LOPES, Ricardo Cortez. Repræsontologia: fundamentos da ciência das representações. São Paulo: UICLAP, 2024.





* Escritor e Pesquisador. Doutor, Mestre e Graduado em Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

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