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EFEITO BORBOLETA E A REPRESONTOLOGIA

Por Ricardo Cortez Lopes*


A série “Represontologia da Cultura” apresenta artefatos culturais analisados por meio da represontologia, a ciência das representações. O objetivo é apresentar aplicações dos conceitos e também sugerir futuros temas de pesquisa para quem deseja trabalhar com a represontologia (quem sabe para publicar na Revista Colirium). O post de hoje é sobre o filme Efeito Borboleta, lançado em 2004.


O filme apresenta a jornada trágica de Evan Treborn — nome que, curiosamente, pode remeter à ideia de um criador de árvores de probabilidades — ao descobrir que possui a capacidade de voltar no tempo. A partir disso, ele realiza sucessivas tentativas de corrigir os erros do passado, partindo da ideia de que cada efeito remete a uma causa: se conseguir impedir determinado acontecimento, as suas consequências também deixarão de existir.


O efeito borboleta, entretanto, demonstra exatamente o contrário. Sempre que um acontecimento é alterado, todo o contexto é recalculado, produzindo resultados novos e imprevisíveis. Evan consegue modificar uma causa específica, mas não pode controlar todas as relações que se reorganizam a partir dela.


Uma particularidade do filme é que, durante a viagem no tempo, Evan somente consegue retornar aos momentos que viveu, ocupando o próprio corpo que possuía naquela época. Conhecer os faraós? Descartado! Ele não viaja livremente pela História, mas apenas pela própria experiência.


Represontologicamente, são as mídias pessoais que permitem que Evan retorne ao passado: diários, fotografias, vídeos e outros registros. Essas mídias são compostas por representações externas, que normalmente funcionam como fósseis das representações internas. Elas conservam vestígios daquilo que o indivíduo viu, sentiu, pensou ou viveu em determinado momento.


Evan, entretanto, não acessa apenas o registro externo. Por meio dele, consegue alcançar a própria representação interna que possuía no momento em que aquela experiência foi produzida e registrada. Ele não apenas relembra o acontecimento: retorna ao sistema representacional que realizou aquela leitura da realidade.


Assim, ao entrar em contato com suas representações do passado — que normalmente deveriam ser incompletas —, elas se tornam tão intensas que seu corpo volta a assumir o sistema representacional da época relembrada. A representação modifica literalmente o corpo e o próprio tempo acompanha essa transformação.


Evan, porém, não perde suas representações atuais. Ele continua carregando as memórias e os conhecimentos do presente enquanto ocupa o corpo do passado. Talvez seja por isso que não consiga permanecer naquela época durante muito tempo: possivelmente ocorre uma sobrecarga neuronal provocada pela convivência de dois sistemas representacionais pertencentes a momentos distintos.


Ao final da experiência, Evan retorna ao ponto exato do tempo de onde partiu, mas não necessariamente à mesma condição espacial, corporal ou existencial. O presente foi modificado de maneira imprevisível pelas alterações realizadas no passado.


Em Efeito Borboleta, portanto, a representação não apenas recupera uma experiência: ela reorganiza o corpo, transforma o tempo e recalcula toda a realidade.





Referências:


LOPES, Ricardo Cortez. Repræsontologia: fundamentos da ciência das representações. São Paulo: UICLAP, 2024.





* Escritor e Pesquisador. Doutor, Mestre e Graduado em Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.


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