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DRAGON BALL E A REPRESONTOLOGIA

Por Ricardo Cortez Lopes*


A série “Represontologia da Cultura” apresenta artefatos culturais analisados por meio da represontologia, a ciência das representações. O objetivo é apresentar aplicações dos conceitos e também sugerir temas para pesquisas futuras destinadas a quem deseja trabalhar com represontologia (quem sabe para publicar na Revista Colirium). Reúna as Esferas do Dragão e venha conferir a relação entre representação e Dragon Ball.


Dragon Ball é uma das franquias mais influentes da cultura pop japonesa, criada por Akira Toriyama em 1984. Misturando aventura, artes marciais, fantasia e ficção científica, a série acompanha a trajetória de Goku desde a infância até a vida adulta, enfrentando inimigos poderosos e formando alianças em diferentes planetas e dimensões.


O ponto de partida da narrativa é a busca pelas Esferas do Dragão, artefatos místicos que, quando reunidos, invocam Shenlong, um dragão celestial capaz de conceder desejos. Shenlong tornou-se um dos símbolos centrais da franquia, aparecendo ao longo de diversas sagas para restaurar vidas, reverter tragédias e realizar pedidos grandiosos.


Com sua forma serpentina e sua presença imponente, ele representa o elo entre o mundo dos mortais e as forças cósmicas. Também pode ser compreendido como a materialização do potencial transformador das escolhas humanas dentro do universo ficcional de Dragon Ball.


O aspecto mais interessante para a represontologia é o próprio Shenlong e sua capacidade de conceder desejos. Mais especificamente, interessa-nos o mecanismo utilizado para transformar um desejo em realidade.


A magia é algo particularmente interessante para essa ciência, pois o desejo se fundamenta em uma representação interna que define como o mundo deveria ser. Bulma, por exemplo, queria encontrar um namorado. Trata-se da representação de uma realidade desejada, mas que ainda não existia no momento em que foi formulada.


Em condições normais, um indivíduo utiliza essa representação como uma projeção e, com o passar do tempo, pode utilizá-la como padrão para analisar sua própria vida. Entretanto, a concretização de um desejo depende de ações, do trabalho de outras representações e de determinado investimento de tempo.


A magia do Dragão consiste justamente em eliminar essas etapas e tornar imediatamente concreto aquilo que foi pensado e comunicado por meio da fala. Até por isso podem ocorrer erros: o desejo precisa ser formulado verbalmente, e qualquer imprecisão na linguagem pode produzir consequências inesperadas, como mostra o início de Dragon Ball GT.


Além de imediata, a realização promovida por Shenlong parece ser uma concretização perfeita. Isso nos permite levantar pelo menos duas possibilidades.


A primeira é a de que o Dragão possua uma espécie de episteme platônica, isto é, um estoque de representações em seu estado perfeito, que lhe permite compreender e materializar qualquer pedido.


A segunda possibilidade é a de que Shenlong consiga realizar uma leitura direta da representação interna do indivíduo. Isso, porém, apresenta um problema: cada sistema representacional possui uma linguagem própria, e o acesso imediato à representação de outra pessoa ainda seria impossível nas condições normais.


A busca pelas Esferas do Dragão poderia ser compreendida como a parcela de trabalho humano necessária para concretizar a representação. Os personagens precisam viajar, enfrentar perigos, solucionar problemas e reunir os sete artefatos antes de formular o pedido.


Entretanto, muitos dos desejos concedidos não resultam diretamente desse trabalho. A busca permite acessar o poder de Shenlong, mas não produz, por si mesma, o objeto desejado. Portanto, as Esferas não funcionam apenas como um atalho para uma concretização que poderia ser realizada normalmente.


Freeza e Vegeta, por exemplo, desejavam alcançar a vida eterna. Esse é um desejo diferente de se tornar rei do mundo, objetivo que, embora extremamente difícil, ainda poderia ser alcançado por ações políticas, militares ou sociais. A imortalidade, por outro lado, ultrapassa as possibilidades conhecidas da ação humana.


Em Dragon Ball, portanto, Shenlong transforma representações internas em realidades externas sem exigir o processo comum de planejamento, trabalho, transformação e avaliação. O desejo deixa de ser apenas uma projeção do mundo possível e passa a funcionar como uma ordem capaz de reorganizar imediatamente a própria realidade.





Referências:


LOPES, Ricardo Cortez. Repræsontologia: fundamentos da ciência das representações. São Paulo: UICLAP, 2024.





* Escritor e Pesquisador. Doutor, Mestre e Graduado em Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

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