COMPARAÇÃO ENTRE OS MÉTODOS SOCIOLÓGICO E REPRESONTOLÓGICO
- Ricardo Cortez Lopes

- 19 de jan.
- 4 min de leitura
Por Ricardo Cortez Lopes*
A Represontologia dialoga intensamente com a Sociologia, sobretudo porque ambas se consolidaram como ciências em contextos relativamente recentes. A Sociologia, apesar de jovem, alcançou um prestígio acadêmico comparável ao de disciplinas milenares, especialmente a partir das contribuições de Émile Durkheim. Inspirada por esse percurso, a ciência das representações opta por adotar princípios metodológicos semelhantes aos da Sociologia clássica, adaptando-os às especificidades de seu objeto de estudo.
Tanto a Sociologia durkheimiana quanto a Represontologia propõem métodos próprios para investigar seus objetos, fundamentados em concepções distintas sobre o que deve ser analisado e sobre como fazê-lo cientificamente. Enquanto Durkheim se dedica aos fatos sociais — compreendidos como realidades objetivas, exteriores e dotadas de poder coercitivo —, a Represontologia concentra-se nas representações, entendidas como unidades moldáveis, comparáveis entre si e expressas em diferentes mídias.

1. O objeto: fatos sociais e representações
Para Durkheim, os fatos sociais são maneiras coletivas de agir, pensar e sentir que existem independentemente do indivíduo e exercem sobre ele certa pressão normativa. Já o método represontológico propõe como objeto central a representação, concebida não apenas como construção ativa, mas também como algo dotado de comportamento, trajetória e composição própria, conforme indica a regra da Individualidade.
Ambos os métodos lidam com fenômenos que ultrapassam o indivíduo isolado. No entanto, diferem no grau de autonomia atribuído aos seus objetos. Durkheim tende a despersonalizar o fato social, tratando-o como uma “coisa”. A Represontologia, por sua vez, reindividualiza a representação, atribuindo-lhe quase o estatuto de um ente com “biografia” e “intencionalidade percebida”, aspecto associado à noção de Prepotencialidade.
2. Epistemologia: objetividade versus relacionalidade
O projeto durkheimiano busca uma ciência social marcada pela objetividade e pela neutralidade axiológica. O sociólogo deve explicar os fatos sociais sem recorrer a julgamentos de valor, privilegiando o que é externo, observável e mensurável. A introspecção e a subjetividade são, nesse modelo, vistas com cautela.
Já a Represontologia adota uma epistemologia mais relacional e interpretativa. Seu interesse não recai apenas sobre o que é representado, mas sobre como e por quem a representação é produzida e circula. Nesse sentido, conceitos como Moldância, Midialidade e Escalabilidade evidenciam que toda representação carrega marcas de sua forma de produção, de seus meios de difusão e de seus contextos de circulação.
3. O método comparativo: convergências e diferenças
A comparação ocupa um papel central em ambos os métodos. Durkheim recorre ao método comparativo para identificar causas sociais e regularidades entre diferentes sociedades, buscando formular leis gerais do funcionamento social.
Na Represontologia, a Comparatibilidade constitui uma regra fundamental: conhecer implica comparar representações ou seus diferentes estados. A comparação permite investigar o que é a representação em si — questão teórica central da área.
A diferença reside no foco da análise. Enquanto a comparação durkheimiana é orientada à descoberta de leis universais, a Represontologia interessa-se sobretudo pelo comportamento e pela composição das representações, observando suas variações em múltiplas escalas de análise, conforme a lógica da Escalabilidade.
4. Mente, corpo e mediação
Durkheim evita explicações de cunho psicológico e privilegia interpretações de ordem social. Para ele, recorrer à subjetividade poderia comprometer a objetividade científica.
A Represontologia, ao contrário, parte do princípio de que as representações podem ser internas à mente humana ou externas a ela. A regra da Internalidade x Externalidade reconhece a dimensão mental como um campo legítimo de investigação. Além disso, a noção de Midialidade destaca o papel dos sentidos, da materialidade e da mediação perceptiva, aproximando a Represontologia de debates contemporâneos da semiótica, da fenomenologia e dos estudos da mídia.
5. Ontologia: o ser do social e o ser da representação
Para Durkheim, os fatos sociais possuem existência objetiva e autonomia em relação aos indivíduos. Já a Represontologia opera com uma ontologia mais fluida e dinâmica. As representações são compreendidas como “moldes moldantes moldados”: elas moldam o mundo, são moldadas por ele e também se transformam a partir de suas próprias dinâmicas. A Moldância expressa justamente esse caráter recursivo e mutável da realidade representacional.
6. Considerações finais
Embora o método sociológico de Durkheim e o método represontológico partam de pressupostos distintos — o primeiro orientado pela busca da objetividade no social, o segundo voltado à plasticidade das representações —, ambos reconhecem que seus objetos não se reduzem a indivíduos isolados, mas dependem de sistemas, estruturas e contextos mais amplos.
A principal diferença entre eles reside nos planos ontológico e epistemológico. Durkheim aposta em uma cientificidade clássica, baseada na exterioridade e na causalidade. A Represontologia, por sua vez, adota uma abordagem simbólica, escalável e relacional, que abre espaço para a análise das mídias, das subjetividades e das ambivalências próprias do universo das representações.
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Referências:
DURKHEIM, Émile. Les régles de Ia métode sociologique. 11ª edição. Paris: Press Universitaires de France, 1950.
LOPES, Ricardo Cortez. Repræsontologia: fundamentos da ciência das representações. São Paulo: UICLAP, 2024.
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* Escritor e Pesquisador. Doutor, Mestre e Graduado em Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.



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