CAVERNA DO DRAGÃO E A REPRESENTAÇÃO
- Ricardo Cortez Lopes

- há 1 dia
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Por Ricardo Cortez Lopes*
A série “Represontologia da Cultura” apresenta artefatos culturais analisados por meio da represontologia, a ciência das representações. Apresentamos obras e situações em que a representação ultrapassa um referente. Os objetivos desta série são mostrar aplicações dos conceitos e também sugerir temas de pesquisa (quem sabe para publicar na Revista Colirium). Hoje falaremos sobre Caverna do Dragão, desenho dos anos 1980, mais especificamente sobre a capacidade de invisibilidade de uma de suas personagens.
Caverna do Dragão é um desenho animado que conta a história de um grupo de jovens que, ao entrar em um brinquedo de parque de diversões chamado “Caverna do Dragão”, é transportado para um mundo mágico e perigoso. Nesse novo mundo, os jovens recebem armas e habilidades do Mestre dos Magos e passam a viver diversas aventuras, enfrentando vilões como o Vingador e Tiamat enquanto tentam encontrar um caminho de volta para casa.
A série mistura fantasia, amizade, coragem e dilemas morais, mostrando personagens que precisam amadurecer e aprender a trabalhar em equipe para sobreviver e evoluir naquele mundo.
Um dos poderes apresentados na animação é o da invisibilidade proporcionada pela capa de Sheila. Trata-se de um poder mágico concentrado no objeto, e não no usuário da magia. Embora Presto seja o personagem pertencente à classe dos magos, Sheila pertence à classe dos ladrões e utiliza a capa para desaparecer diante dos olhos dos outros personagens.
Na prática, a invisibilidade permite que uma representação deixe de se manifestar para o sentido da visão. É como uma ausência de luz, mas com uma diferença importante: na escuridão completa, todos sabem que não estão enxergando; diante de alguém invisível, porém, o observador continua utilizando normalmente a visão, sem perceber aquilo que está diante dele.
Em uma batalha, isso provoca grande aflição no inimigo, pois a visão é um dos principais sentidos que funcionam à distância. O adversário continua enxergando o ambiente, mas perde a possibilidade de localizar visualmente aquele que se tornou invisível. O referente permanece presente, embora a sua representação visual tenha desaparecido.
É importante ressaltar, entretanto, que a visão não é o único sentido capaz de produzir e recolher representações. O tato também o faz, especialmente por meio da percepção de riscos, texturas, diferentes pressões sobre a pele e temperaturas extremas. A audição pode captar palavras e outros sons, embora não permita rever o estímulo depois que ele deixa de ser produzido. O paladar distingue os sabores, que podem evocar representações por meio da memória. O olfato também permite perceber uma grande variedade de cheiros e associá-los a objetos, lugares e experiências.
A representação visual, porém, possui uma particularidade: o objeto percebido pela visão geralmente não é efêmero como o som. Ele não se desfaz imediatamente e pode permanecer disponível durante mais tempo. Além disso, a visão permite perceber imagens, letras, números, formas, cores e movimentos.
A invisibilidade de Sheila não elimina o referente, mas impede que ele produza uma representação visual para os outros personagens. Seu corpo continua presente, podendo emitir sons, tocar objetos e ser percebido por outros sentidos. O que desaparece não é Sheila, mas a possibilidade de sua apreensão pela visão.
Curso de Introdução à Represontologia: https://www.institutoparajas.org/challenge-page/cc27cc60-1b9a-46f6-8d40-cad208f5a28b?programId=cc27cc60-1b9a-46f6-8d40-cad208f5a28b&participantId=aa1ccc75-5a7a-4ed5-a6a3-681736b3eea6
Referências:
LOPES, Ricardo Cortez. Repræsontologia: fundamentos da ciência das representações. São Paulo: UICLAP, 2024.
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* Escritor e Pesquisador. Doutor, Mestre e Graduado em Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
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