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BATMAN, CARA-DE-BARRO E A REPRESONTOLOGIA

Atualizado: 17 de jan.

Por Ricardo Cortez Lopes*


A série Represontologia da Cultura apresenta artefatos culturais estudados por meio da Represontologia, a ciência das representações. O objetivo é apresentar aplicações dos conceitos e também sugerir temas de pesquisa (quem sabe para publicação na Revista Colirium). Hoje é dia de falar de Hagen, personagem do universo Batman.


Hagen é uma metamorfose, alguém que muda de forma externa, tal como Máskara e Shang Tsung. Trata-se do sobrenome de Basil Karlo Hagen, mais conhecido como Clayface (Cara-de-Barro) em muitas versões modernas de Batman. Originalmente um ator famoso cuja carreira entra em declínio, ele sofre um acidente envolvendo um composto experimental que lhe concede a capacidade de transformar seu corpo em argila maleável. Isso lhe permite mudar de forma, imitar qualquer pessoa e assumir aparências monstruosas, tornando-o um dos inimigos mais trágicos e complexos do Batman. Hagen costuma ser retratado como alguém dividido entre o desejo de recuperar sua humanidade e a perda progressiva de sua identidade, oscilando constantemente entre vítima e vilão no universo sombrio de Gotham. Que tal analisar algumas representações?


A primeira delas diz respeito ao fato de que o ator, por princípio geral, empresta seu corpo para as representações intencionais do personagem. Aqui, o fingimento do ator é deslocado: Hagen mantém suas representações e troca o formato do próprio corpo. A suspensão da descrença, tão necessária ao ator, já não se faz necessária, pois o engano de Hagen é real: ele contorna a condição do universo ficcional do palco, e as pessoas são efetivamente enganadas. Essa referência faz todo sentido, uma vez que o Hagen da mitologia nórdica também enganava reiteradamente suas vítimas, incluindo Siegfried.


A argila remete à escultura e é moldada a partir de uma representação interna de seu autor-manipulador. Por ser maleável, permite um alto grau de nitidez: pode assumir formas e ângulos específicos, ser tátil, portar odores escolhidos, entre outros aspectos. Contudo, não possui mobilidade própria, não transmite sensação de vida e, após alguns instantes, sua ilusão de realidade se dissipa. Por fim, a questão da identidade revela-se particularmente interessante nesse personagem. Afinal, suas representações intencionais permanecem as mesmas, mas ele pode assumir outras corporalidades e precisa interpretar diferentes personalidades com frequência. Isso faz com que suas próprias representações deixem de ser corroboradas ou passem a ser constantemente colocadas em dúvida, já que seu ponto de vista se altera conforme a identidade que precisa imitar. Assim, suas representações não produzem segurança, mas, ao contrário, instauram a insegurança como traço central.







* Escritor e Pesquisador. Doutor, Mestre e Graduado em Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

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