AS VISÕES DA RAVEN E A REPRESENTAÇÃO
- Ricardo Cortez Lopes

- há 13 horas
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Por Ricardo Cortez Lopes*
A série “Represontologia da Cultura” apresenta artefatos culturais analisados por meio da represontologia, a ciência das representações. O objetivo é apresentar aplicações dos conceitos e também sugerir temas para pesquisas futuras destinadas a quem deseja trabalhar com represontologia. O post de hoje é sobre As Visões da Raven, série da Disney que também foi exibida pelo SBT.
O nome da personagem remete ao corvo — raven, em inglês —, figura que aparece em muitas culturas como a ave dos presságios, geralmente negativos. Na série, Raven também possui presságios por meio de suas visões. Essa habilidade aparentemente apresenta uma dimensão genética, pois alguns de seus parentes também conseguem ter visões do futuro.
Raven consegue enxergar pequenos fragmentos do que ainda acontecerá. A partir deles, procura agir no presente para escapar de um futuro negativo — no melhor estilo das tragédias gregas — ou para garantir que uma possibilidade positiva realmente se concretize.
Ela, porém, não consegue se deslocar no tempo. Apenas sua percepção parece expandir os limites do presente, permitindo-lhe captar uma cena antes que os acontecimentos possam ser apreendidos normalmente pelos sentidos.
Nesse ponto, a habilidade de Raven inverte o processo representacional. Em condições normais, é necessário que uma mídia ofereça informações aos sentidos para que uma representação seja acionada. Raven, entretanto, acessa a representação de um acontecimento antes que exista uma mídia presente capaz de produzi-la.
O futuro não costuma ser percebido por meio da representação porque ainda não existem registros daqueles episódios no armazenamento factual. Podemos formular um palpite sobre aquilo que acontecerá com base no conteúdo do núcleo associativo, mas esse resultado será apenas uma estimativa.
Raven, por outro lado, não parece realizar uma simples previsão. Ela efetivamente acessa fragmentos de acontecimentos futuros. Mesmo assim, frequentemente interpreta suas visões de maneira equivocada, pois recebe apenas uma parte da cena e procura completar o restante com as representações que já possui.
É justamente daí que surgem muitos dos enganos da personagem. Para impedir que determinado futuro aconteça, Raven age com base em uma representação incompleta e, muitas vezes, acaba colaborando para a realização da própria visão. Quando isso ocorre, ela aciona seu outro grande talento: os disfarces.
Segundo a represontologia, portanto, o futuro visto por Raven poderia ser considerado um referente?
No universo de Efeito Borboleta, provavelmente não, porque cada alteração no passado recalcula o contexto e produz um futuro diferente e imprevisível. Em As Visões da Raven, porém, parece que sim. O futuro já está, de algum modo, constituído: ele funciona como um destino — ou como uma tragédia —, variando principalmente o caminho pelo qual os personagens chegarão até ele.
Raven pode modificar suas ações e produzir diferentes representações resultantes, mas a cena que apareceu em sua visão tende a se concretizar. O futuro, nesse caso, não é apenas uma possibilidade imaginada: ele atua como um referente que ainda não chegou ao presente, mas que já pode ser parcialmente representado.
Curso de Introdução à Represontologia: https://www.institutoparajas.org/challenge-page/cc27cc60-1b9a-46f6-8d40-cad208f5a28b?programId=cc27cc60-1b9a-46f6-8d40-cad208f5a28b&participantId=aa1ccc75-5a7a-4ed5-a6a3-681736b3eea6
Referências:
LOPES, Ricardo Cortez. Repræsontologia: fundamentos da ciência das representações. São Paulo: UICLAP, 2024.
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* Escritor e Pesquisador. Doutor, Mestre e Graduado em Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
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