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"A INTERNET DEU VOZ A UMA LEGIÃO DE IMBECIS": IGNORÂNCIA, ALGORITMO E A ATUALIDADE DE HUMBERTO ECO

Por Georgino Jorge de Souza Neto*


Sempre me comoveu profundamente a frase ("A internet deu voz a uma legião de imbecis") do genial Umberto Eco, não apenas pela contundência, mas pela delicadeza involuntária com que ela descreve um fenômeno histórico: a primeira vez em que a humanidade confundiu acesso à fala com autoridade do pensamento.


Antes da internet, o imbecil era uma figura doméstica, restrita ao bar da esquina, ao almoço de domingo, ao parente inconveniente que a família fingia não ouvir. A tecnologia, magnânima, decidiu democratizar essa experiência. Deu microfone, plateia, curtidas e — o mais grave — a sensação de que opinião equivale a conhecimento. Nunca foi tão fácil sentir-se Sócrates sem o inconveniente de estudar, duvidar ou, pior ainda, pensar.


Eco não falava de censura, como alguns apressados gostam de supor, mas de hierarquia simbólica. Havia um tempo em que a ignorância tinha pudor. Hoje ela tem Wi-Fi, pacote de dados ilimitado e um senso missionário invejável. O imbecil contemporâneo não apenas fala, ele milita. Ele acusa quem realmente sabe de elitismo, conspiração ou comunismo, conforme o humor do algoritmo.


O drama não está no fato de existirem imbecis (eles sempre existiram, com saúde e vitalidade). O drama é que agora eles se reconhecem, se organizam, se validam mutuamente e produzem estatísticas. A estupidez, que antes era individual e constrangedora, tornou-se coletiva e performática. Ganhou hashtags, lives e uma convicção inabalável de que a complexidade é sempre suspeita.


Eco, com a elegância dos verdadeiramente inteligentes, não gritou. Apenas constatou. E talvez o mais cruel de sua frase seja isso: ela não envelhece. Ao contrário, se atualiza. A cada novo comentário indignado, a cada certeza absoluta escrita em caixa alta, a cada especialista instantâneo em tudo, da geopolítica às sandálias Havaianas, a frase de Umberto Eco não se repete: ela se confirma.


E nós seguimos comovidos. Não porque seja triste, mas porque é brilhante demais para ser ignorada.





* Escritor Profissional e Pesquisador. Doutor e Mestre em Estudos do Lazer pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Graduado em Educação Física pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). Professor da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes).

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