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LIGA DA JUSTIÇA E A REPRESENTAÇÃO

Por Ricardo Cortez Lopes*


A série “Represontologia da Cultura” apresenta artefatos culturais analisados à luz da Represontologia, a ciência das representações. Seu objetivo é demonstrar aplicações práticas de seus conceitos, além de sugerir possíveis temas de pesquisa para aqueles que desejam se aprofundar nesse campo teórico (quem sabe para publicação na Revista Colirium). O post de hoje dedica-se à personagem Ás, integrante da gangue Royal Flush, do universo da Liga da Justiça.


Ás aparece no episódio final da animação “Liga da Justiça Sem Limites”. A gangue Royal Flush é composta por membros cujos poderes e aparências remetem às cartas de um baralho. No entanto, a figura mais relevante do grupo é, sem dúvida, Ás — uma menina dotada da capacidade de ler mentes e alterar a própria realidade. Todo esse poder, porém, encontra-se associado a uma mente profundamente marcada por traumas decorrentes de uma trajetória de extrema vulnerabilidade social e de experimentos conduzidos pelo governo. No episódio em questão, Ás encontra-se em processo de morte, e Amanda Waller solicita ao Batman que intervenha para contê-la antes que provoque ainda mais destruição.


Enquanto personagem, Ás pode ser compreendida como uma versão ainda mais poderosa de figuras como Charles Xavier e Jean Grey, uma vez que não apenas acessa mentes alheias, mas também modifica a realidade. É justamente essa habilidade que lhe permite conceder poderes aos demais integrantes da gangue e construir um mundo que funciona como reflexo direto de sua própria mente.


Do ponto de vista represontológico, a mente humana opera por meio de representações internas, criando uma espécie de “maquete livre” do mundo externo. Em um primeiro nível, Ás é capaz de perceber essas maquetes mentais e inseri-las nas mentes de outros indivíduos. Ao controlar suas ações, ela introduz sua própria voz como se fosse uma decisão autônoma do outro, fazendo com que a vítima acredite estar seguindo sua própria consciência e uma moralidade supostamente calculada.


Em um segundo nível, as maquetes internas da própria Ás passam a interferir diretamente naquilo que ela percebe. A personagem entra em contato com representações externas e as modifica de acordo com suas representações internas, operando essa troca de forma plena e consciente. Esse processo subverte o funcionamento representacional considerado comum, no qual as representações internas se ajustam gradualmente à realidade externa.


Evidentemente, outras questões emergem dessa análise: de onde provém a matéria-prima para a efetivação das representações internas de Ás? Como essas representações são combinadas sem o trabalho humano deliberado e de forma instantânea? No universo da narrativa, a magia surge como explicação última. Ainda assim, mesmo a magia carrega mistérios que se mostram extremamente férteis para a reflexão represontológica.





Referências:


LOPES, Ricardo Cortez. Repræsontologia: fundamentos da ciência das representações. São Paulo: UICLAP, 2024.





* Escritor e Pesquisador. Doutor, Mestre e Graduado em Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

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