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O SUICÍDIO DE IDOLS E UMA REFLEXÃO SOBRE O K-POP COMO UMA INSTITUIÇÃO TOTAL

Atualizado: 17 de dez. de 2023




Por Suzana Nascimento Veiga*


No dia 19 de abril de 2023 foi noticiado que Moonbin o idol de 25 anos e membro do grupo de k-pop Astro foi encontrado morto em sua residência, tendo, provavelmente, tirado a própria vida. Como pesquisadora e fã de k-pop, meu pensamento elabora o que é mais óbvio: a indústria do k-pop e a forma como ela funciona e atinge seus jovens trabalhadores é uma máquina a serviço do capital que esmaga e mói esses jovens, arrasando suas saúdes físicas e mentais em diversos níveis, e infelizmente nada muito diferente do que o patriarcado capitalista já não opere conosco em nosso cotidiano.


Figura 1: Moon Bin (1998- 2023). Fonte: Google


Para esta análise especificamente, vou utilizar os conceitos de “Instituição total” e “mortificação do eu”, desenvolvidos pelo sociólogo canadense Erving Goffman na obra “Manicômios, prisões e conventos, uma análise das relações nas instituições totais”. Esses conceitos me parecem interessantes para abordar o k-pop enquanto uma indústria ou uma “instituição” e em como a vida dos sujeitos explorados dentro dessa estrutura estão à mercê de formas diversas de adoecimento físico e mental enquanto transformam suas vidas em belas mercadorias a serem comodificadas para a indústria do entretenimento.


É importante deixar claro que, ao mesmo tempo que enxergamos uma indústria que transforma vidas em mercadoria e mói sujeitos, também enxergamos esses sujeitos como agentes capazes de estratégias e táticas de resistência, como já debatemos em artigos anteriores, sobre o poder sociopolítico do fandom e, em artigo científico ainda a ser publicado, sobre como os grupos de k-pop constroem também suas críticas e resistências às empresas. Como qualquer sujeito político, esses indivíduos e grupos não são passivos, e entender as perdas e lutas dentro dessa estrutura é também entender a complexidade e o tensionamento de qualquer campo dentro do sistema patriarcal e capitalista.


Tendo essas questões em vista, falar sobre o suicídio de jovens idols é olhar não apenas para o k-pop enquanto espaço isolado, mas entender sua conexão com uma panorama maior de uma sociedade onde o desespero, a desesperança e a angústia dos jovens causadas por diversos fatores que têm como raiz o capitalismo e o patriarcado em suas manifestações local e global é caminhar em um tema delicado que envolve não apenas números, mas pessoas com nome, sobrenome, carreiras, amores, amigos, famílias e cuja vida e também a morte merecem respeito e cuidado na abordagem.


O suicídio é um tema sensível e que merece uma aproximação cuidadosa, especialmente já que estamos falando de uma realidade social, política e, sobretudo, moral, que é muito distinta da nossa constituição moral cristã. Esse já é um ponto de partida: compreender que, para as sociedades asiáticas de moral confucionista diferentemente das cristãs ocidentais , o suicídio não possui peso de “pecado”. Entretanto, para a ética confucionista que orienta a formação do estado e da sociedade sul coreana, o individuo não existe para si e sim como parte de sua comunidade, sua família, seu grupo. Logo, mesmo que o suicídio não seja visto como uma contravenção contra Deus ou a igreja, dependendo do porquê o indivíduo o cometeu, ele pode ser considerado como indigno e, portanto, motivo de vergonha segundo a ética confucionista. O indivíduo pode ser creditado como aquele que desonrou sua família e perdeu sua dignidade se as razões pelas quais tirou a vida forem vistas como “egoístas”.


O suicídio possível na ética confucionista é aquele que está atrelado a condições terríveis de sobrevivência associadas ao corpo biológico e/ou aquele que honra sua família ou grupo. Ou seja, uma morte que tenha como princípio honrar sua família ou seu grupo de alguma forma e que não rompa com a obrigação moral, social e política que o sujeito tem para com o estado, a família e a empresa, por exemplo.


A morte de jovens, entre eles os idols, por questões principalmente de saúde mental, é vista como uma desonra e uma decisão egoísta e indigna. O peso social desse ato é imenso e pode marcar inclusive a família da pessoa falecida. O lado complementar dessa moeda é o aumento impressionante do número de suicídios entre jovens de 15 a 24 anos na Coreia do Sul e, entre esses jovens, vários idols.


Segundo pesquisa efetuada pelos pesquisadores Jin Pyo Hong, Myeng Ji Bae e Tongwoo Suh da universidade de Ulsan, os índices de suicídio, especialmente entre jovens, no período de 1990 até 2002 na Coréia do Sul aumentaram de maneira alarmante, como mostra o gráfico abaixo retirado do artigo “Epidemiology of Suicide in Korea”, publicado pelos três pesquisadores em 2006.


Figura 2: Índice de suicídios por faixa etária na Coréia do Sul entre 1990 e 2002. Fonte: Epidemiology of Suicide in Korea (2006)


Esses suicídios não possuem uma única causa; eles são ocasionados por diversos fatores que têm sido exaustivamente estudados e explicitados por pesquisadores na Coréia do Sul e fora dela. Lisa Marie Longenecker, em sua tese “Suicide, Precarity, and Korean Media: A Sociocultural Analysis of the Adolescent Suicide Epidemic in South Korea”, lista como principais fatores para o suicídio entre jovens: primeiro, a educação sul-coreana com um sistema altamente competitivo e marcada pela violência e bullying entre os próprios alunos e com seus superiores é um dos motivadores.


Como segundo fator, a pesquisadora aponta para as relações interpessoais. Esse é um ponto importante a ser debatido. Na sociedade sul-coreana, devido à ética centrada nas relações familiares, a família representa a maior influência e a maior quantidade de interações sociais que o jovem tem. Entretanto, os pais sul-coreanos têm a tendência a cobrar excessivamente sobre o desempenho escolar dos filhos, visto que a educação é tida como fundamental para a vida bem-sucedida pela perspectiva da moral confucionista e tem levado a números alarmantes de abuso infantil. No ano de 2014, segundo o Ministério da saúde e bem-estar da Coréia, foram reportados 17.791 casos de abuso infantil, isso sem contar o grosso dos abusos que não são reportados devido também à alta hierarquia estabelecida entre as famílias no país.


Essa questão, aliada à terceira, que é falta de perspectiva de vida digna para os jovens devido à inflação, alta competitividade no mercado de trabalho e outras demandas do mercado capitalista, tem levado os jovens a índices de depressão alarmantes. Na Coréia do Sul, conseguir um bom posto de trabalho duradouro e bem pago implica um investimento altíssimo desde a infância. Para exemplificar, reproduzo abaixo uma figura elaborada por Longenecker em sua tese:


Figura 3: The Socieconomic Divide in the Korean Education & Job Market.


O ciclo inicia com a garantia de que as crianças possam ter acesso a instituições de educação de altíssima qualidade. Na Coréia, as instituições privadas de ensino que preparam jovens das famílias abastadas para ocupar os melhores postos de trabalho e o topo dos conglomerados de empresas são as Hakwons. Depois delas, mais escolas selecionadas, universidades de renome e, por fim, a garantia de um trabalho bem colocado.


Para a maioria das famílias em um país marcado pela desigualdade econômica, a realidade é de vulnerabilidade e precarização, levando os jovens a perderem sonhos e desacreditarem em possibilidades de melhora ou mesmo de dignidade. Neste sentido, podemos puxar o gancho para a indústria do entretenimento. Para muitas famílias sul-coreanas, a vida como trainee ou idol de k-pop é uma possibilidade para os jovens terem possibilidades de fama, sucesso, dinheiro e também salvação de uma vida de miséria.


As empresas de K-pop têm o ambiente ideal para construir contratos exploratórios e desumanos e, assim, explorar a força de trabalho, o corpo e a mente desses jovens, até que o que poderia ser uma possibilidade de salvação se torne também um caminho para a mortificação desses sujeitos, levando muitos a verem o suicídio como uma possibilidade para o fim de sua dor.


Erving Goffman, que pensou diversos espaços como a chamada “instituição total”, afirma que este é “um lugar de residência e de trabalho onde um grande número de indivíduos, colocados numa mesma situação, cortados do mundo exterior por um período relativamente longo, levam em conjunto uma vida reclusa segundo modalidades explícita e minuciosamente regulamentadas (...)" (p. 11). Goffman afirma que a vida na sociedade moderna é geralmente marcada pelo fato de que nós comemos, brincamos e trabalhamos em lugares diferentes, como regra, e que nas I.T.s isso tudo é feito em um mesmo local, sob uma única autoridade. A indústria do K-pop se configura como IT exatamente neste sentido.


Os grupos de k-pop começam a se formar a partir do momento em que, recrutados, os jovens se tornam trainees, que é quando passam a comer, brincar e trabalhar em um mesmo espaço, sob uma mesma autoridade, a da Companhia de entretenimento sob a qual assinaram um contrato.


Quem acompanha grupos como BTS, Astro, Seventeen, Ateez ou mais antigos como 2PM, Girls Generation etc. conhece a realidade dessa afirmação. A empresa controla todos os aspectos da vida dos trainees e, posteriormente, dos artistas. Os grupos geralmente vivem todos juntos em dormitórios (dorms), comem, brincam e trabalham dentro do espaço construído pela companhia. A companhia também controla toda a vida pessoal do trainee e futuro idol (nome usado para descrever artistas de k-pop), já que eles não têm permissão para namorar ou estabelecer relações que possam ser consideradas prejudiciais à sua reputação.


Parte do poder da instituição total é o de operar a chamada mortificação do sujeito ou do indivíduo dentro desse espaço. O sociólogo diz que a instituição constrói essa mortificação com várias ferramentas, entre elas a separação do sujeito de seu ambiente doméstico/familiar, de suas relações no “mundo externo”, criando, assim, uma inadequação ou inaptidão desses sujeitos de enfrentar ou se posicionar no mundo civil da mesma forma que as demais pessoas, já que eles não experimentam vida igual aos demais nos anos que passam isolados dentro das instituições.


Trainees de k-pop geralmente iniciam seu treinamento dentro das companhia por volta dos 11 anos e a partir desse momento sua vida passa a ser controlada em diversos aspectos pela indústria. É interessante pontuar que Goffman está utilizando esta posição para falar de instituições como prisões, manicômios ou mesmo academias militares, instituições mais fechadas, porém ele também se refere a instituições que são mais “abertas” dentro das cinco categorias que estabelece, entre as quais estão orfanatos, asilos e conventos. Dentro da classificação e caracterização desses espaços, podemos facilmente enquadrar a indústria do k-pop enquanto uma instituição total, tendo em vista as características elencadas até agora neste trabalho e outras que ainda serão explicitadas.


Uma das formas de controle dessa instituição sobre os indivíduos, está o que Goffman vai chamar de mortificação do eu ou do indivíduo. Esse processo consiste em uma série de medidas para isolar os sujeitos, aliená-los de suas relações que constituem sua identidade e mortificar seu EU, até torná-los possíveis de serem moldados à instituição, entendendo todo esse processo como a instituição atuando em seu benefício. O sociólogo afirma:

Portanto, o internado descobre que perdeu alguns dos papéis em virtude da barreira que o separa do mundo externo. Geralmente, o processo de admissão também leva a outros processos de perda e mortificação. Muito frequentemente verificamos que a equipe dirigente emprega o que denominamos processos de admissão: obter urna história de vida, tirar fotografia, pesar, tirar impressões digitais, atribuir números, procurar e enumerar bens pessoais para que sejam guardados, despir, dar banho, desinfetar, cortar os cabelos, distribuir roupas da instituição, dar instruções quanto a regras, designar um local para o internado. Os processos de admissão talvez pudessem ser denominados "arrumação" ou "programação", pois, ao ser "enquadrado", o novato admite ser conformado e codificado num objeto que pode ser colocado na máquina administrativa do estabelecimento, modelado suavemente pelas operações de rotina (p. 26).

Goffman também fala de como essa operação incorre na desconfiguração da pessoa e identidade do sujeito e na atribuição de uma nova identidade para ele. Essa mortificação consiste também em fazer o indivíduo acreditar que a instituição quer o seu melhor e trabalha para o seu bem. Essa relação é muito comumente estabelecida dentro da indústria do k-pop, especialmente tendo em vista que vários desses artistas vêm de uma história de pobreza ou até mesmo de miséria e representam a “salvação” para suas famílias.


A alienação de si é também presente na criação de personas que o k-pop explora em seus artistas. Como disse Goffman, a instituição da novas roupas, número/nome, reveste o sujeito de uma nova personalidade através do processos de mortificação.


Outra questão que o sociólogo traz para demonstrar a mortificação do EU é o uso de “mutilações corporais” que vão operar um grave problema de identidade nos sujeitos.

(...) existe a desfiguração pessoal que decorre de mutilações diretas e permanentes do corpo por exemplo, marcas ou perda de membros. Embora essa mortificação do eu através do corpo seja encontrada ero poucas instituições totais, a perda de um sentido de segurança pessoal é comum, e constitui um fundamento para angústias quanto ao desfiguramento.

O trecho em que Goffman se refere às mutilações e violências perpetradas contra os internos nessas instituições, obviamente, refere-se à realidade de prisões e manicômios com as quais ele trabalhava. Porém o k-pop tem suas próprias formas de construir a deformação e as mutilações, e isso é feito através de cirurgias plásticas, dietas e modificações corporais nos artistas. A maioria das companhias de entretenimento detém quase total controle de modificações no corpo dos artistas garantidos através de contratos. Então é comum que cirurgias plásticas no nariz, olhos, boca sejam exigidas. Além disso, as dietas rigorosas e modificações corporais dolorosas são quase exigências para que os artistas caibam no padrão de beleza e excelência esperado deles.


Todo esse panorama acaba por provocar a despersonalização dos sujeitos, esmagando sua autonomia, identidade e operando uma alienação de si através da objetificação deles. Goffman afirma que um dos sintomas dos sujeitos dentro de instituições totais é o sentimento de “tempo perdido” que encontramos nas falas de diversos idols que dizem ter perdido sua juventude, sem experienciar coisas normais que um adolescente ou jovem experiencia.


A violência dessas instituições, no entanto, não opera a total subjugação do sujeito; ele resiste, enquanto grupo e enquanto individuo, encontrando táticas de resistência. Essas possibilidades empreendidas pelos sujeitos dentro dessas instituições são forma de resistências e reorganização de si. Ao longo de sua obra, Goffman fala dessas possibilidades, afinal mesmo no mais opressivo dos sistemas existem possibilidades de subversão. A história de enfrentamento das mulheres ao patriarcado e a luta das classes contra o capitalismo são provas disso.


Porém, em alguns casos, a dor e o comprometimento da saúde mental desses jovens é tamanha que a única possibilidade enxergada por eles é a de tirar a própria vida. A morte de idols tendo como causa o suicídio tem um enorme impacto em jovens, especialmente fãs. Em 2017, o k-pop foi marcado pelo suicídio de Kim JongHyun de apenas 27 anos, membro do boy group ShinEe. A morte de JongHyun não apenas lançou sinais de alerta sobre a saúde mental dos jovens idols de k-pop, como teve consequências no chamado “Efeito Werther”, conceito ligado aos suicídios por imitação que ocorreram na Alemanha após o sucesso do livro “Os sofrimentos do jovem Werther”, de Goethe. A mídia sul-coreana divulgou de forma irresponsável não apenas detalhes do suicídio do idol, como também publicizou sua carta de suicídio o que levou vários jovens a tentarem tirar a própria vida na época.


Neste sentido, gostaria de trazer esses dados para que possamos refletir em diversas questões. Pensar como dentro do sistema que vivemos existem vidas que são consideradas descartáveis, não importa se estão vestindo roupas grifadas e ganhando cifras milionárias ou comprando roupas de liquidação em lojas populares. O capitalismo que adoece, viola, mata e segura a mão que comete do suicídio ao assassinato está bem representado nos senhores dessas empresas, nos donos de conglomerados, nos nomes assinados nas operações das bolsas de valores. Para eles, Moonbin e Jonghyun são apenas mais um que se mata e que pode ser substituído pelo próximo jovem faminto e desesperado pelo sonho de ser uma estrela que passa no teste.


Atentar para a morte desses jovens é desvelar mais uma camada da realidade dolorosa da engrenagem cruel e perversa do capitalismo. Olhar para o suicídio de um idol é também dar luz aos milhares de jovens anônimos que se matam por bullying, doenças mentais, ausência de sonhos e perspectivas, fome, desprezo, isolamento. Não é apenas um reforço nos remédios, tratamentos e psicólogos que irá “salvá-los”, mas o fim das estruturas que operam esses sintomas de morte.


Por fim, dedico esse artigo a Moonbin, Jonghyun, Sulli, suas famílias, seus amigos, seus fãs e todos os jovens anônimos cujas vidas foram ceifadas por esse sistema de morte.


Referências:


  • 보건복지부 [Korean Ministry of Health and Welfare], “아동학대 신고 전년 대비 36% 증가 [36% Increase from Child Abuse Report],” last modified 2015.

  • Erving Goffman. Manicômios, prisões e conventos, uma análise das relações nas instituições totais. 1961.

  • Hyun-Jin Lee, “정신건강 전문가들 분석…종현의 유서 내용 보니” [Analysis of Jonghyun’s Suicide Note by Mental Health Professionals], 중앙일보 [JoongAng Daily], December 19, 2017.

  • Jin Pyo Hong, Myeng Ji Bae e Tongwoo Suh . Epidemiology of Suicide in Korea. 2006.

  • Lisa Marie Longenecker em sua tese. Suicide, Precarity, and Korean Media: A Sociocultural Analysis of the Adolescent Suicide Epidemic in South Korea. 2019.



* Pesquisadora, escritora e historiadora. Doutora em História pela Universidade Federal de Pernambuco.

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