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O PORCO E A RAPOSA



Por Felipe Cazelli*


Era uma vez um Reino em que as pessoas estavam com fome. Na verdade, não eram pessoas, e sim animais. Isto aqui, afinal de contas, é uma fábula, e, numa fábula, os personagens geralmente são animais. Esse Reino havia sido governado pelo Rei Porco, um monarca muito, muito perverso, que negava a realidade, debochava de quem passava necessidade e desperdiçava toda a riqueza do Reino em benefício próprio e de seus filhos leitões.


Na tentativa de garantir sua sobrevivência, alguns plebeus do reino enfrentavam longas filas, com seus parcos trocados, na tentativa de comprar alguns pedaços de ossos, que poderiam ser fervidos com farinha para produzir uma sopa, que garantiria o mínimo para seguir existindo. Outros, por sua vez, fuçavam em lixeiras em busca de restos ainda palatáveis que pudessem aproveitar.


Mesmo com essa situação, ainda existiam muitos animais habitantes desse reino que defendiam ardorosamente seu soberano. Entre eles, estavam principalmente os bois, vacas, burros, antas, jumentos e alguns tantos outros quadrúpedes. E também haviam alguns macacos, como os chimpanzés, os babuínos e os gorilas, que viviam no topo das árvores, e simplesmente não se importavam com o que acontecia com os animais que não sabiam ou não conseguiam subir. Lá em cima a comida era farta, pois era possível tirar as frutas mais doces direto dos galhos. Para quem vivia por lá, aqueles que não alcançavam essas frutas simplesmente não haviam se esforçado o suficiente para escalar as árvores. E era justamente por serem preguiçosos e não quererem subir em árvores que, na visão dos macacos, animais como o cavalo ou a capivara deveriam passar fome.


Um dia, os cavalos, as capivaras, os hipopótamos, preás, camelos, rinocerontes, cangurus, ursos e unicórnios se juntaram e decidiram eleger um novo Rei. A candidata escolhida para ocupar tal lugar era uma Velha Raposa de pelo vermelho que, diziam, já havia governado o Reino uma vez. Naquela época, todo mundo percebeu que a Raposa tinha ficado bem gordinha e bem que tinha colocado algumas de suas amigas raposas para tomar conta do galinheiro. Mas, pelo menos, naquela época ninguém passava fome. Então, assim foi feito.


Depuseram o Rei Porco e colocaram em seu lugar a Velha Raposa.


Do alto de suas árvores, os macacos rosnavam. Alguns, raivosos com a situação; outros, relativamente indiferentes, só engrossavam o coro de rosnados por hábito. Afinal, porcos não eram capazes de olhar para cima e, portanto, nunca os incomodavam; raposas, porém, sabiam subir em árvores. O principal problema para a Velha Raposa e os que a colocaram no lugar de liderança veio mesmo do lado daqueles outros animais: os quadrúpedes. Eles eram fiéis seguidores do Rei Porco, que tinha péssimos hábitos, e seguiam seu exemplo de perto.


Para se ter uma ideia, o Rei Porco era o tipo de animal que não reservava um lugar para defecar, mas o fazia por toda a parte. Durante seu governo, o Reino inteiro fedia a chiqueiro. Além disso, ele fuçava na lama, muitas vezes misturada com suas próprias fezes. Não sabia se alimentar sem fazer uma bagunça, deixando comida espalhada por todo canto, muitas vezes apodrecendo e emporcalhando tudo em volta. Se a Velha Raposa tinha ficado gordinha quando governara, o Rei Porco, por sua vez, tinha ficado cinco vezes maior e mal conseguia andar, sendo muitas vezes ajudado por seus filhos leitões. Os seguidores do Rei Porco, que observavam tudo isso de perto, pareciam achar o máximo. Quando seu monarca foi deposto, vários deles começaram a defecar por tudo quanto era lugar, imitando seu rei, em protesto. Ameaçavam afogar todo o Reino em bosta.


Alguns porquitos (como eram conhecidos os seguidores do Rei Porco), mais empolgados, derrubavam árvores e faziam fogueiras, irritando um ou outro macaco, mas nada que os fizesse querer descer de seus postos. Entre os símios, contudo, existia uma espécie, a dos babuínos, que era tradicionalmente mais agressiva, e ajudava os porquitos lá de cima, enviando também sua parcela de fezes para se avolumar às dos demais.


Nos tempos que se seguiram a todo esse imbróglio, já no governo da Velha Raposa, alguns porquitos foram expulsos do Reino, outros fugiram. O Rei Porco, aparentemente, tinha fugido para um reino vizinho, mas ameaçavam também expulsá-lo de lá. A Velha Raposa teve trabalho para limpar todo o esterco deixado no Reino e, há quem diga, chegou a permitir que alguns porquitos, daqueles que participaram ativamente daquela merdaiada toda, integrassem seu governo. Vários desses, inclusive, levavam um curioso quepe na cabeça.


Entre os cavalos e capivaras, entre os ursos e unicórnios, entre os cangurus e as preás, havia uma certa sensação de alívio, como se o tempo de fezes houvesse ficado para trás. Alguns ainda estavam desconfiados ao ver tantos porquitos circulando entre eles. Os macacos, por sua vez, ainda rosnavam, mas a maioria deles já havia voltado à mesma velha indiferença de sempre, degustando suas doces frutas no topo das árvores.


Se essa situação de relativa tranquilidade durou ou não, aí já é assunto para outra fábula.



* Pesquisador, Escritor e Filósofo. Mestre em Ciências das Religiões pela Faculdade Unida de Vitória e graduado em Filosofia pela Universidade Federal do Espírito Santo. Professor de Sociologia, Antropologia, Filosofia e Metodologia de Pesquisa.

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