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O BRASIL AINDA ESPERA UM SALVADOR DE CHUTEIRAS

Por Georgino Jorge de Souza Neto*


A convocação do menino Ney para a Copa do Mundo possui dimensão muito superior ao campo esportivo. Surge, nesse episódio, um retrato preciso do Brasil contemporâneo, território no qual o êxito individual recebe veneração quase litúrgica, enquanto qualquer percepção estrutural sobre desigualdade, privilégio ou pertencimento coletivo dissolve-se sob luzes publicitárias, cifras astronômicas e narrativas motivacionais dignas de palestra corporativa.


O atacante encarna, com eficiência simbólica notável, aquilo que Pierre Bourdieu definiu como produção social do prestígio. Não se trata somente de talento. Existe, ali, um dispositivo cultural inteiro voltado à fabricação do herói nacional. Desde muito cedo, o país deposita no futebol uma expectativa messiânica, quase redentora. Conforme observou Roberto DaMatta, o esporte ocupa no imaginário brasileiro um espaço ritualístico; nele, hierarquias parecem suspensas, frustrações coletivas encontram catarse e contradições históricas recebem maquiagem estética.


Nesse cenário, pouco importa o rendimento recente, a condição física ou mesmo critérios técnicos minimamente coerentes. A discussão racional cede espaço ao melodrama patriótico. Convocar o ídolo converte-se num gesto de recomposição emocional do país. Quase um pedido coletivo por familiaridade em tempos de instabilidade permanente. O torcedor, submetido diariamente à precarização material e simbólica, encontra conforto num rosto conhecido, ainda que cercado por episódios moralmente constrangedores, declarações infelizes ou performances incompatíveis com o mito produzido ao redor dele.


Existe, nesse processo, um componente profundamente brasileiro: o fascínio pelo vencedor que rompeu limites sociais, porém terminou capturado pela lógica do individualismo absoluto. Jessé Souza descreveu com precisão esse fenômeno ao discutir o apagamento da consciência de classe dentro da cultura nacional. O triunfo pessoal passa então a funcionar como evidência suprema de mérito, quase nunca como exceção estatística produzida por estruturas desiguais. O jogador deixa de simbolizar origem popular; converte-se em emblema aspiracional de consumo, celebridade e blindagem elitizada.


Por isso, qualquer crítica dirigida ao atleta costuma receber tratamento quase sacrílego. Questionar sua utilidade tática equivale, para muitos, a ofender um patrimônio emocional coletivo. O debate abandona parâmetros esportivos e ingressa no terreno da devoção afetiva. Ali, números perdem relevância; restam memórias, campanhas publicitárias, cortes de cabelo históricos e uma espécie de nostalgia fabricada industrialmente. Guy Debord teria reconhecido nesse fenômeno uma manifestação exemplar da sociedade do espetáculo: a imagem supera completamente o conteúdo.


Curioso perceber que o país exige do ícone justamente aquilo que ele menos oferece: liderança ética, compromisso coletivo e maturidade pública. Ainda assim, insiste-se no retorno triunfal, como se o velho roteiro pudesse restaurar uma unidade nacional inexistente. Existe algo de tragicômico nisso tudo. Um Brasil socialmente fragmentado busca coesão por meio de um personagem cuja trajetória recente simboliza exatamente o contrário: hiperindividualismo, blindagem econômica e distanciamento radical diante da experiência comum.


A convocação deste ex-jogador em atividade revela menos sobre futebol e muito mais sobre nossa dificuldade histórica de abandonar figuras providenciais. Mudam governos, crises econômicas, linguagens digitais, plataformas midiáticas; permanece intacta a necessidade quase infantil de encontrar um salvador. Celebridades esportivas transformadas em totens nacionais. O gramado apenas oferece cenário conveniente para um velho drama brasileiro: a eterna procura por redenção através de indivíduos excepcionais, mesmo quando a realidade insiste, cruelmente, em desmentir o roteiro.


Dito isso, torcerei para Cabo Verde na Copa...





* Escritor Profissional e Pesquisador. Doutor e Mestre em Estudos do Lazer pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Graduado em Educação

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