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COMO RATANABÁ EXPLICA O VOTO DO SEU TIOZÃO NO DIA 4 DE OUTUBRO

26 de set.
3 min de leitura

Atualizado: 28 de set.

Por Alysson Luiz Freitas*


Tudo bem, eu sei que você nem sabe que coisa é essa de Ratanabá... E se você não sabe, parabéns, sua saúde mental ainda tem espaços de preservação. Mas, infelizmente, muitos eleitores sim, e no dia 4 de outubro eles sairão de casa assim como você. Cumpre identificá-los.


Muitas e muitas pessoas, em grupos de whatsapp e vídeos na internet, espalharam nos últimos anos sobre a existência de uma civilização inteira embaixo da Amazônia. Uma cidade inteira, cheia de recursos, com riquezas espetaculares; estaria lá, à espera de sei lá o quê, para se apresentar ao mundo. Algo que nunca vimos, que os “estudos” tinham descoberto, e que mudaria muita coisa. É isso mesmo: Ratanabá.


A primeira vez que tive contato com essa grande informação (e esses “estudos”) foi assistindo a um vídeo de um ex-ator global, Sandro Rocha, mais um ator global adoecido e paralisado pelas famosas teorias da internet. Vou trazer as palavras dele, que são suficientemente elucidativas:

“Convido as pessoas a saírem dessa Matrix (...). E agora eu tenho trazido coisas interessantíssimas, de arqueologia, coisas que vão ser reveladas agora, por exemplo, a cidade embaixo da Amazônia que tá pra ser desmembrada agora, que vai ser uma pancada, uma paulada. (...) Existe uma cidade maior que São Paulo debaixo da Amazônia, chamada Ratanabá.”

A entrevista foi para o Rica Perrone, que até hoje deve se arrepender, suponho. Mas vamos aos fatos...


Eu, você, o seu amigo, seu professor, seus colegas de faculdade, a Virgínia e o Gustavo Lima não acreditamos nessa bomba, né? Eu sei. Tudo bem. Mas vou reformular então a pergunta: qual outra teoria da conspiração o seu tio, sua tia, seus avós e o seu Uber acreditam? O que uma teoria da conspiração precisa para ser ou parecer verossímil e aceitável, digerível? Quais pontos essas teorias precisam ligar para revelar uma verdade escondida de todos nós, os mortais?


E é sobre isso que Ratanabá fala!


Nunca a nossa despreparada e infantil inteligência foi tão capturada por ideias e conspirações como na última década. De todos os tipos. Geralmente espalhadas pela internet como teorias aceitáveis e sempre, sempre, sempre, com seus tiozões e avós espalhando pelos grupos de famílias. Tiraram os avós do bingo e entregaram a inclusão tecnológica. O resultado: Ratanabá.


Na última eleição o Brasil ia se tornar comunista, íamos virar a Venezuela, comer cachorro e as igrejas seriam fechadas. Esse pacotão circulou por aí sem qualquer controle. Agora é o quê? Ratanabá?


Em qual nível está a saúde mental da pessoa que foi capturada pelas bolhas e câmaras de eco produzidas no X, Youtube e Whatsapp? E o mais relevante: o quanto essas questões mexem com a dimensão da opinião política de cada um?


São muitas perguntas, e até peço desculpas pela série de questionamentos, mas elas são reveladoras. Estamos entrando em mais uma eleição onde cada vez menos se discute um projeto de Brasil e um caminho, seja para políticas públicas, economia ou a forma como lidaremos com a Inteligência Artificial ou a crise climática. Debate zero, o que é impressionante de fato. A política nunca foi tão superficial.


Se você perguntar a um dos tiozões e vovós capturados pela internet, doentes e perdidos, eles dirão que “não aguentam mais do jeito que tá”, que “tem que mudar isso tudo que tá aí”... E só. Só frustração, ódio e ressentimento, seja contra quem for.


Essas pessoas infelizmente foram capturadas, talvez sem qualquer chance de resgate, e nem imaginam de fato o que desejam para o Brasil e para as futuras gerações.


Talvez Ratanabá não seja apenas um delírio. Talvez seja um espelho.





* Doutor em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). Professor da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes). Escritor, Palestrante e Pesquisador.

2 comentários

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26 de set.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

"Ratanabá" daria uma boa história ficcional, hein... Imagina algo no estilo de Aquaman (Atlântida) ou de Namor (Talokan) rsrs

Editado
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Wagner Matheus
26 de set.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Realmente, o reflexo da frustração.

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