PASSOU NO VESTIBULAR, AGORA VOLTE PARA CASA: TÚLIO MARAVILHA E OS VALORES DA FAMÍLIA CONTRA A EDUCAÇÃO
- Georgino Jorge de Souza Neto

- 15 de fev.
- 2 min de leitura
Por Georgino Jorge de Souza Neto*
Sou do tempo que os pais proibiam a filha de ir à balada. Agora leio, estupefato, a notícia em que Túlio Maravilha e sua esposa anunciam a proibição da filha de estudar em uma universidade pública. Falam assim, abertamente, sem pudor de expor a idiotice em espaço público (Umberto Eco realmente tinha razão). Tava pensando sobre isso, especialmente pelos motivos alegados, e de como este fato explica em parte o Brasil de hoje. Afinal, nada ameaça mais os “valores da família” do que uma jovem estudando sociologia, física ou medicina sem pagar mensalidade.
A notícia é bastante didática. Ensina que, no Brasil, o verdadeiro perigo moral não é a ignorância, nem o obscurantismo, nem a precarização do pensamento. É a UFRJ. É a UERJ. Esses antros suspeitos onde livros circulam livremente, professores fazem perguntas inconvenientes e estudantes aprendem a pensar sem pedir autorização ao patriarca.
O argumento é comovente: “princípios”. Sempre eles. Princípios tão sólidos que precisam ser protegidos da convivência com o conhecimento. Tão frágeis que uma universidade pública pode desmontá-los em dois semestres e uma bibliografia básica.
Há algo de poeticamente trágico em celebrar a aprovação da filha e, logo depois, tratá-la como ameaça ideológica doméstica. Como se o vestibular fosse um erro do sistema. Como se o mérito precisasse ser imediatamente corrigido pela tutela moral. Passou? Parabéns. Agora volte para o cercadinho.
No fundo, não estamos falando sobre educação, mas sobre controle. Sobre quem decide o destino do corpo e da cabeça de uma mulher jovem quando ela começa a caminhar sozinha demais. Fala do medo ancestral de que a filha aprenda a nomear o mundo e, pior ainda, a questionar o pai.
A universidade pública, nesse enredo, vira vilã porque não cobra mensalidade nem submissão ideológica explícita. Cobra leitura, pensamento crítico e autonomia. Tudo aquilo que certos “valores de família” jamais souberam oferecer sem ameaça.
Ironia das ironias: proibir a universidade para preservar a moral é admitir, sem perceber, que o maior inimigo desses valores é o conhecimento. E isso diz menos sobre a UFRJ ou a UERJ e muito mais sobre o tipo de família que só se sustenta enquanto ninguém pensa demais.
Tristes tempos...
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* Escritor Profissional e Pesquisador. Doutor e Mestre em Estudos do Lazer pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Graduado em Educação
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