OS AVANÇOS DA POLÍTICA EXTERNA BRASILEIRA E OS DESAFIOS DA FRENTE DEMOCRÁTICA
Por Daniel Camurça Correia*
Regimes autoritários representam um risco significativo para a política externa porque reduzem os espaços de diálogo, enfraquecem instituições e concentram decisões em poucos atores. Uma política externa consistente depende de previsibilidade, negociação e respeito aos compromissos internacionais. Quando governos desvalorizam instituições democráticas, imprensa livre, Poder Legislativo e mecanismos de controle, torna-se mais difícil construir relações internacionais baseadas na confiança. A experiência brasileira recente demonstra que a democracia interna e a capacidade de diálogo externo estão profundamente relacionadas. O próprio governo brasileiro tem defendido, em fóruns internacionais, a necessidade de proteger as instituições democráticas diante do avanço do extremismo e da desinformação.
A partir do início do terceiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva, em janeiro de 2023, houve uma mudança significativa na orientação diplomática brasileira. O Ministério das Relações Exteriores passou a enfatizar novamente o universalismo, o multilateralismo, a integração sul-americana e a diversificação das parcerias internacionais. Segundo balanço divulgado pelo próprio governo brasileiro, 2023 foi marcado pela retomada de relações diplomáticas, por reuniões bilaterais e pela participação brasileira em importantes fóruns internacionais. O então ministro Mauro Vieira registrou, ainda em novembro daquele ano, mais de 200 interações do presidente da República com autoridades estrangeiras naquele primeiro ano.
Um dos casos de maior destaque foi a presidência brasileira do G20, exercida entre dezembro de 2023 e novembro de 2024. O Brasil organizou mais de 130 reuniões dos grupos de trabalho e forças-tarefa e levou para o centro da agenda internacional temas como combate à fome e à pobreza, desenvolvimento sustentável e reforma da governança global. A criação da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza tornou-se um dos principais legados dessa presidência. O resultado demonstra a capacidade brasileira de utilizar sua diplomacia não apenas para defender interesses nacionais imediatos, mas também para propor agendas de alcance internacional.
Outro avanço ocorreu na retomada do diálogo com a América do Sul. Em maio de 2023, o Brasil reuniu presidentes sul-americanos em Brasília para discutir integração regional, desenvolvimento sustentável, infraestrutura, saúde, defesa e cooperação. O movimento procurou reconstruir canais políticos que haviam perdido importância nos anos anteriores. Entretanto, a experiência também mostrou os limites da liderança brasileira: divergências sobre Venezuela, especialmente entre governos com diferentes interpretações sobre democracia e legitimidade eleitoral, demonstraram que integração regional exige negociação permanente e não pode depender exclusivamente da convergência ideológica dos governos.
A política externa brasileira também passou a atuar de maneira mais intensa diante de crises internacionais. Na questão venezuelana de 2024, por exemplo, Brasil e Colômbia buscaram construir uma saída diplomática para a crise provocada pelas eleições contestadas, defendendo a divulgação das atas eleitorais e a busca de uma solução negociada. A posição brasileira mostrou que manter canais de diálogo não significa necessariamente concordar com o governo envolvido. A diplomacia pode preservar relações institucionais enquanto simultaneamente cobra transparência, negociação e respeito aos princípios democráticos.
A postura do governo brasileiro na 81ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), realizada em setembro de 2026, foi marcada por uma defesa mais firme do multilateralismo, da soberania nacional e da reforma das instituições internacionais. Em seu discurso de 22 de setembro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que a ONU atravessa um momento crítico diante da multiplicação das guerras e criticou a incapacidade do Conselho de Segurança de responder adequadamente aos conflitos. O Brasil também defendeu a negociação como instrumento para solucionar controvérsias internacionais, o respeito ao direito internacional humanitário e a não interferência nos assuntos internos dos Estados. Na questão palestina, Lula condenou as ações do governo de Benjamin Netanyahu em Gaza, ao mesmo tempo em que condenou os ataques do Hamas contra civis israelenses e defendeu a solução de dois Estados. No contexto latino-americano, o presidente adotou uma linguagem particularmente assertiva ao afirmar que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”, associando soberania nacional à defesa da autonomia política.
Para o futuro, entretanto, o Brasil encontrará desafios consideráveis. A competição entre Estados Unidos e China, a guerra na Ucrânia, os conflitos no Oriente Médio, a crise climática, as disputas comerciais, a reorganização das cadeias produtivas e o crescimento de movimentos políticos extremistas exigirão uma diplomacia capaz de dialogar com diferentes blocos sem perder autonomia. A realização da COP30 em Belém também amplia a responsabilidade brasileira na agenda ambiental e climática internacional. Ao mesmo tempo, a defesa do multilateralismo continuará sendo difícil diante da paralisia de instituições como o Conselho de Segurança da ONU.
A manutenção de uma boa política externa dependerá, portanto, da preservação da democracia brasileira, principalmente frente aos avanços da extrema direita e seus apoiadores. O país precisa demonstrar internamente os mesmos valores que pretende defender internacionalmente: respeito às instituições, solução pacífica de controvérsias, proteção dos direitos humanos, liberdade de expressão, soberania e capacidade de negociação. A democracia oferece à política externa uma base de legitimidade e previsibilidade que fortalece a confiança dos parceiros. O grande desafio brasileiro daqui para frente será transformar o atual esforço de reinserção internacional em uma política de Estado duradoura, capaz de sobreviver às mudanças de governo e de combinar soberania nacional, cooperação internacional e compromisso democrático.
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* Escritor e Pesquisador. Doutor, Mestre em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Graduado em História pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Professor da UNIFOR e da UFC.
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