O CANSAÇO DE PERFORMAR E O CAMPEONATO MUNDIAL DA RELEVÂNCIA
- Georgino Jorge de Souza Neto

- 14 de jul.
- 2 min de leitura
Por Georgino Jorge de Souza Neto*
Estamos vivendo um tipo de cansaço que não se resolve dormindo. Aliás, dormir anda sendo apenas uma pausa técnica para que a exaustão volte mais organizada na manhã seguinte.
Durante muito tempo disseram que o problema era a falta de tempo. Depois inventaram aplicativos para economizar tempo, relógios para monitorar o tempo, cursos para administrar o tempo e gurus para ensinar a multiplicar um tempo que, curiosamente, continuou com as mesmas vinte e quatro horas de sempre. O resultado foi brilhante, pois agora conseguimos fazer muito mais coisas enquanto nos sentimos muito pior.
Chamaram isso de "produtividade", mas tenho começado a suspeitar de que produtividade seja apenas um nome elegante para uma forma socialmente aceita de esgotamento.
Vivemos cercados por gente que transforma qualquer intervalo em culpa. Se alguém contempla uma árvore por cinco minutos, logo aparece um sujeito perguntando por que ele não estava ouvindo um podcast em velocidade 2x sobre como contemplar árvores de maneira mais eficiente.
Costumo dizer aos meus alunos e alunas da disciplina de "Teoria do Lazer", que até descansar virou uma tarefa (chamo de "sociedade do tarefismo"). As pessoas estão fazendo planilhas para relaxar, com metas semanais de autocuidado e indicadores precisos de felicidade. A paz, coitada, agora precisa apresentar resultados trimestrais.
Byung-Chul Han sempre esteve certo. O chicote mudou de mãos, pois já não precisamos de um capataz. Cada um acorda cedo para explorar a si mesmo com uma dedicação que faria inveja aos antigos senhores.
E o pior é que quase ninguém percebe o ridículo da cena. Corremos sem saber exatamente para onde, respondendo mensagens que não importam e opinando sobre assuntos que esqueceremos na semana seguinte.
Atualizamos perfis para pessoas que talvez nem notem a nossa ausência. Alimentamos nossas redes sociais como sacerdotes de uma religião cujo deus jamais concede milagres, apenas notificações.
Às vezes tenho a impressão de que não estou cansado de trabalhar. Estou mesmo é cansado de performar. Cansado da obrigação de parecer interessante, inteligente, disponível, informado, espirituoso, resiliente, produtivo, equilibrado, acessível, atualizado e, se possível, sorridente. É um currículo exigente demais para alguém que, em certos dias, só gostaria de atravessar a tarde sem precisar convencer ninguém de que continua funcionando.
Mais grave que o excesso é o vazio que ele esconde. Como aqueles armários abarrotados de objetos inúteis, acumulando compromissos para não ouvir o eco. Fazemos barulho para não escutar a pergunta.
Tenho me sentido assim, confesso. Um excesso dentro do vazio, tal qual uma biblioteca inteira construída para esconder uma única estante vazia. Acho que aí começa alguma forma de lucidez. Estou chegando numa idade em que a gente descobre que o verdadeiro luxo não é produzir mais, aparecer mais ou acumular mais. O verdadeiro luxo é não comparecer ao campeonato mundial da relevância...
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* Escritor Profissional e Pesquisador. Doutor e Mestre em Estudos do Lazer pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Graduado em Educação
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