ENTREVISTA – A REPRESENTAÇÃO PARA LALUÑA MACHADO
Atualizado: 7 de out.
Pelo Grupo de Estudos em Represontologia*
O Grupo de Estudos em Represontologia apresenta uma conversa com Laluña Machado sobre o conceito de representação, suas referências teóricas e as possibilidades de utilização das representações como objeto de investigação científica.
Ao longo da entrevista, a pesquisadora recupera sua trajetória acadêmica, discute autores fundamentais para sua formação e explica como o estudo das representações possibilita compreender aspectos históricos, sociais, políticos e culturais que ultrapassam os limites aparentes de uma narrativa. A partir de sua experiência de pesquisa com o Batman e as histórias em quadrinhos, Laluña demonstra como produtos da cultura podem se constituir em objetos científicos complexos e fecundos.
1. Qual seu referencial teórico do conceito de representação?
Laluña Machado: Meu primeiro contato mais direto com o conceito de representação aconteceu ainda na graduação, durante a minha monografia, quando conheci o trabalho de Roger Chartier. A partir desse primeiro contato, quando decidi continuar investigando o Batman, fui ampliando meu repertório e conhecendo outros pesquisadores que trabalham com diferentes dimensões dessa discussão.
Então, meu referencial foi sendo construído ao longo da própria trajetória da investigação. Chartier continua sendo uma referência importante, principalmente pela compreensão de que as representações não são um reflexo neutro da realidade, mas formas de produzir e organizar sentidos sobre ela. Posteriormente, autores como Bronislaw Baczko e Benedict Anderson também contribuíram para ampliar minha percepção sobre imaginário social, símbolos, identidades e construção de sentidos coletivos.
E esse processo não está encerrado. Já são muitos anos dedicados ao estudo do Batman, e continuo entrando em contato com novos autores, conceitos e abordagens. Acho que isso é uma característica importante da pesquisa: o referencial teórico também se transforma à medida que nossas perguntas ficam mais complexas.
2. Como você define representação depois de tantos anos de pesquisa?
Laluña Machado: Hoje eu compreendo representação como uma construção histórica e cultural através da qual produzimos sentidos sobre o mundo. Não se trata simplesmente de reproduzir aquilo que existe. Toda representação envolve escolhas: o que será mostrado, como será mostrado, quem ocupará determinado lugar, quais características serão enfatizadas e quais perspectivas ficarão de fora.
Por isso, quando observo uma representação de raça, gênero, sexualidade, violência ou política nos quadrinhos, não me interessa apenas identificar sua presença. Quero compreender como aquela construção foi realizada, quais valores estão envolvidos e quais circunstâncias históricas ajudaram a produzi-la.
O Batman é um objeto particularmente interessante para isso porque atravessa diferentes períodos históricos. O personagem de 1939 não é construído da mesma maneira que aquele que encontramos nos anos 1970, nos anos 1980 ou no século XXI. Essas transformações não acontecem no vazio. Elas dialogam com mudanças sociais, políticas e culturais.
Então, estudar essas diferentes versões do personagem também é uma maneira de observar como determinadas sociedades pensaram justiça, criminalidade, poder, riqueza, raça, gênero e outros aspectos da experiência social.
3. O que você acha da representação enquanto possível objeto científico?
Laluña Machado: Eu considero a representação um objeto científico extremamente fértil. O que determina a relevância acadêmica de um objeto não é ele pertencer à chamada alta cultura ou ser reconhecido como algo “sério”. O fundamental é termos um problema de pesquisa, metodologia e uma análise capaz de produzir conhecimento.
Os quadrinhos, nesse sentido, são documentos culturais muito ricos. Uma história do Batman pode ser investigada não apenas pelo que acontece na narrativa, mas pelas ideias de sociedade, justiça, violência, autoridade, riqueza ou identidade que aparecem naquela produção e pelo contexto em que ela foi criada.
Também é importante não imaginar que uma representação simplesmente determina aquilo que o público vai pensar. Existe uma relação muito mais complexa entre produção, circulação, recepção e interpretação. As pessoas podem aceitar, rejeitar, transformar ou disputar os significados presentes em uma obra.
Foi justamente esse caminho que me permitiu perceber a dimensão do meu próprio objeto. Ao investigar o Batman, comecei a encontrar questões que ultrapassavam completamente a narrativa de super-heróis. História, Filosofia, Sociologia, Antropologia, estudos de gênero, relações raciais, política e cultura passaram a fazer parte desse diálogo.
Representação, cultura e produção de sentidos
A reflexão apresentada por Laluña Machado revela que estudar representações significa ir além da simples identificação de imagens, personagens ou discursos presentes em determinado produto cultural.
A representação envolve processos de seleção, construção, circulação, apropriação e disputa de sentidos. Ela permite investigar tanto o contexto em que determinada produção foi elaborada quanto as formas pelas quais indivíduos e grupos sociais interpretam, aceitam, recusam ou ressignificam aquilo que lhes é apresentado.
A trajetória da pesquisadora também demonstra que objetos tradicionalmente associados à cultura de massa — como as histórias em quadrinhos e os super-heróis — podem constituir importantes fontes para a investigação das sociedades que os produzem.
Nesse sentido, estudar Batman não significa apenas estudar um personagem ficcional. Significa investigar as diferentes formas pelas quais determinados períodos históricos representaram temas como justiça, poder, violência, criminalidade, identidade, raça, gênero, riqueza e organização social.
É justamente nessa capacidade de revelar processos mais amplos de produção de sentidos que a representação se consolida como um objeto científico relevante e interdisciplinar.
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* O Grupo de Estudos em Represontologia dedica-se à investigação das representações como objeto científico, analisando sua composição e sua circulação. É possível neste enquadramento abordar uma perspectiva interdisciplinar ao reunir estudos sobre cultura, política, identidade, saúde, imaginário social, inteligência artificial, matemática, mídia, história e outros repositórios de representações.
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