DO ORIENTE NASCE O SOM: ARIRANG E A REINVENÇÃO DA COREANIDADE
- Suzana Nascimento Veiga

- há 6 dias
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Por Suzana Nascimento Veiga*
Conheci o BTS durante os meses finais de 2019 e, definitivamente, me tornei Army nos em 2020, quando eles estavam promovendo o álbum BE. Consigo me lembrar com clareza de ver o clipe/MV da música On e pensar que estava diante de artistas geniais. On me tornou Army. Para quem não conhece, o BTS, ou Bangtan Sonyeondan , é um grupo sul-coreano, formado por 7 homens e designado dentro do gênero guarda-chuva do K-pop. O BTS debutou como grupo em 2013 e se mantém em atividade desde então, com um período de cerca de quatro anos de hiato devido à pausa dos membros para o alistamento militar obrigatório. Neste ano de 2026, eles fizeram o que, no K-pop, se denomina comeback, lançando um novo álbum no dia 20 de março, seguido de um show realizado na praça Gwanghwamun, em Seul, transmitido mundialmente pela plataforma de streaming da Netflix no dia 21 de março. Neste pequeno ensaio de opinião, quero abordar o novo álbum, denominado Arirang, e fazer uma breve reflexão sobre arte, cultura e história relacionadas ao BTS.
Quando o nome do álbum de retorno do grupo foi anunciado, uma série de conteúdos foi produzida sobre o tema. O BTS é hoje, queira-se ou não, o maior grupo de K-pop e pop do mundo, movimentando a indústria da música e tudo mais associado a ela em uma cadeia gigante e interconectada que vai da moda à literatura, à culinária e a outras questões ligadas à economia e à cultura. Eles integram e foram beneficiados pela Hallyu, ou onda coreana, bem como foram, eles mesmos, impulsionadores da Hallyu de uma forma que, sejamos honestos, nenhum outro grupo de K-pop antes foi, nem mesmo Rain e seus gominhos definidos (piada interna para quem está aqui no mundo do K-pop e K-dramas desde que era mato).
O nome Arirang faz referência a uma canção folclórica coreana, cuja origem é quase impossível de rastrear devido à sua antiguidade e transformação ao longo dos anos. O que se sabe sobre Arirang é que ela se tornou não apenas um segundo hino nacional, mas também um símbolo de resistência e da resiliência do povo coreano, múltiplas vezes invadido e vilipendiado em seu próprio território por potências imperialistas como o Japão, responsável por várias invasões à península e que, junto com os EUA, foi responsável direta e indiretamente pela separação do território unificado de Joseon em duas nações: uma que até hoje militarmente ocupada e sob profunda influência bélica e simbólica dos EUA, a do sul, e outra conectada ao eixo comunista, ao norte.
A divisão das Coreias ainda é uma ferida aberta, sanguinolenta e dolorosa para o povo coreano. Em seu livro Sem despedidas, Han Kang, durante uma fala de sua personagem, diz que sentia como se seu corpo tivesse sido cortado ao meio por um bisturi, um jorro infindo de memórias encharcadas em sangue. Essa metáfora se adequa à atual situação da Coreia: o tigre partido ao meio, ferido em sua cintura, que ainda sangra. Nesse contexto, Arirang possui um sentido de melancolia e um sentimento de nostalgia, um hino que remete à raiva, à dor, mas também à esperança de libertação e à futuridade. Arirang é olhar para as raízes, para o passado, mas entendendo que o futuro se constrói a partir do presente, apesar da dor.
Quando o BTS divulgou esse título, consequentemente vários palpites sobre o conteúdo do álbum começaram a surgir, e o entendimento geral era que o BTS produziria algo profundamente coreano, conectando sua música a essas raízes. Acredito que esse palpite tenha sido muito compreensível, tendo em vista que, após se tornar um fenômeno global sem escalas, o BTS se tornou mais “internacional”, enxergado como tendo construído uma linguagem mais palatável, com músicas escritas em inglês e formato pop chiclete, como os singles Dynamite, Butter e Permission to Dance. Para quem acompanha o grupo desde o início, ou mesmo se tornou fã depois, mas mergulhou profundamente na discografia do grupo e nos conceitos que eles sempre integraram à sua música, parecia que o BTS tinha se tornado mais “ocidentalizado” e que agora, com Arirang, finalmente eles voltariam ao começo.
Quando o álbum foi lançado, o que mais vi foram vídeos e artigos de pessoas decepcionadas, dizendo que o BTS não tinha entregado “coreanidade” suficiente, que seu álbum era ocidentalizado e “vendido” demais à indústria cultural ocidental, que não tinha K (koreaness) suficiente nesse Arirang. Já fiz vídeo no YouTube trazendo contraposições a essas perspectivas, primeiramente porque, diante de todos esses argumentos, enquanto pesquisadora e enquanto fã que conhece profundamente o trabalho de seus artistas, alguns deles se sustentam na base do orientalismo, do etnocentrismo, do exotismo e de um certo desconhecimento de que as referências ocidentais sempre fizeram parte das composições e conceitos do BTS, haja vista que, como coreanos, eles crescem sob a influência da cultura hegemônica estadunidense dentro das próprias instituições e da vida coreana, assim como a maioria de nós, imperializados pelo soft power estadunidense.
Quando eu estava no doutorado, fiz uma disciplina sobre história intelectual e da teoria, e essa disciplina fez um mergulho na história das ideias, o que nos possibilitou compreender correntes de pensamento e como elas se infiltram e são significadas pelo mundo da arte, pela sociedade como um todo e pela produção da vida em sociedade em suas diversas instâncias. Um dos textos que lemos e debatemos, que me recordo até hoje, tratava de uma análise da obra de Gustav Klimt, pintor simbolista austríaco, e de como sua obra se transformou ao longo de sua longa carreira, com base na própria transformação da sociedade, em seu amadurecimento e nas fases cíclicas pelas quais todo artista atravessa. Essa análise me marcou profundamente e vou tentar fazer algo semelhante aqui.

Nosso ponto de partida é o termo Arirang. Como falei no início deste texto, Arirang tem um significado simbólico de nostalgia, de olhar para o passado enquanto projeta um futuro a partir do presente. No caso da Coreia, um passado de dor e luto por uma história de esfacelamento, um presente de lutas e um futuro ainda por construir. Para o BTS, Arirang não significa apenas o retorno às suas raízes coreanas, porque eles nunca deixaram de estar com elas; eles são sete jovens de nacionalidade e criação coreana, cuja ética e moral são atravessadas pela cosmogonia coreana. Esse background não é substituído pela cultura estadunidense ou pelas referências ocidentais, mas convive lado a lado, entrelaçando-se na criação de qualquer coisa que eles, ou mesmo nós, fazemos. O BTS é um dos pouquíssimos grupos de K-pop formados apenas por coreanos de nacionalidade única; nenhum dos sete são coreanos-americanos, coreanos-japoneses, coreanos-australianos etc. Isso não é coreano o suficiente? Então tudo que foi criado por coreanos da diáspora não é coreano o suficiente porque essas pessoas cresceram com referências híbridas? O que estamos entendendo por coreano aqui?
A outra questão que fica clara quando entendemos a sonoridade, o estilo de composições e as letras do álbum Arirang é que ele também é um resgate da história do próprio grupo, e esse é o significado figurado que eles usaram para nomear o álbum. Não apenas um retorno às suas raízes coreanas, mas às suas raízes enquanto BTS, Bangtan Sonyeondan, aos garotos à prova de balas de 2013 e a álbuns como Dark and Wild, Wings e a trilogia Love Yourself.
No K-pop, os grupos se formam tradicionalmente com vocalistas e rappers, uma junção que se conecta à origem do gênero, que bebeu da influência da cultura negra e do hip hop, influência da cultura estadunidense na Coreia ocupada. Entretanto, a maioria dos grupos de K-pop possui foco nos vocais e em alguns membros que declamam rimas, porque, entre ser um rapper e declamar rimas, vamos combinar que há uma distância significativa. Mas vamos chamar de vocalistas e rappers.
O BTS inicialmente foi um grupo pensado para ser de hip hop, tanto que os primeiros membros do grupo foram os que hoje constituem a rap line e seus principais produtores: primeiro Kim Namjoon (RM), depois Min Yoongi (Suga) e Supreme Boi, que era trainee junto com RM e Suga e desistiu de debutar com o grupo quando descobriu que seria um grupo de K-pop e não mais de hip hop e posteriormente o trio se completa com a chegada de Jung Hoseok ( J-Hope).

Sendo assim, o Arirang do BTS é o hip hop; é o retorno à raiz, ao DNA do grupo, à influência sempre explícita da cultura negra, dos mestres e mestras negros que conhecemos durante o treinamento dos meninos em programas como American Hustle Life e que sempre foram referenciados por eles em espaços como o fancafé e as Vlives dos membros, em grupo ou individualmente. Mas, muito além disso, sendo Namjoon, Suga e J-Hope os principais compositores do grupo e aqueles que sempre estiveram no epicentro criativo dos conceitos dos álbuns, juntamente com outros membros, sabemos que a arte, principalmente a literatura, foi e é parte essencial das composições do grupo.
Dito isso, é fundamental entender que, desde seu single de estreia No More Dream até o atual Arirang, o BTS sempre manejou influências que vão desde o hip hop estadunidense aos ritmos e instrumentos tradicionais coreanos, como trot e pungmul, da literatura alemã à poesia de Na Tae Joo, a referências aos nomes da história da resistência antijaponesa, até as multidões mobilizadas contra a ditadura coreana, estudantes chamados de arruaceiros.
O BTS, assim como o K-pop, é fruto do que nos estudos culturais chamamos de hibridização, ou seja, o resultado de longos processos de interpenetração de culturas, algumas em posição de horizontalidade e, no caso da Coreia, hierarquizadas pelo imperialismo e pela colonização. Esse movimento ocorre nas culturas de muitas formas, sendo uma delas parte da reorganização de grupos culturalmente subalternizados como forma de resistência. Os povos colonizados nunca ficaram calados; apropriaram-se sempre da cultura dominante, dando o twist necessário para torná-la sua. Vou pegar essa tradução capenga de Aliens, terceira música do grupo para exemplificar:
Com licença, Mestre Kim Gu, me diz como você se sente (como se sente?)Só eu sei falar inglês, mas é assim que a gente manda ver
Kim Gu foi um conhecido ativista e militante pela libertação da Coreia, que pregava que a cultura e o conhecimento coreanos deveriam ser incentivados entre os coreanos e levados a outros povos. RM pergunta a ele: como você se sente, mestre Kim Gu, sobre estarmos fazendo isso? Mas, mais do que isso, sabemos que no final do século XIX, Kim Gu se uniu às fileiras do movimento Donghak, rebelião camponesa que tomou o território de Joseon em defesa do povo ante a tirania dos nobres e que rejeitava valores ocidentais. Nessa frase, o que RM está dizendo também é: você me perdoa, Kim Gu? Eu uso a língua deles, mas é assim que chegamos até as outras pessoas, assim que temos levado a cultura coreana para além das nossas fronteiras. Quase um pedido de perdão por não ser da forma ideal, que, inclusive, nem ele nem outros coreanos têm controle, já que a influência ocidental não é uma escolha.
No século XX, a Coreia passou por um processo intenso de dominação japonesa, que proibiu suas expressões musicais e sua música nacional de serem tocadas e cantadas e, posteriormente, quando da ocupação da península coreana pelos americanos, a hegemonia cultural dos Estados Unidos definiu o que deveria ser ouvido e o que era considerado não apenas brega, mas ultrapassado e ruim. Ainda assim, o K-pop, em sua origem e em grupos como o BTS, procura convergir essas influências diversas, que são parte dos processos de globalização, e criar algo coreano, mas que também é universal, pela própria dinâmica ditada por uma indústria cultural que reflete as tensões e os conflitos resultantes das dominações bélicas e simbólicas operadas pelas potências mundiais e suas disputas geopolíticas.
E aqui entramos em outro detalhe importante: com Arirang, o BTS resgata esse hibridismo cultural, indo na raiz de sua coreanidade e do seu DNA como um grupo que nasce do hibridismo de uma Coreia que é tradicional, mas também globalizada, democrática, mas subalterna, isso frente à ocupação militar e cultural de seu território pelo Ocidente. Um dos fatores que me chamou atenção nas críticas de algumas pessoas à falta de “coreanidade” do álbum é que a maioria espera que algo “coreano” corresponda a ideias preconcebidas do que significa “ser coreano”, e, no geral, isso está imbuído de uma visão orientalista, reducionista, folclórica e de exotismo cultural.
“Hoje em dia, ninguém é puramente uma coisa só. Rótulos como indiano, mulher, muçulmano ou americano não passam de pontos de partida que, se levados à experiência concreta por um instante sequer, são rapidamente abandonados. O imperialismo consolidou a mistura de culturas e identidades em escala global. Mas seu pior e mais paradoxal legado foi permitir que as pessoas acreditassem que eram apenas, principalmente, exclusivamente brancas, negras, ocidentais ou orientais. Contudo, assim como os seres humanos constroem sua própria história, também constroem suas culturas e identidades étnicas. Ninguém pode negar a persistência de longas tradições, assentamentos duradouros, línguas nacionais e geografias culturais, mas não parece haver razão, a não ser o medo e o preconceito, para continuar insistindo em sua separação e distinção, como se a vida humana se resumisse a isso. A sobrevivência, na verdade, reside nas conexões entre as coisas; na expressão de Eliot, a realidade não pode ser privada dos “outros ecos [que] habitam o jardim”. Edward W. Said, Cultura e Imperialismo.
Só veem hanboks, instrumentos tradicionais, pansori e templos budistas com sinos tocando. E isso não está incorreto: isso é parte do que a Coreia representa, mas não é tudo e, principalmente, é uma ideia cristalizada de uma nação que está, como todas as outras, em constante mudança. Gayatri Spivak faz uma pergunta, em seu livro sobre esses processos culturais, que resume essa discussão: “Pode o subalterno falar?” Ou vamos agora querer dizer ao coreano o que é ser “coreano de verdade”?
Sempre comparo essas expectativas com a atração que as pessoas sentem pela representação do Nordeste do Brasil. Como nordestina, sempre que vão representar nossa nordestinidade, as pessoas recorrem a um sotaque estereotipado, roupas em tons terrosos, forró e paisagens sertanejas com terras rachadas e mandacarus (cactos). Apesar de tudo isso existir no Nordeste, como uma pessoa nordestina posso afirmar: quase nenhuma dessas coisas me representa ou à minha experiência como mulher nascida em Recife. Aqui, meu horizonte é o oceano verdejante e rios caudalosos que atravessam a cidade; não há terra rachada, mas o verde da Mata Atlântica; tampouco cactos, já que mandacarus são típicos da caatinga, ou seja, da paisagem sertaneja, e não do litoral onde nasci e cresci. Se eu fosse escrever um livro, compor uma canção ou fazer um filme, ele pareceria mais com Aquarius e menos com Bacurau. Isso me faria menos nordestina? Menos pernambucana?

A coreanidade do BTS tem um pé no passado, na poesia coreana que aparece nas composições de Namjoon, no sino do Rei Seongdeok, que divide o álbum em uma parte com maior influência do hip hop, do chopped and screwed de DJ Screw, misturado aos sons da gugak em coro e orquestra, e uma segunda parte onde predomina a influência do R&B, pop alternativo e synth pop liderados pena harmonia pura da vocal line. A coreanidade do BTS mistura inglês com coreano, como os coreanos fazem no cotidiano, pois a língua inglesa faz parte não apenas de um projeto global de dominação, mas de um projeto de poder presente na península.
Mas, acima de tudo, a coreanidade do BTS está nos detalhes inseridos nas linhas e subtextos, como sempre fizeram. Para mim, as três primeiras músicas, Body to Body, Hooligans e Aliens, dão o tom de conectar o passado coreano com o futuro. O BTS coloca intenção e pensamento em tudo que faz; nenhuma linha está nas músicas apenas por acaso, quando cada um deles, individualmente e em conjunto, munidos de suas referências, faz questão de estar presente em cada detalhe da composição.
Em Body to Body, temos uma música com instrumental de gugak (música nacional coreana), com coro e instrumentos tradicionais, que o BTS levou para sua apresentação no palco em Seul, para o mundo inteiro ver. Em Body to Body, eles estabelecem o ritmo do álbum, o ritmo da nova turnê, o ritmo da nova fase. Nos versos de J-Hope, “o coração do povo se ergue”, e, para o BTS, você pode “testemunhar, ou ler sobre isso”. Ou seja, sem falsa modéstia: a história está sendo feita, e vocês podem presenciar ou apenas ler sobre isso no futuro.
E então temos Hooligan, que, em termos gerais, pode representar os “desordeiros”, classificados assim por causar desordem causada a ordem dominante. Ativistas como Kim Gu, o movimento estudantil de Gwangju, que tomou a Coreia em defesa da democratização, o BTS por cuspir em suas letras as pressões que sofrem, o povo que, cantando música de K-pop, foi às ruas para impeachmar Yoon Suk Yeol. O termo hooligan, em inglês, surgiu no século XIX para designar desordem causada por gangues; depois foi sendo associado a grupos de desordeiros e banditismo, até se ligar a fãs de futebol que promoviam quebra-quebra, violência e crimes. O BTS leva Hooligans a outro nível.

O BTS, reaparecendo na cena musical após dois anos de hiato forçado, vai causar desordem na estabelecida indústria musical, inclusive naqueles que queriam encontrar “substitutos” para eles em termos diversos. Mas, muito além disso, se pegarmos as pequenas referências, especialmente nas frases dos rappers do grupo, podemos identificar elementos que se conectam com a história recente da Coreia, mais especificamente com os movimentos estudantis pela redemocratização, tratados como desordeiros e agitadores e que, inclusive, usavam música como forma de protesto.
Os versos de J-Hope mencionam que ele está prestes a explodir, dançando como um maluco por todo lugar: Eolssu. No pansori, Eolssu é um “bravo” utilizado para incentivar os cantores a continuar, um elemento gritado pela multidão para que a energia não caia e o cantor se sinta encorajado. Mas é em “essa multidão parece um campus, a batida cai, a gente dança, olha só essa batida se tornando hooligan” que sinto estar a grande sacada. Foram os campi o palco das batalhas modernas pela democracia do país, os jovens estudantes (desordeiros, hooligans) que lutavam por um país livre da ditadura.
O verso de Namjoon, para quem conhece seus jogos de palavras e seu uso constante de trocadilhos com a fonética em língua inglesa ou coreana, abre múltiplas possibilidades: We the mess, gonna get a bigger mop here (algo como: fazemos uma bagunça, precisaremos de um rodo maior aqui). Pode soar como “somos uma multidão, mas precisaremos de uma ainda maior aqui”, já que mess soa como mass (multidão) e mop soa como mob (multidão), especialmente para falantes nativos de coreano, cujo “b” tem som de “p”. Se juntamos esses versos com o primeiro de J-Hope, podemos relacionar o que eles estão dizendo com o uso que foi feito da música nos movimentos estudantis anti-ditadura na Coreia do Sul e as multidões que se reuniam nos campi.
Sei que vocês podem estar pensando que estou forçando a interpretação, mas as referências de Namjoon a Kim Gu, mais à frente em Aliens, nos permitem fazer essas conexões históricas como possibilidade. Os movimentos da juventude universitária pela redemocratização da Coreia também ficaram conhecidos por usarem música em seus protestos, especialmente um tipo de música ligada às massas camponesas, chamado pungmul. O pungmul utilizado pelos estudantes foi ressignificado de forma política, e à frente dos protestos estavam sempre as linhas de percussão. No pungmul, um dos instrumentos centrais que sustentam a batida mais grave é o buk, um tambor tradicional.
Escuta só, escuta só, essa batida está virando uma baderna. Por que esse grave está tão forte?

Nas tomadas dos campi das universidades coreanas, os estudantes conduziam os protestos ao som do pungmul, cujo ritmo era ditado pela batida grave do buk. Um grave forte, que se tornava “baderna” com a chegada das forças do Estado mobilizadas para reprimir os e as desordeiras. Historiograficamente, o uso do pungmul como ferramenta política de protesto está conectado ao Minjung, conhecido como movimento das massas na Coreia, que unia cidade e campo, estudantes e pessoas comuns na luta contra a opressão e pela liberdade do país frente à ditadura e à dominação estrangeira.
O movimento Minjung é conhecido em inglês como “the masses”. Kim Namjoon, eu vi o que você fez aqui, ok? As massas podem fazer uma grande bagunça, se se unem. Afinal, como diria Chico Science, que eu suspeito, Namjoon amaria se conhecesse seu som, “Eu me organizando posso desorganizar e eu desorganizando posso me organizar”. Não hã nada mais “Hooligan” do que a desordem causada pelas massas em luta.
Acho que Aliens, pois queria deixar meu comentário nesse texto em trilogia, para finalizar, resume bem o espírito da hibridização, da aceitação de que eles são e representam isso: o respeito à própria cultura, às suas referências do passado e ao que representam no hoje.
Sim, eles são coreanos, mas também são indivíduos vivendo um estilo de vida estrangeiro, como diz o próprio Namjoon em sua música Yun, no álbum solo Indigo. Nunca pertencendo a lugar nenhum, “mas respeite nossas raízes; se quiser entrar na minha casa, tire os sapatos”, diz Jungkook, referindo-se ao costume coreano de não entrar em casa com os sapatos sujos da rua. Nessa música, J-Hope cita diretamente o jangmori, ritmo tradicional usado no Pansori (ópera tradicional coreana). Então bata palmas e dance no ritmo ditado pelos Aliens e esse ritmo é o ritmo da tradição coreana. Do Oriente, o sol está nascendo, conclui.
Diante disso, talvez Arirang não seja um retorno, no sentido nostálgico e estático que muitos esperavam, mas uma afirmação complexa de continuidade: o BTS não volta ao passado porque nunca saiu dele, eles o carregam, o transformam e o projetam no presente. Sua coreanidade não está apenas nos símbolos mais visíveis ou folclóricos, mas na forma como articulam memória, história e linguagem em camadas, negociando constantemente entre tradição e modernidade, local e global. Exigir pureza cultural de um grupo que nasce justamente da mistura provocada pela violência é ignorar não só a trajetória do BTS, mas a própria dinâmica da cultura contemporânea. Arirang, portanto, não é um de retorno às origens, mas um lugar de autoria: de quem entende suas raízes o suficiente para recriá-las.
Bibliografia:
Eduard Said — Cultura e Imperialismo.
Gayatri Chakravorty Spivak — Pode o subalterno falar?
Claire Kim- Korean music in a globalized world — a phonological study of k-pop
Katherine In Young Lee- Pungmul, Politics, and Protest — Drumming During South Korea’s Democratization Movement
Sung-sik, Kim. Youth-Student Movement in Korea.
Tangherlini, Timothy R. Shamans, Students, and the State : Politics and the Enactment of Culture in South Korea, 1987-1988. Nationalism and the Construction of Korean Identity
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* Pesquisadora, escritora e historiadora. Doutora em História pela Universidade Federal de Pernambuco.
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