BOLSONARO NÃO CRIOU O BOLSONARISMO: APENAS DEU VOZ AO QUE O BRASIL MANTINHA EM SILÊNCIO
Por Dayane Stephanie Maia Costa*
Bolsonaro não criou tudo isso. Talvez esse seja o problema.
Talvez estejamos fazendo a pergunta errada sobre o bolsonarismo.
Durante anos, tentamos entender como Jair Bolsonaro conseguiu transformar declarações que provocavam espanto em um movimento político capaz de mobilizar milhões de brasileiros. Racismo, preconceito, ataques à ciência, agressividade contra adversários, teorias conspiratórias e discursos que antes causariam constrangimento passaram, em determinados círculos, a ser repetidos sem qualquer pudor.
Mas e se Bolsonaro não tiver criado nada disso?
E se ele simplesmente tiver dado voz, coragem e pertencimento a pessoas que já pensavam assim, mas permaneciam caladas?
Talvez essa seja a parte mais perturbadora de toda essa história.
Bolsonaro passou décadas no Congresso Nacional sem ocupar posição de grande protagonismo. Era frequentemente tratado como uma figura excêntrica da política brasileira, conhecido muito mais por declarações controversas do que por sua produção legislativa.
E foi justamente aí que muita gente errou.
Confundiu-se isolamento político com ausência de público.
O público existia.
Estava espalhado pelas famílias, pelos locais de trabalho, pelas igrejas, pelas redes sociais e pelas conversas privadas. Pessoas que guardavam ressentimentos, preconceitos, medos e determinadas interpretações sobre o mundo descobriram, finalmente, alguém dizendo em público aquilo que algumas delas pensavam em silêncio.
E aconteceu algo poderosíssimo: elas perceberam que não estavam sozinhas.
Quando milhares de pessoas descobrem que compartilham as mesmas indignações, a mesma linguagem e os mesmos inimigos, já não estamos falando apenas de preferência eleitoral. Estamos falando de identidade.
É por isso que discutir com determinados grupos radicalizados parece, tantas vezes, impossível.
Apresentamos um dado — e o dado é considerado manipulado.
Apresentamos uma pesquisa — e a pesquisa pertence ao “sistema”.
Apresentamos uma evidência científica — e surge uma teoria explicando por que justamente aquela evidência não merece confiança.
Se a informação confirma aquilo em que já se acredita, ela é verdadeira. Se contradiz, transforma-se em prova de perseguição.
Percebe o tamanho do problema?
A discussão já não acontece apenas no terreno dos fatos.
Ela acontece no terreno da crença.
E é justamente aqui que o bolsonarismo se torna muito mais interessante — e preocupante — como fenômeno social.
Não é correto chamar milhões de pessoas de doentes mentais, tampouco transformar divergência política em diagnóstico psiquiátrico. Isso seria cientificamente irresponsável. Mas é perfeitamente legítimo perguntar por que certos movimentos políticos desenvolvem características de adesão tão intensas que a figura do líder passa a ocupar posição quase incontestável para parte de seus seguidores.
Surge o “nós contra eles”.
O líder é constantemente perseguido.
As instituições conspiram.
A imprensa mente.
A universidade doutrina.
A ciência só merece confiança quando confirma aquilo em que o grupo já acredita.
E qualquer pessoa que abandone o movimento pode rapidamente passar de companheira a traidora.
É nesse momento que política e fé começam perigosamente a se confundir.
Não porque o bolsonarismo seja uma religião. Não é essa a questão. Mas porque, em suas manifestações mais radicalizadas, passa-se a exigir algo semelhante ao que encontramos em sistemas fechados de crença: confiança absoluta na narrativa interna e profunda desconfiança de tudo aquilo que vem de fora.
Há ainda uma contradição particularmente incômoda.
Deus aparece o tempo inteiro.
Fala-se em Deus, família, moral e valores cristãos.
Mas falar de Deus é muito diferente de viver aquilo que se atribui a Deus.
Quando alguém proclama sua fé enquanto celebra a humilhação do outro, reproduz racismo, naturaliza a violência ou deseja sofrimento a quem pensa diferente, talvez o problema não esteja na ausência de religião.
Talvez esteja justamente na transformação da religião em identidade política.
Afinal, de que vale carregar Deus na boca quando não há espaço para o próximo no coração?
Essa talvez seja uma das grandes contradições do nosso tempo.
E também explica por que simplesmente esperar que Bolsonaro desapareça da política não resolverá o problema.
Porque Bolsonaro pode sair.
O bolsonarismo pode permanecer.
Presidentes perdem eleições. Políticos envelhecem. Lideranças desaparecem. Mas identidades coletivas, ressentimentos e visões de mundo não somem automaticamente junto com seus líderes.
Por isso, talvez a pergunta mais importante nunca tenha sido “o que há de errado com essas pessoas?”.
A pergunta realmente difícil é: o que aconteceu com a sociedade brasileira para que esse discurso encontrasse milhões de pessoas dispostas a transformá-lo em identidade?
Essa pergunta incomoda muito mais.
Porque Bolsonaro pode não ter criado o monstro que muitos enxergam.
Pode simplesmente ter acendido a luz de um quarto que já estava cheio.
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* Escritora e Pesquisadora. Doutora em Desenvolvimento Rural (UFRGS), Mestra em Geografia (Unimontes). Graduada em Geografia (Unimontes) e em Análise e Desenvolvimento de Sistemas (UCB). Professora da Universidade Estadual de Montes Claros.
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