A EMPREGABILIDADE É, DE FATO, UMA RESPONSABILIDADE INDIVIDUAL?
Por Helton Rafael Nascimento*
No âmbito laboral, temos vislumbrado com recorrência a crescente exigência empregatícia por qualificação, flexibilidade e adaptação; isso expõe uma anomalia do capitalismo contemporâneo, que amplia a necessidade de formação continuada, mas não cria postos de trabalho estáveis e compatíveis na mesma proporção.
Neste contexto, ao mobilizarmos a perspectiva configuracionista de Enrique de La Garza. Essa assimetria não resulta de déficits individuais, mas de configurações históricas nas quais mercado, organizações, Estado, instituições educacionais e tecnologias articulam-se na produção das condições de trabalho.
Assim, diplomas, certificações e competências digitais tornam-se requisitos de acesso, mas não garantem emprego, estabilidade ou mobilidade social. Nesse contexto, a lógica do “empresário de si” responsabiliza o indivíduo pela gestão contínua de sua empregabilidade por meio da qualificação, networking e marketing pessoal, onde a plataformização do trabalho intensifica essa lógica ao submeter trabalhadores a métricas e avaliações algorítmicas, ampliando a transferência dos riscos laborais para o indivíduo, que é pressionado a adaptar-se continuamente sem controlar as condições econômicas, organizacionais e tecnológicas que estruturam o mercado.
Por conseguinte, a empregabilidade formal passa a ser representada como patrimônio individual e, consequentemente, o emprego não formal e a precarização tendem a ser interpretados como consequências de insuficiências pessoais. Sendo assim, a exigência de “experiência profissional” evidencia esse paradoxo: atribui-se ao trabalhador a ausência de uma experiência cuja aquisição depende, em grande medida, da própria existência de oportunidades de trabalho. Da mesma forma, a inflação de credenciais pode produzir trabalhadores superqualificados diante da limitada capacidade de absorção ocupacional.
O problema, portanto, não está simplesmente na insuficiência de qualificação, mas na dissociação entre a crescente produção de trabalhadores qualificados e a capacidade estrutural de convertê-los em ocupações estáveis e socialmente valorizadas.
Com efeito, o debate sobre empregabilidade formal precisa deslocar-se para uma questão mais ampla: a de que a configuração social produz trabalhadores cada vez mais qualificados, entretanto, não assegura condições estruturais para sua absorção. Esse deslocamento permite compreender a empregabilidade não apenas como atributo individual, mas como fenômeno condicionado por relações econômicas, institucionais e tecnológicas que ultrapassam a capacidade de ação do próprio trabalhador.
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* Pesquisador e Escritor. Mestre em Administração e Doutorando em Ciência da Informação pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
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