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VODOU E A REPRESONTOLOGIA

há 1 dia
2 min de leitura

Por Ricardo Cortez Lopes*


A série “Represontologia da Cultura” apresenta artefatos culturais analisados por meio da Represontologia, a ciência das representações. Apresentamos obras e ocasiões em que a representação ultrapassa um referente. Os objetivos dessa série são mostrar aplicações dos conceitos e sugerir temas de pesquisa. Hoje, falaremos da religião haitiana Vodou.


O Vodou (grafia original e preferida no Haiti) é uma religião monoteísta e espiritualista que surgiu no século XVIII, a partir do encontro entre as tradições espirituais dos povos Fon, Ewe e Iorubá (trazidos da África Ocidental) e o catolicismo dos colonizadores franceses.


Sua estrutura espiritual é baseada em três pilares fundamentais:


Bondye (o Deus Supremo): O Vodou acredita em um único Deus criador e transcendente, chamado Bondye (do francês Bon Dieu — Bom Deus). Por estar acima das questões humanas cotidianas, as orações costumam ser direcionadas aos seus intermediários.


Os Lwas (espíritos intermediários): São forças da natureza, ancestrais divinizados e guias espirituais que atuam como ponte entre os humanos e Bondye. Os Lwas têm personalidades, gostos e símbolos próprios, como Baron Samedi, o guardião dos cemitérios, e Erzulie, associada à força do amor.


Comunidade, ancestralidade e cura: Os rituais de Vodou envolvem cantos, toques de tambores, danças e transes de possessão, nos quais os Lwas se comunicam com a comunidade para oferecer conselhos, curas por meio de ervas e proteção.


O mito dos “bonecos de Voodoo”: A ideia de espetar bonecos para ferir inimigos foi difundida pelo cinema de Hollywood e pelo folclore externo à tradição. No Vodou tradicional, figurinhas ou talismãs podem servir para curas, bênçãos ou representação de ancestrais, e não necessariamente para fins malévolos.


Porém, cabem algumas reflexões interessantes sobre esse estereótipo e sua conexão causal. Ele quebra a regra represontológica da distinção entre representação interna (mental) e representação externa (circulante nas mídias): o boneco sofre o estímulo separadamente da mente, mas a mente da vítima somatiza esse estímulo como se ele ocorresse no próprio corpo.


Logo, o boneco não é a mente inteira, mas um anexo inteiro conectado por magia, em sentido unidirecional (o boneco não tem mente para sentir o que a vítima passa). Seria assim, portanto, que se geraria a conexão.





Referências:


LOPES, Ricardo Cortez. Repræsontologia: fundamentos da ciência das representações. São Paulo: UICLAP, 2024.





* Escritor e Pesquisador. Doutor, Mestre e Graduado em Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

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