"TODO MUNDO ODEIA O CHRIS" E A REPRESONTOLOGIA
Atualizado: 28 de set.
Por Ricardo Cortez Lopes*
A série “Represontologia da Cultura” apresenta artefatos culturais analisados por meio da Represontologia, a ciência das representações. Apresentamos obras e ocasiões em que a representação ultrapassa um referente. Os objetivos dessa série são mostrar aplicações dos conceitos e também sugerir temas de pesquisa (quem sabe para publicar na Revista Colirium). Hoje, falaremos da série "Todo Mundo Odeia o Chris".
"Todo Mundo Odeia o Chris" (Everybody Hates Chris) é uma comédia de costumes ambientada nos anos 1980, no Brooklyn, em Nova York, que retrata a infância e a adolescência do comediante Chris Rock em tom satírico e autobiográfico. Narrada pelo próprio Chris já adulto, a série acompanha os percalços de um jovem negro que tenta se equilibrar entre a rotina de um colégio predominantemente branco, onde sofre discriminação, e as responsabilidades familiares impostas por sua mãe controladora, Rochelle, e por seu pai, Julius, exausto de tanto trabalhar. A isso se somam os frequentes conflitos com os irmãos e os perigos presentes em seu bairro.
O humor da série, por si só, já apresenta absurdos, que ocorrem quando a representação ultrapassa o real. Muitas vezes, porém, o que ocorre não são propriamente eventos canônicos, mas extrapolações. Portanto, esses elementos não estão necessariamente inscritos na estrutura dramatúrgica enquanto narrativa, mas aparecem como ampliações e deformações do cotidiano representado.
O que talvez salte mais aos olhos, entretanto, é o sucesso da série especificamente no Brasil. Por que as representações expressas em "Todo Mundo Odeia o Chris" repercutiram de forma tão intensa na cultura brasileira? A ponto de seus atores se tornarem celebridades com brilho para além dos próprios personagens, o que demonstra um forte movimento de replicação das representações produzidas pela série.
Essa afinidade pode ocorrer por diferentes motivos, e há algumas teorias possíveis. Uma delas é que a família de Chris se encontra em uma situação próxima da vulnerabilidade social e acaba lidando com situações, dificuldades e pessoas muito semelhantes àquelas presentes na realidade de muitos brasileiros. Essa proximidade pode contribuir para aumentar a replicação dessas representações, algo que pode ser percebido pela audiência, pelas inúmeras reprises e pela permanência da série no imaginário popular.
Represontologicamente, uma representação pode circular por diferentes mídias e suportes: um papel, um som, um bordão, uma imagem, um meme, entre outros. A série lançou inúmeras representações que passaram a constituir parte da visão de mundo de seus telespectadores e começaram a integrar o próprio cotidiano. Uma pessoa considerada sovina, por exemplo, pode ser chamada de “Julius”. Ao utilizar essa referência, estabelece-se imediatamente uma interação baseada em um repertório compartilhado, criando-se uma espécie de mundo comum entre aqueles que reconhecem a representação.
Assim, as representações vão se encaixando, circulando e adquirindo novos sentidos, ao mesmo tempo em que passam a participar da produção de subjetividades. "Todo Mundo Odeia o Chris", nesse sentido, ultrapassa os limites da própria obra televisiva: suas representações continuam existindo nas falas, nos memes, nas comparações e nas formas pelas quais seus espectadores interpretam situações do cotidiano.
Curso de Introdução à Represontologia: https://www.institutoparajas.org/challenge-page/cc27cc60-1b9a-46f6-8d40-cad208f5a28b?programId=cc27cc60-1b9a-46f6-8d40-cad208f5a28b&participantId=aa1ccc75-5a7a-4ed5-a6a3-681736b3eea6
Referências:
LOPES, Ricardo Cortez. Repræsontologia: fundamentos da ciência das representações. São Paulo: UICLAP, 2024.
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* Escritor e Pesquisador. Doutor, Mestre e Graduado em Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
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