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1994: LITTLE ITALY CONTRA FIVE POINTS EM NEW JERSEY

28 de set.
24 min de leitura

Por Dimas Junior*


Em 1994 a Copa do Mundo chegou à terra estadunidense de forma inédita. Os Estados Unidos da América, um país meio que desencontrado (ver TRIVELA, [s.d.]; SPORTS ILLUSTRATED, 2006) em sua relação com o fenômeno futebol (lá chamado de soccer), recebeu a 15ª edição do torneio. E as razões para isso talvez tenham sido, no geral, fundamentalmente econômicas.


Em 1984, os Jogos Olímpicos foram disputados na cidade de Los Angeles, nos Estados Unidos da América, e a contabilidade dos jogos, com relação ao torneio olímpico de futebol, chamou a atenção da FIFA. Segundo o autor Max Gehringer,

“Mesmo sofrendo a concorrência de todos os esportes olímpicos, o torneio de futebol dos Jogos foi um estrondoso sucesso de público. A Final entre Brasil e França recebeu 101.799 espectadores, e – o que era ainda mais espantoso – a decisão do terceiro lugar entre Iugoslávia e Itália acomodou 100.374 pagantes. Para quem previa desinteresse geral e estádios vazios no torneio olímpico de futebol, foi um choque. Para a FIFA, foi uma epifania. Não apenas pelo que poderia faturar na Copa, mas, principalmente, pelo que a Copa poderia render em longo prazo nos Estados Unidos” (GEHRINGER, [s.d.], p. 8-9).

Assim, o direito de sediar a 15ª Copa do Mundo, disputado entre Chile, Brasil, Marrocos e Estados Unidos da América, foi se aproximando cada vez mais dos estadunidenses até o momento da decisão final da FIFA, em 1988. Sintomaticamente, o anúncio do país-sede, inicialmente agendado para 30 de junho, foi postergado para o dia 4 de julho – data que seria o marco dos 212 anos da independência estadunidense – e, assim, em 4 de julho de 1988, o país foi oficialmente anunciado, pela FIFA, como país-sede da Copa do Mundo a ser disputada em 1994. Por fim, se os interesses em termos de negócios pesaram no âmbito da Copa do Mundo de 1994, os organizadores estadunidenses, a FIFA e os países participantes não tiveram do que se queixar: o lucro real apurado do torneio chegaria próximo dos 60 milhões de dólares.


Mas se a relevância econômica foi significativa na Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos da América, talvez seja a intensa relação do país com a imigração uma chave interessante para compreender a relevância histórica do torneio. Afinal, segundo o historiador Sean Purdy,

“O enorme crescimento econômico dos Estados Unidos dependia de uma mão-de-obra massiva, que foi providenciada pelos grandes movimentos populacionais do fim do século XIX no mundo. Expulsos de seus países pelo crescimento demográfico, modernização agrícola, pobreza e opressão política e religiosa, 25 milhões de imigrantes chegaram aos Estados Unidos, entre 1865 e 1915, um contingente mais de quatro vezes superior ao dos 50 anos anteriores” (KARNAL et al., 2011, p. 178).

Também segundo Sean Purdy, a “população americana foi feita e refeita pelas ondas sucessivas de imigração no período de 1850-1915”. (KARNAL et al., 2011, p. 179) Assim,

“Em 1890, a maioria da população urbana era formada por imigrantes: 87% da população em Chicago, 80% em Nova York, 84% em Milwaukee e Detroit. Além de residências, os bairros de concentração étnica que surgiam na época, abrigando os que chegavam, tinham lojas, tavernas, instituições culturais, políticas e religiosas vinculadas ao país de origem de seus habitantes” (KARNAL et al., 2011, p. 179).

Nessa massa de imigrantes, fundamental para a formação dos Estados Unidos da América, havia muitos irlandeses e italianos, especialmente na cidade de New York. Isso ajuda a entender por que havia tantos irlandeses, italianos e descendentes no Giants Stadium (em East Rutherford, New Jersey, cidade e estado vizinhos a New York) no dia 18 de junho de 1994. Nesse dia, no jogo de abertura do Grupo E da Copa do Mundo de 1994, enfrentaram-se as seleções de futebol da República Italiana e da República da Irlanda.


A saga imigrante irlandesa, na América inglesa e posteriormente nos Estados Unidos da América, é longa; segundo Herbert S. Klein,

“A economia em expansão e a fronteira dos Estados Unidos ofereciam uma oportunidade extraordinária para a migração europeia. Até 1880, essa migração – a chamada Velha Imigração – era constituída de camponeses europeus e trabalhadores rurais da Irlanda, das Ilhas Britânicas e da Europa setentrional, que agora chegavam aos Estados Unidos em números extraordinários. Entre 1821 e 1880, cerca de 9,5 milhões de europeus – sobretudo irlandeses e alemães – desembarcaram nos Estados Unidos. A Irlanda, mesmo antes da grande fome dos anos 40 [do século XIX], enviou 850 mil imigrantes para a América” (KLEIN, 2000, p. 21).

A partir de 1880 ocorreram mudanças significativas no fluxo de imigração europeia para o continente americano; foi o momento em que europeus do Leste e do Sul predominaram entre os cerca de 31 milhões de imigrantes que cruzaram o Atlântico de 1881 a 1915, entre eles, muitos italianos. Herbert S. Klein, novamente, informa que,

“[a] Itália – exportadora insignificante de trabalhadores antes de 1880 – expulsou cerca de 7,7 milhões de trabalhadores entre 1881 e 1914” (KLEIN, 2000, p. 25-26).

Ainda segundo Herbert S. Klein, os imigrantes italianos concentraram-se principalmente em cidades portuárias do Leste dos Estados Unidos da América, como Boston, Philadelphia e New York (KLEIN, 2000, p. 29).


A cidade de New York é um exemplo interessante para observação da dinâmica imigrante nos Estados Unidos da América, em especial no que diz respeito a irlandeses e italianos, os quais, ao sul da Ilha de Manhattan, na chamada Lower Manhattan, estabeleceram os seus bairros étnicos.


O bairro de Five Points, no coração de Lower Manhattan, tornou-se uma área de concentração dos imigrantes irlandeses. Segundo o jornalista espanhol Nacho Carretero, tomando por base o ano de 1847, 1.000 novos imigrantes irlandeses desembarcaram na região semanalmente. O cruzamento de três ruas – Anthony, Orange e Cross, formando cinco ângulos – Five Points, deu nome à região. Um censo realizado em 1855 indicou 89% de população imigrante no bairro, dos quais, 66% eram irlandeses (CARRETERO, 2013).


Five Points: o bairro étnico irlandês em New York.
Five Points: o bairro étnico irlandês em New York.

Quanto aos imigrantes italianos, ainda segundo Nacho Carretero, cerca de 68.500 deles estabeleceram-se em New York, entre 1860 e 1880, também em Lower Manhattan, o que explica porque a região em que se concentraram passou a ser conhecida como bairro de Little Italy (CARRETERO, 2013).


Little Italy: o bairro étnico italiano em New York.
Little Italy: o bairro étnico italiano em New York.

Irlandeses e italianos viviam, em seus bairros étnicos de New York, sob as condições que os empurraram na travessia do Oceano Atlântico em direção aos Estados Unidos da América. Afinal, como nos explica Herbert S. Klein,

“deve-se dizer que a maioria dos migrantes não desejam abandonar suas casas nem suas comunidades. Se pudessem escolher, todos – com exceção dos poucos que anseiam por mudanças e aventuras – permaneceriam em seus locais de origem. A migração, portanto, não começa até que as pessoas descobrem que não conseguirão sobreviver com seus meios tradicionais em suas comunidades de origem. Na grande maioria dos casos, não logram permanecer no local porque não têm como alimentar-se nem a si próprias nem a seus filhos” (KLEIN, 2000, p. 13).

Assim, irlandeses e italianos eram duas comunidades que formavam um grande grupo de pessoas, em média, pobres. Estranhos em uma terra estranha e em processo de formação – os Estados Unidos da América – compartilhavam, além de sua pobreza, uma origem “europeia periférica” (irlandesa e italiana) por serem oriundos de regiões, em média, pobres, no contexto europeu. Essa origem os tornava, inclusive, alvos de um racismo sistemático no contexto estadunidense; sobre tal racismo, segundo o historiador Sean Purdy,

“Até 1900, descreve o historiador Eric Foner, a ‘linguagem da ‘raça’ – conflito de raça, sentido de raça, problemas de raça – tinha assumido um lugar central no discurso público americano’. ‘Raça’ significava supostas diferenças biológicas e culturais entre povos e foi um conceito invocado para explicar a desigualdade econômica e social entre povos tidos como superiores, geralmente brancos originários da Europa Ocidental e do Norte, e outros povos ‘inferiores’, geralmente não brancos e/ou imigrantes da periferia da Europa” (PURDY, 2011, p. 179).

E havia ainda um aspecto cultural que também aproximava irlandeses e italianos: a forte tradição religiosa cristã católica apostólica romana. No entanto, esses pontos de aproximação não impediram intensos conflitos entre as duas comunidades.


Como vimos anteriormente, no primeiro capítulo, revoluções e levantes, de cunho liberal e nacionalista, varreram o continente europeu a partir de 1820, tendo um importante papel para a unificação nacional italiana em 1870. O território que hoje conhecemos como República Italiana foi, até a sua unificação nacional, algo muito diferente; por exemplo, segundo o historiador Christopher Duggan, “a Itália não tinha voz própria e era apenas um peão nos jogos diplomáticos e dinásticos dos outros” (DUGGAN, [s.d.], p. 117). Resumidamente, o “peão italiano” era “disputado” entre França, Império Austro-Húngaro e a Igreja Católica Apostólica Romana em uma situação assim descrita pelo historiador, Marvin Perry:

“a Itália consistia em vários Estados separados. No sul, um rei Bourbon governava o Reino das Duas Sicílias; o papa governava os Estados Pontificiais na Itália Central; os Habsburgo austríacos governavam a Lombardia e Venécia no norte. Os príncipes Habsburgo subservientes à Áustria governavam os ducados de Toscana, Parma e Módena. O Piemonte, a noroeste, e a ilha da Sardenha eram governados por uma dinastia italiana, a casa de Savóia” (PERRY, 2002, p. 397).

Quando, no século XIX, a onda de revoluções e levantes, de cunho liberal e nacionalista, varreu o continente europeu, no caso italiano, três personagens se destacaram: Giuseppe Mazzini – um ativista liberal e nacionalista, Camillo Benso de Cavour – primeiro-ministro do reino de Piemonte-Sardenha e Giuseppe Garibaldi – um líder republicano de perfil revolucionário.


Giuseppe Garibaldi participou de momentos militares e políticos importantes para o movimento de unificação italiana, mas, com a derrota momentânea desse movimento, foi para o exílio, na cidade de New York, em 1850. Sobre Garibaldi, segundo o jornalista estadunidense, Paul Moses, nos Estados Unidos da América “amavam o que ele fazia porque ele estava, você sabe, lutando pela liberdade contra esses monarcas do Velho Mundo. Então ele era muito popular, as pessoas queriam fazer desfiles para ele” (MOSES, 2015). Garibaldi viveu em New York até 1853, mas não foi, nesse período, exatamente uma unanimidade na cidade; afinal, entre os adversários da unificação italiana e, portanto, de Garibaldi, estavam a Igreja Católica Apostólica Romana e seu líder, o papa, em seu domínio sobre os Estados Pontificiais. Assim, segundo a historiadora Anna Carletti, o papa Pio IX – cujo pontificado ocorreu entre 1848 e 1878 – lidou com,

“a perda do poder temporal com o fim dos Estados Pontifícios (...) em ocasião da proclamação da unidade da Itália, em 1870. (...) [Todo] o pontificado de Pio IX foi perpassado pelos movimentos revolucionários que eclodiram em 1848 e que visavam a libertação do território nacional do domínio estrangeiro inclusive do domínio do papa” (CARLETTI, [s.d.], p. 9-10).

Neste ponto, para ter uma dimensão da oposição entre a Igreja Católica Apostólica Romana e o processo de unificação italiana é útil observar o pensamento de outro de seus líderes, o ativista liberal e nacionalista, Giuseppe Mazzini; assim, segundo o historiador, Christopher Duggan:

“O elemento espiritual foi essencial na visão da unidade italiana de Mazzini, e, de fato, para o movimento democrático como um todo; (...) Como herdeiros do Iluminismo e da Revolução Francesa, os democratas tinham uma aversão profunda à Igreja Católica; não apenas porque o catolicismo era uma barreira para a disseminação do ‘evangelho da humanidade’, mas também por ser um obstáculo político no caminho da revolução. As massas tinham de ser convencidas de que Deus não falava mais por meio do papa, mas por meio do ‘povo’ reunido em nações, e que a causa da Itália era por si mesma uma missão divina, que exigia luta, sacrifício e, se necessário, martírio. ‘Como porta-estandartes do renascimento da Itália’, disse Mazzini para seus seguidores, ‘lançaremos a pedra fundamental da sua religião’” (DUGGAN, [s.d.], p. 117).

Sendo assim, Garibaldi, durante sua estadia em New York, foi intensamente difamado publicamente pelo arcebispo cristão católico da cidade, John Hughes, por sua, assim entendida, deslealdade – em função de sua luta pela unificação italiana – ao papa e à Igreja Católica Apostólica Romana (MOSES, 2015).


O jornalista estadunidense, Paul Moses, analisa essa situação:

“[Para John] Hughes, um ataque ao papa era um ataque à fé católica” (MOSES, 2015, p. 13).

Um detalhe importante: o arcebispo John Hughes era irlandês.


Giuseppe Garibaldi e John Hughes: opositores europeus em New York.
Giuseppe Garibaldi e John Hughes: opositores europeus em New York.

Para entender essa desavença entre Giuseppe Garibaldi e John Hughes é preciso olhar também, brevemente, para a História irlandesa.


Segundo o economista Mauricio Metri,

“Desde muito cedo, a Inglaterra atribuiu à Irlanda considerável relevância estratégica, por conta da proximidade e por ambas fazerem parte do conjunto das Ilhas Britânicas, definindo-a como alvo prioritário de dominação e ocupação. Chama atenção como a geografia tem condicionado a história das relações anglo-irlandesas, marcada por intensos e recorrentes conflitos derivados de antagonismos recíprocos de difícil superação” (METRI, 2017, p. 46).

Esses conflitos, derivados da dominação inglesa sobre a Irlanda, basicamente desenrolam-se entre os séculos XII e XX, até a independência irlandesa, em 1921. Durante esse desenrolar, o século XVI trouxe um complicador para o antagonismo entre ingleses e irlandeses, ainda segundo Mauricio Metri:

“Com a Reforma de 1534, a Inglaterra rompeu com a Igreja Católica de Roma e criou a própria religião, a Anglicana, instituindo o monarca britânico como seu chefe supremo em detrimento do papa. Portanto, fosse por antagonismos geopolíticos (ameaças recíprocas derivadas de dois entendimentos distintos acerca da inserção da Ilha da Irlanda no tabuleiro europeu), fosse por rivalidades religiosas (derivados de dois postulantes antagônicos à herança da cristandade ocidental), havia uma profunda oposição entre ingleses protestantes e irlandeses católicos” (METRI, 2017, p. 52).

Ou seja, na luta irlandesa contra o domínio inglês – uma luta nacionalista – ser católico apostólico romano – e leal ao papa – fazia muita diferença. Tanto que, mesmo que a Constituição da Irlanda republicana e independente, promulgada em 1937, “tenha evitado o estabelecimento do catolicismo como a religião do estado, ofereceu-se a ela posição de destaque sobretudo no sistema educacional dentro da nova República da Irlanda” (METRI, 2017, p. 61).


Assim, para o irlandês John Hughes – arcebispo cristão católico da cidade de New York –, o italiano Giuseppe Garibaldi – um republicano revolucionário – era, simplesmente, um elemento desleal ao papa e à Igreja Católica Apostólica Romana por lutar pela unificação italiana.


Paul Moses analisa a situação e seus desdobramentos:

“E assim a linha de batalha foi definida. Do ponto de vista de Hughes, até mesmo um grande lutador pela liberdade como Giuseppe Garibaldi estava do lado errado das barricadas. As aspirações políticas mais profundas dos irlandeses e dos italianos entraram em conflito – eles estavam amarrados em visões diametricamente opostas do papa. [...] A religião é frequentemente um fator de discórdia étnica, mas os irlandeses e os italianos [em New York] deram uma reviravolta invulgar a este conflito: eram dois povos divididos pela mesma religião. [...] A disputa política e religiosa que Garibaldi e Hughes exemplificam despertou raiva, ressentimento e até ódio, ajudando a dividir dois povos rurais empobrecidos que se encontrariam, a milhares de quilômetros de suas terras natais, nas igrejas lotadas e ruas estreitas [de Lower Manhattan]” (MOSES, 2015, p. 14-15, 26).

Se nos dias de Garibaldi em New York, entre 1850 e 1853, os italianos na cidade não eram muitos, a partir de 1860 eles chegaram em grande número e os conflitos entre irlandeses e italianos, de certa forma iniciados pelas diferenças entre Hughes e Garibaldi, cresceram; muito.


Segundo o professor estadunidense, Al Bruno, quando “um grande número de italianos começou a chegar a Nova York por volta de 1880, eles enfrentaram uma concorrência feroz dos irlandeses (...) Naquela época, eles lutavam por empregos ou território e disputavam o poder na igreja, na política, nos sindicatos e no serviço público” (BRUNO, 2020).


James Hannan, colaborador da Commonweal Magazine, ajuda a dimensionar o grau de competição por empregos entre irlandeses e italianos:

“Em 1893, [os italianos] representavam três quartos dos trabalhadores da construção, uma percentagem que os irlandeses detinham apenas uma década antes. As tensões eclodiram em batalhas sangrentas em locais de trabalho em Manhattan e Brooklyn” (HANNAN, 2015).

Em um artigo publicado em 2016, Paul Moses descreve algumas dessas batalhas, ocorridas entre 1892 e 1896:

“Mas o ressentimento irlandês-italiano continuou. Um exemplo é uma batalha travada em um trabalho de construção em Manhattan na 412–414 West Thirty Seventh Street, algumas portas abaixo de uma delegacia de polícia, em 13 de julho de 1896. Os italianos reclamaram amargamente que o capataz irlandês, James Foley, dava aos irlandeses serviço leve. Isso parecia especialmente verdadeiro quando chegou a hora de misturar argamassa. O trabalho exigia dois trabalhadores — um que suava mexendo cal e areia, o outro que ficava ao lado com uma mangueira, mantendo a mistura úmida. Após o intervalo para almoço, Foley disse a um trabalhador italiano, identificado em relatos de notícias (que quase sempre escreviam nomes italianos errados) como Sandel Sandow, para misturar a argamassa enquanto um irlandês, Patrick Smith, da 334 West 49th Street, manusearia a mangueira. Os dois trabalhadores começaram a discutir, e Sandow jogou cal com sua enxada. [Smith, então] lavou os sapatos de Sandow com a mangueira. Num piscar de olhos, os dois homens começaram a se esmurrar e o resto dos trinta trabalhadores juntou-se a eles enquanto os moradores locais saíam dos cortiços e comemoravam. Tijolos, prontos à mão, foram atirados para frente e para trás, quebrando dez janelas na rua. A polícia, com cassetetes em punho, levou meia hora de esforço para acabar com a briga e prender seis homens, incluindo os dois que a começaram. Smith estava machucado por ter sido jogado de cabeça em um porão. ‘Irlandeses lutam contra italianos’, dizia uma manchete” (MOSES, 2016).

Neste ponto, é interessante pensar no grau de ressentimentos e desavenças que já vinham sendo construídos entre irlandeses e italianos desde os embates que vimos, entre John Hughes e Giuseppe Garibaldi, e que agora explodiam, brutalmente, na disputa por postos de trabalho que culminava em batalhas nas ruas de New York.


Mas os ressentimentos e desavenças também estavam nos cultos religiosos cristãos católicos divididos por irlandeses e italianos. Outro artigo de Paul Moses, publicado em 2015, descreve as disputas – do final do século XIX – “furiosas entre padres irlandeses e italianos [que] chegaram até o Vaticano, enquanto os italianos reclamavam a Roma que só tinham permissão para realizar serviços nos porões das igrejas. ‘Por que só no porão? Perdoe-me, Excelência, se eu lhe disser francamente que esses pobres diabos não são muito limpos, de modo que os outros não querem tê-los na igreja de cima’, escreveu indelicadamente o arcebispo de Nova York, Michael Corrigan a um escritório do Vaticano que estava revisando a situação dos emigrantes italianos. ‘Caso contrário, os outros se mudam, e então adeus à renda’” (MOSES, 2015).


Um detalhe importante: o arcebispo Michael Corrigan, estadunidense nascido em New Jersey, era filho de pais emigrados da Irlanda.


Ainda com relação aos cultos religiosos cristãos católicos, conforme a presença italiana cresceu em New York, foram constituídas igrejas etnicamente italianas, o que acabou originando outro ponto de ressentimento e desavença entre irlandeses e italianos: a maneira como os italianos vivenciavam sua fé cristã católica incomodava os irlandeses. Segundo Paul Moses,

“Quando se tratava de dias festivos italianos, os dois estilos muito diferentes de catolicismo que os irlandeses e os italianos praticavam estavam destinados a colidir como um par de címbalos em uma banda marcial” (MOSES, 2015, p. 57).

Os imigrantes italianos realizavam celebrações dos dias de santos frequentemente com desfiles de rua e festas, coloridas e barulhentas – ao menos para os padrões dos cristãos católicos irlandeses. Paul Moses segue em sua análise:

“Os irlandeses evitavam tais demonstrações barulhentas de fé. Tendo passado à clandestinidade para preservar sua religião dos britânicos, eles expressavam uma piedade mais serena, alimentada com as referências básicas da presença na missa, recepção dos sacramentos e obediência à autoridade da igreja. Mas para os imigrantes do sul da Itália, as demonstrações externas de devoção da festa refletiam uma piedade diária interna construída em torno de pensamentos frequentes sobre Deus, Maria e os santos” (MOSES, 2015, p. 58).

Assim, irlandeses e italianos, em New York, eram dois povos divididos – intensamente – pela mesma religião.


Lutando uns com os outros – às vias de fato – por empregos e divididos pelo preconceito e estranhamento nos cultos religiosos cristãos católicos, irlandeses e italianos viviam assim sua saga estadunidense em New York. No entanto, do final do século XIX em diante, a maré de ressentimentos e desavenças entre irlandeses e italianos, em New York, lentamente começaria a virar.


Na questão da competição por empregos, entre irlandeses e italianos, o sindicalismo era um ponto importante. Segundo Paul Moses, em “1874, com os imigrantes italianos chegando aos poucos, o Times editorializou com aprovação que sua presença estava ajudando os empregadores a reduzir os salários. Ao contrário dos irlandeses, o artigo observou que os italianos ‘não têm nada a ver com sindicatos’, trabalhando sem reclamar para uma empresa que intermediou a viagem da Itália por uma porcentagem dos salários e vendeu a comida para eles, ‘pois os italianos têm seus próprios gostos na direção culinária’. O jornal sugeriu que os empregadores contratassem italianos livremente, já que estavam acostumados a salários baixos” (MOSES, 2016).


Os irlandeses, em New York, por sua vez, construíram uma forte tradição de organização sindical, derivada, em parte, de sua tradição de resistência organizada ao domínio britânico na Irlanda. Por exemplo, o primeiro desfile do chamado, Labor Day, ocorreu em New York, em uma segunda-feira, 05 de setembro de 1882, com forte participação de irlandeses. Assim, os irlandeses, intensamente sindicalizados, tendiam a considerar os italianos como inimigos do sindicalismo, por sua disposição em trabalhar por salários mais baixos e, mesmo, como fura-greves. Isso ajuda a explicar as explosões de tensão, culminando nas batalhas nos locais de trabalho entre irlandeses e italianos, mas também ajuda a explicar a superação dos ressentimentos e desavenças entre os dois grupos.


Por exemplo, James Hannan descreve como, em 1903, as obras do metrô de New York foram cenário de uma greve de cinco semanas, de trabalhadores imigrantes italianos liderados pelo sindicalista, Tito Pacelli, também ele, um imigrante italiano. Greve essa que terminou vitoriosa, com um aumento no valor do salário dos trabalhadores; ou seja, os inimigos do sindicalismo e fura-greves de antes eram, agora, sindicalizados e combatentes. Este trecho do relato de James Hannan aponta, a partir disso, o caminho de superação trilhado por irlandeses e italianos:

“Ao longo das décadas, enquanto os irlandeses e os italianos continuaram a trabalhar lado a lado em canteiros de obras e nas docas, suas atitudes se transformaram em uma aceitação relutante um do outro. Os irlandeses claramente gostaram da influência extra que os imigrantes sindicalizados forneceram. Por sua vez, os italianos aprenderam lições valiosas com os líderes trabalhistas irlandeses sobre como organizar e cultivar conexões políticas” (HANNAN, 2015).

Uma superação, contudo, que teve suas dificuldades; Paul Moses demonstra isso, citando uma declaração de Tito Pacelli, o líder da greve vitoriosa dos trabalhadores imigrantes italianos, de 1903:

“Eles estão tentando levantar a opinião pública americana contra os italianos. A história de sempre” (MOSES, 2015, p. 96).

Tito Pacelli: imigrante italiano e sindicalista.
Tito Pacelli: imigrante italiano e sindicalista.

No entanto, a superação dos ressentimentos e desavenças, entre irlandeses e italianos, seguiu seu caminho. Terence Vincent Powderly, um líder trabalhista estadunidense de descendência irlandesa, parece ser um exemplo disso. Em 1888, Powderly afirmou, como testemunha em uma investigação do Congresso estadunidense sobre a questão da imigração no país, que os italianos “não eram a classe certa para se tornarem cidadãos” (MOSES, 2016). Anos mais tarde, o mesmo Terence Vincent Powderly havia mudado significativamente seus conceitos:

“[Ele] viajou para a Itália, visitando pequenas aldeias onde se hospedava em casas de fazenda. ‘Confesso que quando fui à Europa pela primeira vez, fui mais ou menos munido de uma noção anti-imigração’, escreveu ele, explicando que resolveu deixar de lado suas noções preconcebidas. Ele acrescentou: ‘Aprendi a conhecer essas pessoas partilhando o pão com elas em suas terras natais.’ Ele decidiu que ‘não cumprimos nosso dever para conosco mesmos ou para com nosso país, ao não nos aproximarmos o suficiente de nossos imigrantes para ouvir seus corações. Se pensássemos que eles estavam errados, não poderíamos corrigi-los permanecendo distantes deles’” (MOSES, 2015, p. 98-99).

Terence Vincent Powderly: preconceito vencido pela experiência.
Terence Vincent Powderly: preconceito vencido pela experiência.

No front dos cultos religiosos cristãos católicos, nas batalhas entre irlandeses e italianos, em New York, acenos e promessas de paz também começaram a aparecer. A catedral católica de São Patrício, em Lower Manhattan, oferece exemplos disso.


Essa catedral foi conduzida, entre a segunda metade do século XIX e o ano de 1923, pelo Monsenhor John F. Kearney, um filho de imigrantes irlandeses nascido em New York. O entorno da catedral testemunhou o avanço demográfico dos imigrantes italianos e a tensão de sua convivência com os irlandeses e seus descendentes, mas não apenas isso. A escola paroquial católica ligada à catedral tornou-se, gradativamente, uma área de convivência entre crianças de descendência irlandesa e italiana. Assim, em 1889, o Monsenhor John F. Kearney escreveu em um relatório sobre a escola:

“Admitimos crianças italianas na escola paroquial sem questionamentos. Estamos ansiosos para recebê-las” (MOSES, 2015, p. 54).

Paul Moses cita, nesse sentido, um caso interessante, no contexto do centenário, em 1909, da catedral católica de São Patrício. Um texto escrito sobre o centenário destacava a composição dos alunos da escola paroquial católica: seriam 2.800 crianças “com nove décimos ‘da raça italiana e brilhantes, eles são pequenos alunos inteligentes, destinados um dia a desempenhar um papel importante nos assuntos do nosso país’” (MOSES, 2015, p. 51-52).


Monsenhor John F. Kearney: admissão de crianças italianas sem questionamentos.
Monsenhor John F. Kearney: admissão de crianças italianas sem questionamentos.

Segundo Paul Moses,

“Em 11 de abril de 1923, Monsenhor Kearney chamou os outros padres da reitoria de St. Patrick para seu quarto. Dos quatro, três eram italianos. O pastor de oitenta e cinco anos deu-lhes sua bênção e morreu alguns minutos depois. Dez mil pessoas compareceram ao seu funeral, muitas delas na rua do lado de fora” (MOSES, 2015, p. 54).

Ainda segundo Paul Moses, entre os dez mil presentes muitos eram irlandeses, italianos e descendentes.


Assim, no campo da cultura religiosa, irlandeses e italianos tenderam, progressivamente, à aproximação pela convivência. Segundo Paul Moses, uma aproximação muito significativa:

“A Igreja Católica, onde os italianos antes adoravam no porão e os irlandeses no santuário principal, tornou-se um catalisador para o casamento inter-italiano-irlandês” (MOSES, 2015, p. 280).

Nesse sentido, avançando no tempo, Paul Moses cita um estudo sociológico, realizado em 1967, na cidade de New York, que descobriu, em um levantamento realizado com mais de mil pessoas, a tendência, entre italianos de terceira geração, ao casarem com alguém de outro grupo étnico, de quase sempre escolherem um parceiro irlandês; além disso, esse mesmo estudo constatou que a probabilidade de enviar filhos para uma escola paroquial católica era quase a mesma entre irlandeses e italianos (MOSES, 2015, p. 283-284).


Assim, em New York, no trabalho, nos sindicatos, nas igrejas e escolas católicas e nos bairros suburbanos – nos quais tenderam a residir ao ascender na escala social, deixando para trás seus bairros étnicos –, irlandeses e italianos passaram a conviver, a se aproximar e a se mesclar, superando, de geração em geração, o legado de batalhas e preconceitos que haviam dividido seus pais e avós. Talvez um símbolo interessante disso seja a eleição, na cidade, em 1993, de um prefeito de ascendência italiana – Rudolph William Louis Giuliani e de um vice-prefeito de ascendência irlandesa – Peter James Powers. E talvez essa eleição seja mais simbólica ainda, por ter ocorrido exatamente no ano que antecedeu a realização da Copa do Mundo de 1994.


Peter James Powers e Rudolph William Louis Giuliani: Five Points e Little Italy juntos no governo de New York.
Peter James Powers e Rudolph William Louis Giuliani: Five Points e Little Italy juntos no governo de New York.

Como vimos, no dia 18 de junho de 1994, no jogo de abertura do Grupo E da Copa do Mundo de 1994, enfrentaram-se as seleções de futebol da República Italiana e da República da Irlanda. Também como vimos, italianos, irlandeses e seus descendentes viveram e construíram uma saga em New York, de ressentimentos, desavenças, preconceitos e, posterior e gradativa aceitação mútua. Foi um longo processo histórico entre duas identidades nacionais, talvez ainda mais dramático pela condição imigrante de ambas: estranhos em uma terra estranha e em processo de formação – os Estados Unidos da América. Mas em 1994, quando italianos e irlandeses se colocaram frente a frente, na cancha do Giants Stadium, diante de mais de 75.000 pessoas – com uma grande maioria de irlandeses e descendentes – que tipo de carga histórica impregnava a partida?


Há uma pista interessante para tentar, razoavelmente, responder à pergunta em uma matéria, publicada pelo jornal inglês, The Observer (nome da edição dominical do jornal The Guardian), em 12 de junho de 1994, seis dias antes da partida. Assinada pelo jornalista, Ed Vulliamy, a matéria trazia um título muito significativo: “Italy versus Ireland: The battle for New York's immigrant soul” (Itália versus Irlanda: a batalha pela alma imigrante de New York) (VULLIAMY, 1994).


Eis um trecho também muito significativo da matéria, descrevendo o significado da partida entre italianos e irlandeses no contexto estadunidense e da cidade de New York:

“Aqueles que deixaram – ou cujas famílias ou ancestrais deixaram – suas terras natais mal conseguem acreditar que os times nacionais de futebol de seus países perdidos, amados e às vezes ressentidos, aqueles ícones do orgulho nacional, agora virão e jogarão diante de seus olhos no país para o qual suas comunidades foram exiladas pela pobreza e ambição, às vezes por gerações” (VULLIAMY, 1994).

Chama a atenção a referência, sutil, aos ocasionais ressentimentos. O texto de Ed Vulliamy arremata sobre a partida: “Em Nova York, o auge do torneio será a partida no próximo sábado, quando as duas grandes e históricas comunidades nas quais a vida do homem comum da cidade é fundada se encontram no estádio Giants; Irlanda versus Itália. É uma batalha pela alma da cidade de imigrantes, entre os dois grupos que, literalmente, a construíram” (VULLIAMY, 1994).


Também chama a atenção a referência ao papel das duas comunidades imigrantes, e de seus descendentes no contexto da cidade de New York.


Para construir a matéria, Ed Vulliamy esteve em áreas de ascendência italiana e irlandesa em New York e recolheu relatos interessantes, este pelo lado italiano:

“'Os irlandeses?' pondera Lello no Café Bella Napoli em Little Italy, 'Oh, eles são caras durões, sim. Não pense que somos só nós que podemos nos organizar, se é que você me entende! Eles têm a cabeça no lugar e não brincam. Somos os originais em Nova York – nós e os irlandeses. Mas não acho que eles tenham o que é preciso quando se trata do jogo. O futebol nos pertence'” (VULLIAMY, 1994).

E este pelo lado irlandês, no qual, segundo Ed Vulliamy, um certo Jimmy, no pub irlandês Gloca Morra, diz:

“'Deus', ele continua, 'não mencione os italianos! Para começar, eles acham que já ganharam esta taça. Eles não sabem de nada; Eu lido com eles o tempo todo no Bronx. Eles acham que estão no caminho certo, mas vão levar um choque'” (VULLIAMY, 1994).

Ed Vulliamy relata então, ainda no Gloca Morra, o que ouviu de outra fonte que preferiu o anonimato:

“'Os italianos', diz um homem do ramo da construção que prefere não ser citado pelo nome, 'eles comandam os sindicatos agora, tudo bem. E eles mantêm o preço da mão de obra alto fazendo isso. Cada contrato para a cidade é este sindicato, aquele sindicato e o outro sindicato. Já ouviu falar de extorsão trabalhista? Bem, foi assim que começou e é assim que acontece agora – e você sabe de quem estou falando. Eu os conheci e eles parecem ser pessoas muito legais para conversar. Mas espere só até vermos os rapazes deles no campo de futebol em 18 de junho!'” (VULLIAMY, 1994).

Parece ser possível observar nos relatos registrados por Ed Vulliamy – tanto no Café Bella Napoli quanto no pub Gloca Morra – os traços da História vivenciada e construída por italianos e irlandeses como imigrantes em New York. Naqueles dias de 1994 que antecediam o encontro na cancha do Giants Stadium, se havia a percepção de que eram “os originais” em New York – duas massas imigrantes que ajudaram a construir a cidade – também se ouviam ecos das velhas batalhas trabalhistas e sindicais nas referências à capacidade de organização e ao comando dos sindicatos. Ao que parece, a partida de 18 de junho de 1994, no Giants Stadium, era percebida e esperada, por italianos, irlandeses e descendentes, em New York, como um encontro de velhos rivais reconciliados; mas, rivais, marcados por uma História de ressentimentos, desavenças, preconceitos e, posterior e gradativa aceitação mútua. Assim, parece ser possível afirmar que Ed Vulliamy foi preciso, do ponto de vista histórico, no título de sua matéria: a partida entre italianos e irlandeses, na Copa do Mundo de 1994, foi, mesmo, “a batalha pela alma imigrante de New York”, protagonizando um encontro intenso entre História e futebol.


A seleção italiana chegou à cancha do Giants Stadium com três títulos mundiais (1934, 1938, 1982) e várias participações em Copas do Mundo. A seleção irlandesa estava em sua segunda participação em Copas do Mundo (tendo sido a primeira em 1990). Portanto, os italianos tinham grande tradição no jogo e em Copas do Mundo, ao contrário dos irlandeses. No entanto, a partida de abertura do Grupo E daquela Copa do Mundo de 1994 reafirmou outra tradição do torneio: favoritos nem sempre vencem. Com um gol marcado por Ray Houghton, aos 11 minutos do primeiro tempo, a seleção irlandesa saiu na frente e manteve pelo restante da partida a vantagem, com uma sólida consistência defensiva. Ao final da partida, com o triunfo da seleção irlandesa por 1 x 0, a batalha pela alma imigrante de New York foi vencida pelos irlandeses.


Dino Baggio (com a camisa branca italiana) e Denis Irwin (com a camisa verde irlandesa): na cancha do Giants Stadium durante a batalha pela alma imigrante de New York.
Dino Baggio (com a camisa branca italiana) e Denis Irwin (com a camisa verde irlandesa): na cancha do Giants Stadium durante a batalha pela alma imigrante de New York.

Na Copa do Mundo de 1994, a seleção italiana avançou até a final, encontrando a seleção brasileira, a qual, com um futebol competente, mas sem tanto brilho, acabou vencendo – em uma disputa de pênaltis – a partida, que terminou empatada em 0 x 0, e levantando seu quarto título mundial, encerrando um longo período sem conquistas (ao longo dos Mundiais de 1974, 1978, 1982, 1986 e 1990). Quanto à seleção irlandesa, o time caiu desclassificado, nas oitavas de final, derrotado pela seleção holandesa, por 2 x 0.


O Grupo E daquela Copa do Mundo de 1994 tinha a seleção italiana, como cabeça de chave, acompanhada pelas seleções, irlandesa, mexicana e norueguesa. É irresistível pensar no quanto o sorteio desse grupo foi significativo, do ponto de vista histórico, ao colocar a seleção irlandesa no caminho da seleção italiana, em uma partida – de abertura do grupo – jogada na região da cidade de New York. Talvez seja tentador especular sobre algum tipo de “direcionamento” do sorteio, mas é certo que especulações raramente podem ser comprovadas.


Um texto, em página oficial da FIFA, traz uma observação interessante sobre eventos ocorridos depois da partida:

“Após a partida, os torcedores irlandeses foram em massa comemorar o triunfo justamente no Little Italy – o bairro de Manhattan conhecido por sua população de ascendência italiana. Lá, os donos de bares e restaurantes italianos serviram graciosamente os eufóricos irlandeses que festejavam madrugada adentro” (FIFA, [s.d.]).

Assim, entre ressentimentos, desavenças, preconceitos e, posterior e gradativa aceitação mútua, italianos, irlandeses e descendentes escreveram uma História, na cidade de New York, marcada pelos dramas da imigração e da formação de comunidades nacionais; e essa História também foi a campo, na cancha do Giants Stadium, naquele 18 de junho de 1994.


Referências:


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CARLETTI, Anna. Ascensão e queda dos Estados Pontifícios. [s.d.]. Disponível em: https://www.ufrgs.br/nerint/folder/artigos/artigo1082.pdf.

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DUGGAN, Christopher. História concisa da Itália. [s.l.: s.n.], [s.d.].

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FIFA. Estados Unidos 1994: jogos memoráveis no Giants Stadium. [s.d.]. Disponível em: https://www.fifa.com/pt/tournaments/mens/worldcup/canadamexicousa2026/articles/estados-unidos-1994-jogos-memoraveis-giants-stadium.

GEHRINGER, Max. A grande história dos mundiais: 1986, 1990, 1994, 1998. [s.l.: s.n.], [s.d.].

HANNAN, James. An Unlikely Union: The Love-Hate Story of New York’s Irish and Italians. Commonweal, 25 jun. 2015. Disponível em: https://www.commonwealmagazine.org/unlikely-union.

KARNAL, Leandro; PURDY, Sean; FERNANDES, Luiz Estevam; MORAIS, Marcus Vinícius de. História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI. São Paulo: Contexto, 2011.

KLEIN, Herbert S. Migração internacional na história das Américas. In: FAUSTO, Boris (org.). Fazer a América: a imigração em massa para a América Latina. São Paulo: EDUSP, 2000.

METRI, Mauricio. As relações anglo-irlandesas em perspectiva histórico-geográfica. Revista da Escola de Guerra Naval, v. 23, n. 1, p. 45-68, jan./abr. 2017. Disponível em: https://www.portaldeperiodicos.marinha.mil.br/index.php/revistadaegn/article/view/4495.

MOSES, Paul. An Unlikely Union: The Love-Hate Story of New York’s Irish and Italians. New York: New York University Press, 2015.

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MOSES, Paul. The Irish-Italian Divide and How the Enemies Made Peace. i-Italy, 2015. Disponível em: https://www.iitaly.org/magazine/focus/facts-stories/article/irish-italian-divide-how-enemies-make-peace.

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VULLIAMY, Ed. Italy versus Ireland: The battle for New York’s immigrant soul. The Observer, 12 jun. 1994. Disponível em: https://www.theguardian.com/observer/irelandfootball/story/0,,587033,00.html.

    



Este texto é um capítulo da terceira edição do livro “Futebol & Copas – Uma aula de História”, lançado em três edições, entre 2019 e 2026. O livro busca ser um meio de aproximação de estudantes e interessados com temas estudados na História ensinada, tendo o futebol como um contexto nessa aproximação.


* Escritor, Pesquisador e Professor. Licenciado e Bacharel em História pela Universidade de São Paulo (USP).

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