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SERTÃO: COMO UM OUTRO, ESTRANHO, TERRA DE NINGUÉM

Atualizado: 29 de fev.



Por Audi Roberto Rodrigues *


O sertão vem sendo estudado, desmembrado, desmistificado e relido pela historiografia de nossos tempos. O sertão do vida e morte Severina, do cabra marcado pra morrer, o sertão “das muier séria e dos homes trabalhador” (Durval Muniz). Esse espaço de singularidades e de produção de sujeitos, afetos e afecção. O sertão de Euclides, que denominava como ser o sertanejo acima de tudo um forte, que entre trincheiras e seca se sobressai como aquele outro que é produto do indiferente, do místico, do sujo, do feio e do pobre. O sertão como terra de ninguém, com partida com desejo de volta, como nos enfatiza Durval Muniz.


O sertão que se desencaixa, se adequa, se remodela na poesia e na arte de Ariano Suassuna. O sertão que não se dá por satisfeito, que está em todos e todas: a gente sai do sertão, mas o sertão permanece vivo em nossos corpos e carnes. O sertão que historicamente foi sempre lido e interpretado como o indiferente, o afastado, o lugar onde a civilização e a modernidade não chegaram. Sendo uma palavra, um conceito, que simbolicamente denomina o outro, o atrasado, o artesanal, não o industrial. O sertão do inesperado, da surpresa, da imaginação, da criatividade e da musicalidade de Luiz Gonzaga.


O sertão, como bem indaga Durval, é uma saudade, uma ausência, no tempo e no espaço. O sertão nos chega com sabores, gostos, cheiro, cor, paixões; nos chega como aquele que dentro de nossos corpos produz o que é de mais belo e fortuito. O sertão é produção de mitos, de feiras, de cultos, de procissão e de fé. Nosso sertão é também uma fala, um jeito, uma dança, um forró, uma sanfona que passa a noite inteira animando e fazendo a festa de todos que procuram. Tomamos assim.


Por fim, o sertão como parte dos corpos e das carnes de todos aqueles que dele fazem parte. Como sendo o inenarrável, o indescritível, aquele que por mais que tentemos definir, não se define, pois é no sertão que ao mesmo tempo nos encontramos e nos perdemos por dentro de suas bordas e seus limites. O sertão é poema e poesia para aqueles que procuram.


Referências:


ALBUQUERQUE, Durval Muniz de. Escavando o oco do sentido ou o que significa sertão? Disponível em: < https://artebrasileiros.com.br >. Acessado em: 25 de fevereiro de 2024.

CUNHA, Euclydes da. Os sertões. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2019.

COUTINHO, Eduardo. Cabra marcado pra morrer. In: Lua Nova: Revista de Cultura e Política, v. 1, p. 70-74, 1984.



* Pesquisador do Núcleo de História e linguagem contemporânea. Graduado em Historia pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB).

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