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SE NÃO TENS CERTEZA SE CONHECE A HISTÓRIA DO SEU PAÍS, NÃO CELEBRE GOLPES COMO O DE 1964

Atualizado: 17 de dez. de 2023



Por Alexandre Gossn*


As pessoas não celebram o golpe de Getúlio Vargas que iniciou a ditadura do Estado Novo em 1937. Por que deveriam então celebrar o golpe de 1964 no governo João Goulart?


Nas duas rupturas, assistimos incautos caírem no mesmo engodo: o fantasma do COMUNISMO. Para implantar a ditadura de Getúlio Vargas (a mesma que enviou uma mulher grávida para os campos de concentração nazistas), os militares FABRICARAM falsas evidências de um suposto golpe comunista. Como?


Criaram o Plano Cohen, que em resumo era um dossiê mais fajuto que o bronzeado de Donald Trump, que afirmava que comunistas preparavam a tomada do poder.


Imagem 01: Jornal noticiando o falso plano Cohen em 1937


De posse do dossiê fajuto, Vargas e as forças armadas trituraram adversários e iniciaram uma ditadura tão brutal que esfacelava inimigos à esquerda e à direita para que ninguém tivesse dúvidas de que aquele era um regime de exceção. E em 1964?


As acusações fantasiosas se repetiram. Desde que Jango teria ligações com o regime chinês de Mão Tsé Tung, passando por conexões subversivas com a URSS, assim como que existiam planos para a implementação de uma reforma agrária que extinguiria a propriedade privada. Novas mentiras velhas.


O golpe militar brasileiro em 1964, na verdade, ocorreu de forma similar ao primeiro dos golpes patrocinados pela CIA nos anos 1950 a 1970, que foi o golpe da Guatemala, ocorrido em 1954.


Nenhum golpe desta era se deu por um único motivo: os motivos iam desde um determinado governo estar patrocinando interesses destoantes dos interesses do governo dos EUA ou de importantes ramos comerciais norte-americanos até governos ("hostis") independentes demais ou entreguistas de menos.


No fundo, todos os golpes praticados na América Latina (e com o Brasil não foi diferente) professavam os ecos da doutrina Monroe ("A América para os Americanos"), porém, mais de um século depois do presidente James Monroe a ter expressado.


Mas o golpe de 1964 não foi apenas uma violação flagrante de soberania nacional: foi mais que isso, a destruição de uma democracia que tentava prosperar e espraiar direitos para mais brasileiros.


Embora os números oficiais falem em centenas, pesquisadores sérios estimam em milhares os torturados, feridos, desaparecidos e mortos pelo próprio regime que deveria os proteger.


E por que há quem ainda celebre o golpe de 64? Especialmente porque houve ANISTIA. A anistia promoveu o ESQUECIMENTO e a ideia de que DOIS LADOS IGUAIS digladiaram com todas as armas disponíveis e depois chegaram a um acordo, um consenso. Nada mais longe da verdade.


A ditadura militar brasileira não acabou porque quis ou desistiu: acabou porque ficou sem condições de se manter no poder, mas, como um zumbi parasitando a nação, manteve seus tentáculos sobre nós até o último segundo que pôde, tutelando até mesmo parte dos trabalhos da Assembleia Constituinte que nos legou a nossa atual Constituição.


A ditadura não ceifou apenas vidas e sonhos, mas logrou extinguir até mesmo o nosso direito de punir os culpados pelos bárbaros crimes que cometeram, pelos estupros, cemitérios clandestinos e valas e valas que jamais saberemos que existem.


A ditadura tenta até hoje nos roubar o direito de conhecer nosso próprio passado e, assim, entendermos quem fomos, quem somos e como ficamos assim.



* Pesquisador e Doutorando em Ciências Sociais junto ao Instituto de Investigação Interdisciplinar da Universidade de Coimbra, com ênfase em Filosofia Política e Autoritarismos Contemporâneos. Escritor, Mestre em Direito Ambiental e Advogado.

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