top of page

QUANDO UM GESTO NÃO É APENAS UM GESTO

Por Georgino Jorge de Souza Neto*


O futebol costuma ser chamado de linguagem universal. Justamente por isso, seus símbolos nunca são neutros.


O gesto feito pelo supervisor do VAR na partida entre Alemanha e Curaçao talvez tenha sido apenas um equívoco. Talvez não. É exatamente por isso que a investigação da FIFA é necessária: porque, em um evento que reúne bilhões de pessoas e representa dezenas de povos, não existe espaço para ambiguidades quando o assunto é racismo.


Tem quem diga que se trata apenas do tradicional sinal de "OK". É verdade. Esse gesto existia muito antes de ser sequestrado pela extrema direita. Mas também é verdade que movimentos supremacistas aprenderam, ao longo dos últimos anos, a comunicar seu ódio por meio de códigos discretos, sinais aparentemente inocentes, mensagens cifradas capazes de oferecer aos seus pares um reconhecimento silencioso enquanto preservam uma conveniente possibilidade de negar tudo depois.


É justamente esse o mecanismo dos chamados "apitos de cachorro": mensagens que parecem banais para a maioria das pessoas, mas carregam significados perfeitamente compreensíveis para um grupo específico.


Por isso, a discussão não deve ser conduzida nem pelo tribunal das redes sociais nem pela absolvição automática. Deve ser conduzida pela investigação séria, pela produção de provas e pela responsabilidade institucional.


O combate ao racismo não se faz apenas punindo culpados. Faz-se também impedindo que símbolos de ódio encontrem abrigo na normalidade.


Se foi um gesto inocente, a investigação demonstrará isso. Se não foi, a punição precisa ser exemplar.


O futebol pertence à humanidade inteira e nenhuma ideologia fundada na superioridade racial pode encontrar nele qualquer espaço de legitimidade.





* Escritor e Pesquisador. Doutor em Sociologia Política (UFSC), Mestre em Sociologia (UFPR) e Graduado em Ciências Sociais (UFPR). Sociólogo da Universidade Federal do Paraná.

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação

© 2018, Instituto Parajás (@institutoparajas)

 

Revista Parajás (@revistaparajas) - ISSN: 2595-5985

Revista Colirium (@revistacolirium) - ISSN: 3085-6655

Revista Zeitgeist (@revistazeitgeist) - ISSN: 2316-7246

Revista IBEFAT (@revistaibefat)

  • YouTube - círculo cinza
  • Facebook - círculo cinza
  • Instagram - Cinza Círculo
  • Spotify
bottom of page