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PESQUISADOR, NÃO SE LIMITE AO SEU DIPLOMA OU AO SEU CARGO

Atualizado: 17 de dez. de 2023




Por Ricardo Cortez Lopes*


É muito comum você ver por aí histórias de superação de pessoas que, após todas as dificuldades, conseguiram conquistar o seu tão aguardado diploma. Muitas vezes são histórias muito bonitas e inspiradoras. Porém, para um pesquisador, o título não deve ser o auge de sua vida, ele é o começo. Ou melhor: é uma oportunidade que você teve de estudar e desenvolver uma pesquisa acompanhado de professores, colegas, orientação, etc, em uma primeira experiência supervisionada. Mas isso é só o começo, o pesquisador se faz na sua trajetória.


Não pretendo aqui negar o valor de um diploma de graduação, mestrado ou doutorado. Com efeito, é dificílimo manter-se compenetrado por muitos anos, trabalhar em paralelo, segurar a ansiedade, ouvir críticas pesadas (muitas vezes injustas). Mas você não deve confundir uma conquista de vida com uma conquista de contribuição para a sua área, para a ciência. E sim, a vida acadêmica é uma coisa, agora sua trajetória “epistemológica” (digamos assim), enquanto pesquisa, é outra. Também não estou dizendo que uma exclui a outra: um sucesso acadêmico pode sim ser acompanhado por contribuições, veja o Pierre Bourdieu. O meu problema começa quando uma pessoa confunde ambos e acaba construindo um castelo para si mesmo.


Que tal começarmos com definições? A vida acadêmica é a que ocorre dentro da academia, do ambiente universitário ou para o seu público-alvo. Nela você vai ocupar funções em organizações ou produzir artefatos que servem para comunicar com seus pares. Assim, um indivíduo começar com uma Iniciação Científica, depois se tornar Mestre e, posteriormente, Doutor, e também Professor, por exemplo, é uma vida (trajetória) acadêmica. Não é o único tipo, mas é um tipo também.


Já a vida intelectual, apesar de poder ser viabilizada pela vida acadêmica, não se reduz a ela, e nem é dependente dela. A vida intelectual começa quando você produz e publica conhecimento, porque é nesse momento que você vai ser submetido à visão dos pares e suas ideias vão circular. Aqui você formula leituras, releituras, conceitos, teorias, etc. No Brasil poderíamos utilizar o exemplo da série “Os Pensadores”: os livros lá são focados nos intelectuais enquanto eles mesmos. Portanto, essa vida intelectual é algo intangível, mesmo que as ideias estejam impressas, ainda é preciso uma repercussão.


Portanto, o que você descobre enquanto dados ou o que você desenvolve enquanto ferramenta teórica ou tecnologia são as suas “conquistas” intelectuais, são aquilo que vai ultrapassar sua existência física – mesmo depois de morrer, outros pesquisadores vão ecoar suas ideias. Vamos ficar num exemplo bem concreto: o Jovem Marx e o Velho Marx. Você, ao ler as obras de Karl Marx, pode encontrar mudanças de ideias, fases, etc. Você encontra conceitos, como o de trabalho, práxis, etc, existe muita riqueza nessa obra. É possível comparar obras, análises, enfim.


Portanto, quando alguém se acha melhor ou mais esclarecido do que outras pessoas menos graduadas por causa do diploma, para mim é um erro. Quando esse mesmo tenta utilizar um argumento de autoridade para encerrar um debate (que, na verdade, ele deveria estar incentivando por ter um conhecimento amplo), para mim é um erro também. Sim, você tem um conhecimento bem aprofundado, mas não é raro que um pesquisador discorde de suas análises um tempo depois porque… seguiu suas pesquisas, tomou contato com outras ideias, etc. Ou seja, se nem mesmo você concorda com você, por que ser arrogante com não-especialistas?


Mas não é só o diploma que pode o desviar (mesmo que não completamente) dessa vida intelectual, pois um cargo também pode criar esse tipo de autoengano. Sim, para chegar ao cargo houve todo o empenho e todo o esforço, porém ele também é uma oportunidade para você desenvolver sua vida intelectual, pois você, provavelmente, não vai precisar de outro emprego, vai ter verba para desenvolver pesquisas, vai ter uma equipe de orientandos, grupo de pesquisa, etc. Porém, se não houver a vontade do pesquisador, esses recursos todos podem resultar em investigações inférteis e circulares.


Porém, retomando o mesmo exemplo, quando você observa a vida acadêmica de Marx, talvez ela não seja tão pujante quanto as suas obras. Interessante, sim, mas não tão cheia de cargos na área da educação. Ele tirou o diploma dele e trabalhou como jornalista, viajando por vários países do mundo (expulso da maioria deles). Onde estão as cátedras? Onde estão as bolsas? Onde estão os sanduíches? Isso tudo não é lembrado diante da influência intelectual e política. Outro exemplo: Max Weber era diplomata, mas quem lembra disso? O que nos vem à mente são os tipos ideais, a teoria dele sobre o capitalismo, etc.


O que quero dizer é que a vida intelectual do pesquisador se faz com as chamadas “horas bunda”: é o dedicar da vida à atividade, lendo, investigando, escrevendo e, principalmente, botando a cara a tapa. Você até pode ser pago para ser pesquisador ou ter um passado como pesquisador, mas isso não faz de você um pesquisador em exercício e que está, atualmente, construindo sua trajetória intelectual.


Mas não me entendam errado, não estou falando que o pesquisador é a profissão mais elevada que existe na sociedade, porque não é – cumpre uma função, é certo, e já falei disso em outros textos. Só estou dizendo para pesquisadores construírem a trajetória com cuidado, tendo foco no conhecimento, e isso não vai acontecer se tivermos olhos exclusivamente no papel do diploma ou no cargo. Para mim, estes são meios, e não fins.


Você concorda com a minha leitura? Ou você acredita que é melhor pensar em cargo porque não há garantias de que você venha a se tornar um pesquisador? Vamos trocar uma ideia?



* Escritor e Pesquisador. Doutor, Mestre e Graduado em Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

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