O WHATSAPP É O MAIOR MAL DA HUMANIDADE
- Georgino Jorge de Souza Neto

- 20 de jun.
- 4 min de leitura
Por Georgino Jorge de Souza Neto*
O WhatsApp é o maior mal da humanidade (e não estou exagerando). Desconfio que o mundo caminhava relativamente bem até inventar o WhatsApp. É verdade que já havia guerras, pestes, fome, ditaduras, bombas atômicas e gente colocando uva-passa no arroz. Mas tudo isso, visto hoje em perspectiva histórica, parece um ensaio para o verdadeiro apocalipse.
O problema do WhatsApp é que ele democratizou o acesso à opinião. Antes, para alguém dizer uma grande bobagem, era preciso escrever um livro, fundar um partido ou, no mínimo, comprar meia hora na televisão. Hoje basta acordar às seis da manhã, encontrar uma imagem de um sol sorridente e escrever:
"Bom dia! Deus abençoe! Compartilhe com 37 pessoas ou sua geladeira queimará até as 18h."
E compartilham!!
O WhatsApp transformou todos nós em uma mistura improvável de filósofo, jornalista, epidemiologista, economista, constitucionalista, técnico de futebol e especialista em geopolítica. Tudo isso antes do café.
A internet prometia aproximar as pessoas, e conseguiu. Aproximou tanto que agora sabemos exatamente quem é o tio que acredita que a Terra é plana, a prima que combate vacinas com receitas de chá de boldo, o vizinho que descobre um golpe de Estado toda terça-feira e o amigo que envia vídeos de oito minutos apenas para dizer que o pão francês vai acabar porque os chineses compraram uma mina de fermento na Patagônia.
O áudio, então, merece um capítulo próprio na história das tragédias humanas. Parece existir um tipo de cidadão que considera ofensivo escrever. Ele envia um áudio de nove minutos para comunicar que chegará cinco minutos atrasado. Começa sempre assim:
— Rapaz... deixa eu te explicar uma coisa...
E explica. Explica o trânsito, a infância, o clima, a inflação, o alinhamento de Saturno com Mercúrio, o cachorro da vizinha e, depois de oito minutos e cinquenta segundos, informa:
— Tô chegando.
Outro fenômeno curioso é o duplo tique azul. Nunca um símbolo tão pequeno destruiu tantos relacionamentos.
Você visualizou e não respondeu.
Pronto, já nasce uma crise diplomática. A pessoa passa a interpretar o silêncio como quem analisa os Manuscritos do Mar Morto.
"Ele respondeu minha mensagem anterior em dois minutos. Agora já fazem cinquenta e três. Será que morreu? Será que está bravo? Será que encontrou alguém? Será que está digitando uma tese?"
Não!! Às vezes ele só estava tomando banho. Ou vivendo, o que, convenhamos, tornou-se uma atividade secundária desde que inventaram o aplicativo.
Mas o pior são os grupos. Ah, os grupos... Existe grupo da família, do trabalho, da escola, da faculdade, da rua, do prédio, da academia, da pelada de quinta, da pelada de sexta, da pelada que nunca acontece, do aniversário surpresa, do churrasco cancelado, do outro grupo criado porque brigaram no primeiro grupo. Eu mesmo fui conferir, antes de escrever esta crônica, e descobri, estupefato, que estou em 104 grupos (entre ativos e inativos).
Se Freud tivesse conhecido um grupo de condomínio no WhatsApp, teria abandonado a psicanálise para vender água de coco na praia. É menos estressante.
Outro detalhe fascinante é que ninguém mais consegue simplesmente desaparecer. Antigamente, você não atendia ao telefone e pronto. Hoje há confirmação de entrega e confirmação de leitura. Agora não dá nem pra mentir com dignidade.
"Online". "Digitando...". O aplicativo acompanha sua vida com a dedicação de um detetive particular emocionalmente abalado. Você deixa de responder por meia hora e já recebe:
— Tá tudo bem?
Cinco minutos depois:
— ???
Mais dez minutos:
— Vi que você visualizou.
Mais quinze:
— Se eu fiz alguma coisa, pode falar.
No fim da noite, você está pedindo desculpas por ter ido ao supermercado.
O WhatsApp também matou uma arte secular: a saudade. Ninguém sente falta de ninguém. A pessoa manda foto do café, do almoço, da fila do banco, do pneu furado, da consulta médica, da unha feita, da chuva na janela, do cachorro dormindo, do cachorro acordando, do cachorro olhando para a parede. Quando finalmente se encontram pessoalmente, resta apenas um constrangimento monumental.
— E aí, novidades?
Nenhuma, oras!! Você já acompanhou tudo em tempo real.
Andam dizendo por aí que o maior problema do século XXI é a inteligência artificial. Não creio. A inteligência artificial ainda pede licença. O WhatsApp, não. Ele invade reuniões, interrompe jantares, destrói casamentos, fabrica especialistas, promove guerras familiares e faz pessoas acreditarem que um vídeo sem autoria é mais confiável do que vinte anos de pesquisa científica.
Se Dante escrevesse hoje A Divina Comédia, provavelmente reservaria um círculo inteiro do Inferno para quem envia corrente, outro para quem responde "ok" com áudio de três minutos e um terceiro, ainda mais profundo, para quem cria um grupo e escreve:
"Pessoal, sem mensagens desnecessárias."
Cinco minutos depois envia cinquenta e oito figurinhas de bom dia.
O curioso é que todos nós reclamamos do WhatsApp, mas basta o celular vibrar e corremos para olhar. Essa é a maior vitória do aplicativo. Ele conseguiu convencer bilhões de pessoas de que a próxima notificação pode mudar suas vidas. Quase nunca muda. Na maioria das vezes, é apenas alguém perguntando:
"Bom dia! Quem vai querer participar da vaquinha para comprar um presente de casamento para o primo?"
Provavelmente, um primo que você nem sabia que existia...
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* Escritor Profissional e Pesquisador. Doutor e Mestre em Estudos do Lazer pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Graduado em Educação
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