O QUE PUTIN REALMENTE QUER COM A INVASÃO DA UCRÂNIA?

Atualizado: 28 de jul.




Por Alexandre Gossn*


Amigos e leitores: limitados pelas informações que temos, premidos pela desinformação que ambos os contendores produzem em uma guerra – e preso nos meus limites epistemológicos, nos meus vieses e preconceitos –, tentarei esboçar as razões que realmente motivam a invasão russa. Óbvio que o texto não está “passando pano” ou justificando as atrocidades de Putin, mas apenas tentando entender os motivos subjacentes, aqueles não ditos. Claro que posso estar parcial ou totalmente equivocado, pois a História e a Verdade precisam de tempo.


De qualquer forma, vamos lá.


Ponto 01 – ENERGIA: Parte do gás russo fornecido à Europa atravessa a Ucrânia por gasodutos, sendo que os ucranianos também consomem este gás. Quando o governo ucraniano é um aliado, tudo segue bem, mas um adversário pode impor dificuldades. Não raramente a Ucrânia é inadimplente neste consumo e a Rússia costuma ser flexível na cobrança destas dívidas, mas a possibilidade de ser chantageada, por exemplo, com bloqueio do fornecimento dentro do território ucraniano é uma constante. Solução para isso segundo Putin: ter um governo em Kiev que seja alinhado ou preferencialmente um vassalo seu.


Ponto 02 – ENERGIA E INFLUÊNCIA: Os EUA descobriram recentemente enormes reservas de gás e hoje podem fornecer mais gás que a própria Rússia. Obviamente, os americanos são contra o novo gasoduto que vai direto da Rússia para a Alemanha (construído justamente para os russos evitarem as chantagens de Kiev), e têm enorme interesse em influenciar a Ucrânia para impor dificuldades aos russos. Uma prova disso é a chamada guerra híbrida, começada em 2013/2014, pois existem evidências que o Departamento de Estado dos EUA financiou e insuflou o Euromaidan para derrubar o governo ucraniano que era alinhado a Moscou.


Ponto 03 – PROTEÇÃO TERRITORIAL: Claro que a Ucrânia é soberana e deveria poder decidir entrar ou não na Otan, mas a contínua expansão desta organização, engolindo quase todos os países que pertenceram ao Tratado de Varsóvia (a Otan da ex-URSS) colocou pressão sobre os russos, pois quase todos seus vizinhos têm hoje mísseis apontados para Moscou.


Ponto 04 – RECOLOCAÇÃO E PRESTÍGIO: Putin considera que a UE e os EUA não tratam a Rússia com o merecido prestígio, aquilatando o poderio bélico e econômico russo segundo a métrica do final dos anos 90, quando a Rússia estava quebrada. Como para Putin, a UE e os EUA não lhe ouviram diplomaticamente, uma demonstração cabal de força colocaria novas cartas na mesa, e pelo medo e tamanho do porrete (arsenal militar), Putin mostraria aos europeus e americanos que ele deve passar a ser considerado. A medida também cria ruído entre EUA e UE, pois tende a gerar uma corrida armamentista no território europeu decorrente do medo de cada nação se tornar a próxima Ucrânia, o que desagrada o mundo inteiro, e, notadamente, os EUA.


Ponto 05 – TRADIÇÃO IMPERIALISTA E PERSONALISTA: A Rússia sempre foi imperialista, seja no período monárquico, comunista ou (o agora) capitalista. Mas para além da tradição russa, existe o projeto pessoal de Putin, que sempre foi belicista e ganhou prestígio internamente de forma a se consolidar no poder justamente massacrando e sufocando a rebelião dos tchetchenos (e assim ganhou o apoio de Boris Ieltsin), invadindo a Geórgia (e ninguém deu um pio), mantendo domínio de ferro sobre Belarus, Turcomenistão, Cazaquistão e Moldávia.


Ponto 06 – INICIAR ERA MULTIPOLAR: Putin deseja romper a dependência mútua da Rússia com a UE e estreitar laços comerciais, diplomáticos e militares com a China, o que lhe concederá mais liberdade para adotar as medidas que lhe convier e desafiar a supremacia americana que reinou unipolar de 1991 até 2022.


Por fim, eu sei que existem massacres de minorias russas em Donbass desde 2014 e que são atrocidades cometidas por ucranianos; mas, dentro da lógica geopolítica, raramente motivos meramente morais são as causas reais de movimentos bélicos tão amplos e bem arquitetados, o que nos leva a explicações múltiplas e complexas do porquê deste conflito estar acontecendo, sendo que a motivação da invasão russa à Ucrânia passa, em alguma medida, por esses pontos comentados acima.


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* Escritor, Pesquisador, Doutorando em Estudos Contemporâneos pelo Instituto de Investigação Interdisciplinar da Universidade de Coimbra, Mestre em Direito Ambiental pela Universidade Católica de Santos, Urbanista e Advogado.

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