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O OPERÁRIO E O ENGENHEIRO DA PESQUISA



Por Ricardo Cortez Lopes*


Você já deve estar cansado de ler textos que falam dos tipos de orientadores, dos tipos de alunos, dos tipos de professores etc. Alguns deles possuem fundamento científico, outros são crônicas de vivências e outros são engraçados. Esse texto é opinativo sobre perfis de pesquisadores, então segue a segunda tendência. Logo, fique a vontade para contestar as ideias o quanto quiser; é possível até que esse texto mesmo mude de acordo com a intensidade de troca de experiências a internet possibilita esse tipo de edição.


Na minha vida de pesquisador percebi que existem dois tipos de pesquisadores: um é o operário e o outro é o engenheiro. Utilizei aqui uma metáfora da construção civil, mas quero deixar claro aqui que não estou afirmando que o operário está abaixo do engenheiro; estou apenas falando do procedimento adotado por ambos. Afinal, um operário consegue construir uma casa do zero sem o projeto de um engenheiro e grandes obras já eram feitas antigamente antes da invenção formal da engenharia.


Assim, um operário não seria alguém com menos capacidade global do que um engenheiro, mas sim que a sua percepção e suas habilidades são diferentes. Feito esse justo disclaimer, podemos começar traçando os perfis e depois descrevendo a relação entre eles.


O pesquisador-operário é aquele que segue estritamente os ditames da ciência que conhece e que domina, e com isso produz aplicações dela. Ele é um pouco literal nisso (e às vezes um tanto rude) e defende seus princípios com todas suas forças, pois dedica sua vida a isso. Portanto, é o trabalho dos cientistas-operários que produz o grosso da ciência, que permite criar um corpo de textos que conseguem aprofundar objetos e produzir grande quantidade de evidência. Por exemplo, é aquele especialista em Marx que defende a análise marxista e que dá continuidade para o legado do alemão. Falei de Marx, mas poderia ser um pesquisador da teoria das cordas, a ideia é só demonstrar como existe uma certa “militância”.


Ou seja, ele possui grande foco nas evidências e a teoria acaba se tornando algo bem operacional. Assim, o pesquisador-operário está na linha de frente, analisando e produzindo conhecimentos que corroboram alguma teoria, lendo uma realidade que está por ser apreciada pela ciência. Portanto, além da pesquisa, ele é um amante do estudo pelo estudo, ele gosta de se aperfeiçoar para conhecer e executar melhor o seu trabalho e geralmente possui muito orgulho de sua trajetória.


Note, seguindo essa descrição até aqui, que o operário poderia ser até mesmo o sinônimo de cientista. Porém, ainda existe um outro lado da ciência, que é o de estranhar a realidade e a própria ciência (que nem Newton estranhou Aristóteles) e esse é o lado do pesquisador-engenheiro.


Usualmente, engenheiro é quem lida com projetos e com a tecnologia; e ele vai precisar ser criativo muitas vezes com materiais ou com as relações humanas para conseguir concretizar algum projeto, para tirá-lo do papel. Assim, o pesquisador-engenheiro é o que tenta criar novas trilhas, o que é bom e ruim, pois pode dar incrivelmente certo ou tragicamente errado. Não é de se estranhar que 99,9% dos pesquisadores é do perfil operário.


Porém, uma análise rápida da história da ciência mostra que os engenheiros é que construíram os instrumentos teóricos do cientista-operário de agora e pagaram o preço em suas respectivas épocas por serem contestadores. Afinal, é claro que essas dificuldades de trajetória não se tornam historiografia; então não temos como dar um suporte empírico para essa formulação, mas intelectuais como Marx, Bourdieu, Foucault, Taylor (o filósofo canadense) com certeza foram ridicularizados nos seus respectivos tempos por seus pares. No entanto, acabaram triunfando, como mostram nossas citações.


Uma dedução possível é a trajetória de Pierre Bourdieu. Na década de 1960, ele era contra-sistêmico e não era um marxista. Mesmo sendo da corrente crítica, ele não deve ter sido perdoado em um contexto de Guerra Fria, onde os lados estavam bem delimitados. Sabemos das contestações dele por parte de Boltanski, por exemplo; na época em que ele aparecia no Rádio deve ter escutado de muitos pares e de militantes políticos que ele estava participando de redes comunicacionais da burguesia.


Não quer dizer que só de contestação vive o engenheiro. Ele pode, de fato, ser continuador de um autor ou tradição, por exemplo, mas sua interpretação será bastante questionada por outros engenheiros e mais especificamente pelos operários, pois estes são especializados em seus respectivos assuntos. Ele pode, até mesmo, ser acusado de imperícia por operários, enquanto outros engenheiros vão discordar de maneira mais branda. Assim, não quer dizer que ele não goste de estudar é óbvio que gosta —, mas o engenheiro geralmente se foca em estudar para ter ideias novas, olhar por outros ângulos os mesmos assuntos, e ele muitas vezes fica com vergonha de ideias antigas. É possível, portanto, traçar nele fases, tendências, assuntos, o leque do engenheiro é mais amplo e menos especializado, para o bem e para o mal.

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Mas eu ainda não falei como é a relação entre esses dois. São dois pontos de contato que vou dizer, que é o da pesquisa em si e o do trabalho.


Quanto à atividade de pesquisa, o pesquisador-engenheiro é aquele que acaba dialogando com os pilares da sua ciência, colocando-os em movimento, e não focando exclusivamente na sua aplicação. Isso o faz ter um olhar mais amplo para novas possibilidades, produzindo digressão. Essa digressão parece uma perda de tempo total para o pesquisador-operário, pois já existe um conhecimento pronto para uso. Por isso, operários não costumam sofrer críticas estruturais em sua obra, pois existe coerência em sua obra que vem de um referencial já consolidado. No entanto, o seu limite é a própria teoria a qual adere, aspecto que também o blinda de criticas mais profundas no máximo uma correção de metodologia aqui e ali.


Quanto à questão trabalhista, se o engenheiro é o que pode entrar para a história, 99,9% dos pesquisadores são do perfil operário. Logo, os postos de trabalho estarão com o perfil voltado para o operário, direcionados mais para o gosto pelo estudo do que para a criação o que é muito favorável em concursos públicos e suas provas, por exemplo. Nesse sentido, é muito difícil a relação de equipe, na medida em que o engenheiro deseja arriscar, para alcançar resultados mais significativos ou disruptivos, enquanto o operário não quer aparecer negativamente caso a empreitada (trocadilho não intencional) dê errado. Assim, o que pode acontecer também é um operário adquirir algum grau de inveja dessa liberdade do engenheiro, dessa possibilidade de entrar para a história, porém o engenheiro também inveja a estabilidade do operário.

O que achou dessa tipologia? Se identificou com algum deles? Quer elencar mais perfis? O espaço é nosso!



* Escritor e Pesquisador. Doutor, Mestre e Graduado em Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

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