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O LAÇO VERMELHO NO OLIMPO: EMÍLIA, ATENA E A GUERRA DAS REPRESENTAÇÕES

Por Ricardo Cortez Lopes*


Era uma tarde dessas em que o vento parece mexer ideias, não folhas, no Sítio do Picapau Amarelo.

No terreiro, Emília estava com o cenho franzido — o que, nela, significava revolução iminente.

— Narizinho! — gritou a boneca. — Descobri que existe uma deusa que manda na sabedoria! Um monopólio intelectual! Um escândalo olímpico! E ainda é a deusa da Represontologia, aquela ciência simpática que falou o quanto sou maravilhosa.

— Que deusa, Emília? — perguntou Narizinho, largando o livro.
— Atena, ora bolas! Vive lá no tal do Olimpo, de capacete e tudo, achando-se dona da inteligência universal. Pois vou destroná-la, eu sou o símbolo da represontologia. Já passou da hora de modernizar a mitologia!

Pedrinho arregalou os olhos:

— Mas como você vai fazer isso?

Emília subiu numa lata, como se fosse palanque:

— Com representologia, meu caro! Se ela é símbolo da sabedoria, eu serei símbolo da representação da sabedoria! Muito mais sofisticado. Sabedoria é coisa antiga. Representação é coisa que manda até na sabedoria!

Visconde de Sabugosa, que estava medindo formigas com uma régua, suspirou:

— Emília, isso é uma questão ontológica de alta complexidade…
— Alta coisa nenhuma! — interrompeu a boneca. — É marketing mitológico!

E antes que Dona Benta pudesse intervir, Emília já estava rodopiando com a chave do armário mágico (emprestada de histórias vizinhas) e abriu um clarão no ar. Quando deram por si, estavam todos no alto do Monte Olimpo.

Atena apareceu envolta em luz dourada, com olhar firme e uma coruja pousada no ombro.

— Quem ousa perturbar o Olimpo? — perguntou, com voz que parecia eco de biblioteca antiga.

Emília pôs as mãos na cintura.

— Eu, senhora deusa! Emília, marquesa de Rabicó, doutora honoris causa em ideias inventadas e futura padroeira da represontologia!

Atena ergueu uma sobrancelha divina.

— E o que deseja, pequena criatura de pano?
— Derrubar a senhora. Com todo respeito, é claro. Nada pessoal. Apenas simbólico.

Narizinho cochichou:

— Emília!

Mas a boneca já discursava:

— Veja bem: a senhora representa a sabedoria. Mas quem representa a representação? Hein? Quem fiscaliza o símbolo? Quem garante que a sabedoria não está mal representada? Sabedoria e representação não é muita função pra uma deusa só? Veja bem, a senhora nasceu na cabeça de Zeus, que nem uma representação interna e depois se tornou autônoma, tal qual uma representação externa e hoje a senhora mesma produz representações! Mas eu fui pensada por uma criança, costurada com roupas usadas por outras pessoas, adquiri vida e agora tenho aventuras com outras representações. Eu que deveria estar no Brasão, a senhora já é muito ocupada!

Atena pousou a mão no queixo.

— Interessante argumento. Mas eu sou deusa da Guerra também, tenho tempo para mais atribuições.

Visconde pigarreou:

— Trata-se, de fato, de uma metarrepresentação…

— Silêncio, sabugo acadêmico! — disse Emília. — Estou duelando!

Atena então fincou a lança no chão. Do impacto, surgiram imagens: filósofos, guerreiros, bibliotecas, cidades.

— A sabedoria — disse a deusa — não é posse, é prática. Eu a simbolizo porque os humanos precisam de formas para pensar o invisível.

Emília deu uma risadinha:

— Exatamente! Precisam de formas! E quem cria as formas? A representação! Logo, eu — que sou feita de pano e ideias — sou a prova viva de que a forma manda na essência!

A coruja de Atena piscou, confusa.

Pedrinho cochichou:

— Acho que ela está ganhando…

Atena aproximou-se de Emília e, ao invés de fulminá-la com um raio olímpico (o que seria mais coisa de outro deus), fez algo inesperado:

— Se és símbolo da represontologia, prova-o.

Emília estufou o peito.

— Provo como quiser! Debate? Manifesto? Eleição mitológica?

— Transforma-me — disse Atena — em algo que eu não seja, sem que eu deixe de ser quem sou.

Houve silêncio. Até o vento parou para ouvir.

Emília andou em círculos. Pensou. Coçou o nariz de pano. Finalmente, declarou:

— Muito bem! A senhora deixará de ser deusa da sabedoria para ser… personagem! Personagem discutível! Interpretável! Contestável! Assim continuará sendo Atena — mas não mais absoluta. Será representação entre representações!

Atena sorriu pela primeira vez.

— E não é isso que sempre fui?

O Olimpo tremeu levemente — não de queda, mas de compreensão.

Dona Benta então apareceu, com aquela calma que resolve guerras e discussões metafísicas:

— Emília, minha filha, você não derrubou Atena. Apenas mostrou que até os deuses vivem nas histórias que contamos sobre eles.

Emília cruzou os braços.

— Então empatei?
— Empatou — disse Atena. — E isso é o máximo que se pode fazer contra um símbolo: reinterpretá-lo.

A boneca suspirou.

— Está bem. Fica assim: você continua sendo sabedoria. Eu fico sendo a fiscal das representações. E que ninguém ouse ser absoluto perto de mim!

A coruja deu um pio que parecia risada.

E assim voltaram ao Sítio, onde o mundo continuava o mesmo — exceto por um detalhe invisível: no alto do Olimpo, entre os atributos de Atena, havia agora um pequeno laço vermelho de pano.

E dizem que, desde então, toda vez que alguém questiona um símbolo, ouve-se ao longe uma gargalhada travessa.

Que não é de deusa.

É de boneca.





Referências:


LOPES, Ricardo Cortez. Repræsontologia: fundamentos da ciência das representações. São Paulo: UICLAP, 2024.



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