top of page

O CANTO DAS SEREIAS: ENTRE O MITO, A HISTÓRIA E A CIÊNCIA

Por Adriano Gomes*


Há uma expressão popular que diz: “caiu na rede é peixe”, mas nem sempre, no universo fascinante da nossa imaginação, aquilo que capturamos é realmente o que parece — e poucas figuras ilustram isso tão bem quanto a sereia. Desde as épicas navegações de Odisseu, há quase 2800 anos, até os vídeos que surgem diariamente na internet, esse ser metade mulher e metade peixe habita a fronteira entre o mito e a realidade, despertando em nós uma curiosidade que mistura medo, admiração e desejo de acreditar no impossível.

Na narrativa original da Odisseia, o que encontramos é ainda mais surpreendente: as sirenes não eram seres aquáticos, mas sim criaturas com corpo de pássaro e rosto de mulher, cujo canto hipnótico prometia conhecimento infinito e glória, levando os navegantes à ruína. Odisseu, ao se amarrar ao mastro do navio e mandar seus homens tamparem os ouvidos com cera, nos ensina sobre a força da tentação, mas também sobre a capacidade humana de resistir ao que nos pode destruir. Com o tempo, através de um processo de sincretismo cultural e da visão do cristianismo medieval, a imagem da ave deu lugar à cauda de peixe, transformando-se no símbolo de sedução e perdição que conhecemos hoje.

Essa história, no entanto, é muito mais antiga que a Grécia Antiga. Na Mesopotâmia, há cerca de cinco mil anos, a lenda da deusa Atargatis já contava como o amor e uma tragédia transformaram uma divindade em um ser híbrido, habitante das águas. E esse arquétipo se espalhou pelo mundo: temos as misteriosas rusalkas eslavas, as encantadoras e perigosas nix germânicas, as merrows da Irlanda que se misturam aos humanos, as selkies das terras frias, o boto cor-de-rosa da nossa floresta amazônica e o temido ningyo japonês. Em cada canto do planeta, a história ganha cores diferentes, mas mantém a mesma essência: o fascínio pelo desconhecido, o jogo entre atração e perigo que vive no coração de cada um.

Se afastarmos o véu da fantasia e olharmos com lentes científicas, a resposta é clara e direta: sereias não existem do ponto de vista biológico. A natureza não construiria um ser com uma anatomia tão contraditória, unindo sistemas de locomoção que não se complementam, sem estrutura óssea ou metabólica capaz de sustentar a vida marinha profunda. Os mamíferos que vivem nos oceanos evoluíram ao longo de milhões de anos para se adaptar, perdendo membros e desenvolvendo corpos hidrodinâmicos — algo que nunca aconteceu com nenhuma espécie primata. Muitos dos famosos avistamentos, como o de Cristóvão Colombo no Caribe, explicam-se pela fadiga da viagem e pela confusão visual com animais como peixes-boi e leões-marinhos, seres reais que, à distância, podem gerar ilusões em mentes ansiosas por novidades.

Apesar da ciência, a vontade de crer é tão forte que, ao longo da história, surgiram fraudes engenhosas que enganaram multidões. A mais famosa é a “Sereia de Fiji”, uma montagem macabra de partes de animais que percorreu feiras e museus no século XIX, promovida por mestres do entretenimento como P.T. Barnum. Mesmo na era moderna, essa magia de enganar permaneceu: em 2013, o canal Animal Planet exibiu um documentário repleto de ficção que convenceu milhões de espectadores, obrigando até mesmo uma agência governamental americana a emitir uma nota oficial desmentindo tudo.

No fundo, a verdadeira pergunta não é se elas existem na natureza, mas por que elas vivem tão vivas na nossa mente. A sereia é uma metáfora eterna dos nossos desejos, dos nossos medos e da nossa eterna busca por magia em um mundo que muitas vezes é muito prático. Mesmo sabendo que biologicamente é impossível, continuamos a ouvir o seu canto, a admirar a sua beleza na arte e a contar as suas histórias, porque elas nos lembram que a imaginação humana é, em si mesma, uma força tão poderosa quanto qualquer realidade. E você, ainda que sabendo da verdade, consegue resistir ao encanto desse mito que atravessa milênios?





* Escritor, Professor e Pesquisador. Doutor em Psicanálise Clínica (UEG), Mestre em Ciência Política (UFAM) e Graduado em Pedagogia (UNIP), em Filosofia (FAVENI), em Geografia (UEA) e em Ciências Contábeis (UniGrande).

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação

© 2018, Instituto Parajás (@institutoparajas)

 

Revista Parajás (@revistaparajas) - ISSN: 2595-5985

Revista Colirium (@revistacolirium) - ISSN: 3085-6655

Revista Antígona (@antigonarevista) - ISSN:

Revista IBEFAT (@revistaibefat) - ISSN:

  • YouTube - círculo cinza
  • Facebook - círculo cinza
  • Instagram - Cinza Círculo
  • Spotify
bottom of page