"MENINOS, EU VI": A COPA DO MUNDO COMO ESTADO DE ESPÍRITO
- Georgino Jorge de Souza Neto

- 8 de jul.
- 3 min de leitura
Por Georgino Jorge de Souza Neto*
Meninos, eu vi (só quem tem mais de 50 anos vai entender). Mas, sim, eu vi tudo.
A Copa do Mundo ativa em mim um botão de descontrole das minhas próprias escolhas. Começa inocentemente, com um "vou assistir só aos jogos bons", e quando dei por mim estava acompanhando uma partida entre duas seleções cuja população somada talvez não enchesse um bairro de Montes Claros. Sabia o nome do lateral-esquerdo, a média de posse de bola e ainda reclamava da marcação em linha baixa.
A Copa faz essas coisas, transforma adultos funcionalmente úteis em especialistas mundiais de países que jamais apareceriam numa conversa de bar. Hoje sei localizar Cabo Verde mais rapidamente que o bairro onde fica o meu cartório eleitoral.
Assisti a todos os jogos até agora. Aos grandes jogos e aos jogos ruins. Aos jogos tão ruins que acabavam ficando bons justamente porque eram ruins.
E eu vi: vi goleadas e vi retrancas capazes de transformar uma partida em patrimônio histórico da UNESCO. Vi goleiros defendendo o impossível e atacantes perdendo gols que desafiam qualquer teoria da evolução. Vi seleções estreantes jogando sem medo e campeãs do mundo jogando como quem esqueceu o futebol no aeroporto.
Tenho que me valer do velho clichê de que a Copa do Mundo nunca é apenas futebol. Eu a vejo como uma antropologia com chuteiras, uma sociologia em gramado natural ou uma psicanálise transmitida em 4K.
Vi comentaristas discutindo cor de chuteira com a gravidade de quem negocia um tratado de paz. Enquanto isso, um volante de Senegal resolvia o jogo usando chuteiras verdes fluorescentes, provavelmente sem imaginar que estava participando de uma guerra cultural.
Ah, vi torcedores também. Meu Deus, como existem torcedores. De todos os tipos: o sujeito que pinta o corpo inteiro, o que leva tambor, o que leva trombeta, o que leva o filho vestido de mascote e o que leva a sogra porque acredita que ela dá sorte. Existe até quem imite personagens históricos e tem o visto negado pelo xerife do mundo.
A Copa continua provando que a beleza, quando encontra ignorância, produz resultados imprevisíveis.
Vi ainda o VAR, esse filósofo eletrônico que transforma um gol em tese de doutorado. Acho o maior barato: ninguém mais grita imediatamente. Inventaram o gol provisório e a alegria ganhou prazo recursal.
Claro que vi também a eliminação do Brasil. Foi triste, certamente. Uma tristeza provocada menos pela derrota e mais pela sua previsibilidade. Perdemos antes dentro da nossa própria cabeça. Entramos em campo ainda convencidos de que bastava vestir a camisa amarela para o resto do mundo pedir licença. Enquanto isso, africanos, asiáticos e seleções consideradas pequenas resolveram cometer a ousadia de aprender futebol. Que deselegância da parte deles. A geografia do talento mudou de endereço sem pedir autorização à CBF.
E os narradores? Como sobrevivem, do que se alimentam? Narrar cento e quatro jogos exige preparo físico de maratonista e resistência emocional de terapeuta familiar. Depois do octogésimo jogo, qualquer lateral cobrado no meio-campo já parece o desembarque na Normandia. No entanto, eles seguem gritando, são heróis das cordas vocais.
Quanto a mim, continuo firme. Já dominei os horários impossíveis, descobrindo que café também é refeição e conversando sozinho com a televisão. Já xinguei árbitros e critiquei técnicos que jamais ouvirão falar de mim. Fiz promessas, quebrei promessas e jurei que não veria determinado jogo. Mas vi.
Agora falta pouco. Quando a Copa terminar, experimentarei uma estranha sensação de abandono. Durante algumas semanas voltarei a viver uma rotina normal, com as pessoas conversando sobre inflação, trânsito, novelas e política. Eu responderei educadamente, mas, em silêncio, estarei pensando naquele lateral-direito de Cabo Verde que marcou um golaço, naquele goleiro improvável que virou herói nacional por uma tarde, naquela chuteira cor-de-rosa que dividiu opiniões mais do que muitos discursos presidenciais e naquele impedimento de três centímetros que levou cinco minutos para ser desenhado por um computador.
A Copa passa, mas quem assistiu a todos os jogos nunca mais volta completamente ao mundo real. No máximo, volta apenas para esperar a próxima Copa.
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* Escritor Profissional e Pesquisador. Doutor e Mestre em Estudos do Lazer pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Graduado em Educação
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