top of page

HAMNET E O SILÊNCIO DE CHLOÉ ZHAO: QUANDO O MITO DE SHAKESPEARE POUSA NO CHÃO

Por Alexandre Gossn*


Escrevo este ensaio a partir de uma posição de cautela e escuta. Como homem e pesquisador, ao me debruçar sobre uma obra como Hamnet, entendo que meu papel não é o de validar a experiência feminina ali exposta, mas o de testemunhar a força de uma narrativa que nasce, floresce e se sustenta sob o olhar e a escrita de mulheres.


Feita esta importante ressalva. Vamos ao filme...


O filme é um ecossistema de sensibilidade feminina: parte do romance visceral de Maggie O’Farrell, ganha corpo no roteiro coescrito por ela e Chloé Zhao, e encontra sua alma na interpretação de Jessie Buckley. Enquanto Paul Mescal entrega um William Shakespeare humano e vulnerável, fugindo do caricato, fica claro que o centro gravitacional da obra é Agnes. Buckley entrega algo brilhantemente inusual; ela possui um rosto que é, em si, um mapa de silêncios, operando na mesma frequência de quietude que Zhao estabeleceu em seus trabalhos anteriores.


A presença de Chloé Zhao na direção traz uma camada antropológica que o cinema ocidental convencional raramente alcança ao tratar de seus próprios mitos. Zhao é uma voz do Sul Global — uma cineasta chinesa que mantém uma "estranheza" saudável em relação ao cânone europeu. Em Hamnet, ela retira o Bardo do trono de mármore e o faz pisar no barro de Stratford-upon-Avon. O William de Mescal não é o gênio da língua inglesa, mas um homem em formação, cujas ambições artísticas e inseguranças domésticas o tornam profundamente pedestre.


Imagem 01: A diretora Chloe Zhao.
Imagem 01: A diretora Chloe Zhao.

Sem jamais atropelar a fluidez da história, a película consegue lançar luz sobre os atritos sociais da época: a rigidez de uma estrutura onde a irmã depende da autorização do irmão para casar, e o choque entre a cosmovisão de Agnes — conectada à terra e às ervas — e a religiosidade dogmática da sogra, que enxerga qualquer saber ancestral como bruxaria.


Agnes opera no limite, e por vezes além, do que o espaço social permitia a uma mulher no século XVI. É evidente o abismo entre esta Zhao e aquela que foi sufocada pelas engrenagens da Marvel. Se em Eternos sua voz poética parecia lutar contra o ruído visual, em Hamnet e Nomadland ela está em casa. Há um parentesco espiritual entre a jornada de Fern nas terras áridas de Nevada e a vida de Agnes Hathaway na Inglaterra rural.


Em ambos, Zhao precisa de calma e de uma contemplação que não cabe no ritmo frenético do consumo algorítmico. Sua câmera busca a pausa, o respiro entre os diálogos, algo que o cinema de massa contemporâneo parece ter desaprendido a oferecer. O apoio de Agnes é o alicerce silencioso sobre o qual a carreira de William se constrói; sem a força dela, o teatro que conhecemos talvez jamais tivesse existido.


Imagem 02: A atriz Jessie Buckley (impecável como Agnes e uma mulher tentando existir em uma época em que a vida feminina era mero apêndice do marido, pai ou irmão).
Imagem 02: A atriz Jessie Buckley (impecável como Agnes e uma mulher tentando existir em uma época em que a vida feminina era mero apêndice do marido, pai ou irmão).

O filme brilha ao retratar as agonias da época, especialmente nas cenas de partos e no terror da peste, filmadas com uma crueza que nunca resvala para o gratuito. O jovem Aran Murphy, que interpreta Hamnet, entrega uma atuação memorável, equilibrando a fragilidade da infância com o peso simbólico que seu nome carrega para a posteridade. Visualmente, a fotografia evoca a mesma pureza contemplativa que encontramos em trabalhos de Adolfo Veloso ou na atmosfera de Sonhos de Trem…


É uma imagem que convida ao repouso do olhar, uma resistência necessária em uma era de cortes rápidos e estímulos do TikTok.


Sem entregar o desfecho, basta dizer que a cena final é uma aula absoluta de direção e interpretação; um momento em que o cinema se reafirma como arte da síntese, onde o luto e a criação artística se fundem de forma definitiva. Hamnet é, acima de tudo, um sopro de paz para quem ainda busca na tela uma experiência de arte que exige, e merece, a nossa presença inteira.





* Pesquisador e Doutorando em Ciências Sociais junto ao Instituto de Investigação Interdisciplinar da Universidade de Coimbra, com ênfase em Filosofia Política e Autoritarismos Contemporâneos. Escritor, Mestre em Direito Ambiental e Advogado.

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação

© 2018, Instituto Parajás (@institutoparajas)

 

Revista Parajás (@revistaparajas) - ISSN: 2595-5985

Revista Colirium (@revistacolirium) - ISSN: 3085-6655

Revista Antígona (@antigonarevista) - ISSN:

Revista IBEFAT (@revistaibefat) - ISSN:

  • YouTube - círculo cinza
  • Facebook - círculo cinza
  • Instagram - Cinza Círculo
  • Spotify
bottom of page