HAMNET E O SILÊNCIO DE CHLOÉ ZHAO: QUANDO O MITO DE SHAKESPEARE POUSA NO CHÃO
- Alexandre Gossn

- 13 de jul.
- 3 min de leitura
Por Alexandre Gossn*
Escrevo este ensaio a partir de uma posição de cautela e escuta. Como homem e pesquisador, ao me debruçar sobre uma obra como Hamnet, entendo que meu papel não é o de validar a experiência feminina ali exposta, mas o de testemunhar a força de uma narrativa que nasce, floresce e se sustenta sob o olhar e a escrita de mulheres.
Feita esta importante ressalva. Vamos ao filme...
O filme é um ecossistema de sensibilidade feminina: parte do romance visceral de Maggie O’Farrell, ganha corpo no roteiro coescrito por ela e Chloé Zhao, e encontra sua alma na interpretação de Jessie Buckley. Enquanto Paul Mescal entrega um William Shakespeare humano e vulnerável, fugindo do caricato, fica claro que o centro gravitacional da obra é Agnes. Buckley entrega algo brilhantemente inusual; ela possui um rosto que é, em si, um mapa de silêncios, operando na mesma frequência de quietude que Zhao estabeleceu em seus trabalhos anteriores.
A presença de Chloé Zhao na direção traz uma camada antropológica que o cinema ocidental convencional raramente alcança ao tratar de seus próprios mitos. Zhao é uma voz do Sul Global — uma cineasta chinesa que mantém uma "estranheza" saudável em relação ao cânone europeu. Em Hamnet, ela retira o Bardo do trono de mármore e o faz pisar no barro de Stratford-upon-Avon. O William de Mescal não é o gênio da língua inglesa, mas um homem em formação, cujas ambições artísticas e inseguranças domésticas o tornam profundamente pedestre.

Sem jamais atropelar a fluidez da história, a película consegue lançar luz sobre os atritos sociais da época: a rigidez de uma estrutura onde a irmã depende da autorização do irmão para casar, e o choque entre a cosmovisão de Agnes — conectada à terra e às ervas — e a religiosidade dogmática da sogra, que enxerga qualquer saber ancestral como bruxaria.
Agnes opera no limite, e por vezes além, do que o espaço social permitia a uma mulher no século XVI. É evidente o abismo entre esta Zhao e aquela que foi sufocada pelas engrenagens da Marvel. Se em Eternos sua voz poética parecia lutar contra o ruído visual, em Hamnet e Nomadland ela está em casa. Há um parentesco espiritual entre a jornada de Fern nas terras áridas de Nevada e a vida de Agnes Hathaway na Inglaterra rural.
Em ambos, Zhao precisa de calma e de uma contemplação que não cabe no ritmo frenético do consumo algorítmico. Sua câmera busca a pausa, o respiro entre os diálogos, algo que o cinema de massa contemporâneo parece ter desaprendido a oferecer. O apoio de Agnes é o alicerce silencioso sobre o qual a carreira de William se constrói; sem a força dela, o teatro que conhecemos talvez jamais tivesse existido.

O filme brilha ao retratar as agonias da época, especialmente nas cenas de partos e no terror da peste, filmadas com uma crueza que nunca resvala para o gratuito. O jovem Aran Murphy, que interpreta Hamnet, entrega uma atuação memorável, equilibrando a fragilidade da infância com o peso simbólico que seu nome carrega para a posteridade. Visualmente, a fotografia evoca a mesma pureza contemplativa que encontramos em trabalhos de Adolfo Veloso ou na atmosfera de Sonhos de Trem…
É uma imagem que convida ao repouso do olhar, uma resistência necessária em uma era de cortes rápidos e estímulos do TikTok.
Sem entregar o desfecho, basta dizer que a cena final é uma aula absoluta de direção e interpretação; um momento em que o cinema se reafirma como arte da síntese, onde o luto e a criação artística se fundem de forma definitiva. Hamnet é, acima de tudo, um sopro de paz para quem ainda busca na tela uma experiência de arte que exige, e merece, a nossa presença inteira.
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* Pesquisador e Doutorando em Ciências Sociais junto ao Instituto de Investigação Interdisciplinar da Universidade de Coimbra, com ênfase em Filosofia Política e Autoritarismos Contemporâneos. Escritor, Mestre em Direito Ambiental e Advogado.
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