GEOPOLÍTICA DE BOTECO: O AXÉ, A CHUTZPAH E O SACRILÉGIO DO PODER
- Adriano Gomes

- 28 de jul.
- 4 min de leitura
Por Adriano Gomes*
A geopolítica, meus caros, é um palco onde a história se repete, primeiro como tragédia, depois como farsa, e, no nosso caso, como uma comédia de erros com sotaque e um toque de referências culturais profundas.
O cenário que se desenha a partir de certas ambições territoriais é tão hilário quanto assustador, e nos convida a uma reflexão profunda, mas com um copo de caipirinha na mão e um olho no mapa.
Imaginemos a cena: o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, após um sonho particularmente vívido com a glória imperial, acorda em um sobressalto neste início de 2026.
O insight histórico o atinge como um raio de sol em Brasília: "EPA, O URUGUAI ERA NOSSO!" A província Cisplatina, perdida em 1828 após a Guerra da Cisplatina, ressurge na mente do líder como um item esquecido na lista de compras da nação.
A força motriz dessa epifania, esse impulso de reescrever o passado, só pode ser descrita como uma energia irresistível. Os umbandistas usam a palavra Axé para se referir à força sagrada, a energia vital que move o universo.
É esse Axé político que move o Orixá da República a agir. O Uruguai, de repente, deixa de ser um parceiro comercial e passa a ser, na visão do Planalto, um Estado-membro em potencial, com a promessa de um churrasco federal subsidiado.
A reação internacional seria digna de um cartoon político, mas a comparação com a invasão da Ucrânia pela Rússia é inevitável e, infelizmente, pertinente.
A ideia de que um país pode, unilateralmente, invocar um passado distante para justificar uma anexação territorial demonstra uma arrogância geopolítica que transcende ideologias e fronteiras.
O que o Presidente Vladimir Putin fez, ao invocar laços históricos e culturais para justificar a agressão iniciada em 2014 e intensificada em 2022, é um lembrete sombrio de que a história, nas mãos de líderes ambiciosos, pode ser uma arma.
A tentativa de "corrigir" o mapa-múndi à força, de impor uma ordem que só existe na cabeça do agressor, é a antítese de um princípio fundamental.
Os judeus usam a expressão Tikkun Olam para se referir à reparação do mundo, ao esforço para torná-lo um lugar melhor. Em vez de buscar o Tikkun Olam, eles o quebram em pedaços.
Cometer tal violação da soberania alheia é uma profanação da ordem estabelecida. Os católicos usam a palavra Sacrilégio para descrever a profanação de algo sagrado. É um Sacrilégio contra o direito internacional que nem mesmo a mais generosa Indulgência diplomática poderia perdoar.
Avançando para a Península Ibérica, a permanência de certos enclaves coloniais nos leva a uma reflexão sobre a permanência do imperialismo sob novas roupagens.
A Coroa Britânica, sob o reinado de figuras como o Rei George I quando a posse foi formalizada pelo Tratado de Utrecht em 1713, simplesmente olhou para o Rochedo de Gibraltar e disse: "É um bom lugar para ancorar meus navios e tomar um chá. Vou querer para mim."
Essa atitude, a doutrina do "olhei, gostei, vou querer pra mim," é a essência do poder colonial. O Rochedo, nesse contexto, é um verdadeiro Ponto de Força estratégico, um local de poder que atrai a cobiça.
A diferença, no entanto, é que a potência teve uma audácia sem limites. Os judeus usam a palavra Chutzpah para se referir a uma insolência ou descaramento que ultrapassa os limites da decência. É essa Chutzpah de proporções épicas que permite manter essa posse por séculos.
E então chegamos ao Tio Sam, na figura do atual presidente Donald Trump, e seu apetite por imóveis de grande porte. A ideia de comprar a Groenlândia, que ele voltou a defender com fervor em janeiro de 2026, não é apenas uma excentricidade, é a manifestação máxima da mentalidade de que tudo tem um preço.
Trump chegou a sugerir que a ilha é um "pequeno preço pela proteção mundial" e não descartou o uso da força em declarações anteriores, chamando a Dinamarca de "ingrata". Para ele, a geopolítica é um grande negócio imobiliário.
Enquanto a Mishpocheh – termo que os judeus usam para se referir à família ou clã – política do presidente aplaude a jogada, o resto do mundo, os Goyim – termo hebraico para "nações" ou "gentios" – da diplomacia, assistem com horror.
O perigo reside na desconexão com a realidade: a Groenlândia não está à venda, e o Rei Frederico X da Dinamarca, junto a líderes europeus, já sinalizaram que estão prontos para defender o território. A soberania não é um terreno baldio à espera de um corretor audaz.
A ilusão de onipotência de Trump parece ter subido à cabeça após a captura de Nicolás Maduro em Caracas, em 3 de janeiro de 2026, em uma operação militar dos EUA.
No entanto, os planos de Trump para "administrar" a Venezuela após a prisão do ditador já mostram sinais de que deram errado, com a resistência interna e a complexidade da sucessão liderada por Delcy Rodríguez provando que derrubar um governo é mais fácil do que governar um país alheio.
No final das contas, o que conecta esses líderes é a tentação da intocabilidade. Ninguém é intocável. Nem o ex-presidente Barack Obama, nem o ex-presidente Jair Bolsonaro.
O poder é efêmero, e a história tem um senso de humor perverso, sempre pronta para derrubar os que se julgam invencíveis. A Chutzpah dos líderes, essa audácia que os leva a desafiar a lógica e a moralidade em nome do interesse nacional (ou pessoal), é o motor de muitas crises.
Que os pesadelos de feijoada não se concretizem, e que os territórios permaneçam fora do mercado imobiliário. O mapa-múndi não é um rascunho, e a soberania não é uma piada.
Mas rir da Chutzpah dos poderosos, isso sim, é um direito inalienável. Saravá a todos que tentam manter a sanidade. E que o Axé da paz prevaleça sobre o Sacrilégio da guerra.
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* Escritor, Professor e Pesquisador. Doutor em Psicanálise Clínica (UEG), Mestre em Ciência Política (UFAM) e Graduado em Pedagogia (UNIP), em Filosofia (FAVENI), em Geografia (UEA) e em Ciências Contábeis (UniGrande).
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