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ESCREVER É RECORTAR, COSTURAR E ALINHAVAR

NÃO SOMOS BONS ESCRITORES. EIS A MÁXIMA DE NOSSO PROCESSO DE ESCRITA ACADÊMICA...



Por Emanuel Calebe Araújo Silva*


Hoje, o professor Dr. Robson Cruz publicou um texto que me levou a algumas percepções (chamei, em minha página, de insights). Cruz, com a sensibilidade que lhe é própria na escrita, apontou para elementos comparativos entre a prática acadêmica, notadamente a escrita, e trabalhos técnicos como o de mecânico(a) ou costureiro(a). O título do texto (“Ser especial ou fazer bem-feito na vida acadêmica?”) nos conduz a uma reflexão entre dois elementos laborais: o trabalho intelectual (diria eu) e o trabalho técnico.


O trabalho intelectual – apenas para separar do trabalho técnico – é coberto de inseguranças. Somos levados a odiar nossa escrita e forma de comunicação porque os padrões vão de Hannah Arendt a Michel Foucault, de Lewis Morgan a Claude Lévi-Strauss. Partimos de comparações. O perfeccionismo nos trava. Quais palavras eu deveria usar para conduzir o leitor a esta ideia? Deveria eu comunicar pensando no meu leitor ou apenas nas minhas próprias emoções.


Essas reflexões foram intermediadas por Roland Barthes, no seu livro “O Prazer do Texto”. Barthes afirma:

Se leio com prazer esta frase, esta história ou esta palavra, é porque foram escritas no prazer (este prazer não está em contradição com as queixas do escritos). Mas e o contrário? Escrever no prazer me assegura – a mim, escritos – o prazer de meu leitor? De modo algum. Esse leitor, é mister que eu o procure (que o “drague”), sem saber onde ele está. Um espaço de fruição fica então criado (BARTHES, 1987, p. 9).

Nota do editor: a palavra fruição é mais delicada que a ideia original. “Gozo” seria mais indicado para dizer respeito à ideia de Barthes. O espaço para a liberdade criativa está aí encaixado em um vácuo. Precisamos nos deixar livres para reconhecer o nosso prazer enquanto escritores e para absorver o leitor em nosso texto. Um intermédio entre ambos é interessante. Nem tanto poético, nem tanto emotivo, eu afirmaria.


Voltando às reflexões do professor Cruz, o trabalho do mecânico – técnico como é – parece lhe causar muito mais satisfação que o nosso trabalho enquanto escritores. Ora, é o momento (estamos atrasados) de aprender com o trabalho técnico e replicar o modus operandi em nosso labor. As ciências a que servimos, na verdade, nos servem. Em que posso ajudar minha comunidade com esta atividade a que me dedico? Há questões não resolvidas na minha sociedade. Preciso procurar sanar, ao menos aquilo que me toca.


A Antropologia deu-me algumas ferramentas para uma escrita mais prazerosa. Em um texto célebre, Claude Lévi-Strauss aponta para um trabalho que deveríamos, até certo ponto, imitar. O faz-tudo, o quebra-galho ou, em francês, o bricoleur.

E, em nossos dias, o bricoleur é aquele que trabalha com suas mãos, utilizando meios indiretos se comparados com os do artista. Ora, a característica do pensamento mítico é a expressão auxiliada por um repertório cuja composição é heteróclita e que, mesmo sendo extenso, permanece limitado; entretanto, é necessário que o utilize, qualquer que seja a tarefa proposta, pois nada mais tem à mão. Ele se apresenta, assim, como uma espécie de bricolage intelectual, o que explica as relações que se observam entre ambos (LÉVI-STRAUSS, 1989, p. 32).

A atividade do faz-tudo é heteróclita, isto é, não segue um plano de trabalho. Há uma bagunça organizada na oficina do bricoleur. Tudo o que há pela frente tem grandes possibilidades de uso. A cadeira não serve mais apenas para sentar. Agora, ela pode apoiar minha caixa de ferramentas. A chave-teste, usada para identificar o fio fase positivo e negativo, já não tem mais apenas essa função. Agora pode apertar parafusos. A palavra, agora, pode assumir inúmeras possibilidades, inclusive traduzir diferenças culturais.


Queremos causar arrepio na leitura. Queremos nos destacar. Somos, então, levados a descer dos pedestais da profissão acadêmica e nos assentar junto de todos os outros técnicos. Minha avó, quando vai realizar um trabalho de costura, divide a peça em diversas partes que eu, leigo, não saberia o que viria a se tornar. Vou visitá-la. Pego-a costurando. Peço a bênção e pergunto, em seguida: “O que a senhora está costurando?” Então, ela me diz.


O fundamental em nos cercarmos dos aprendizados dos outros ofícios é construir peças pequenas, pequenos textos, pequenas reflexões. É preciso nos cercar de colegas que reflitam conosco. É preciso ser um quebra-galho. Grandes reflexões vêm com o passar do tempo, com as experiências e as coletâneas que empilhamos na biblioteca. Mas também advém dos workshops com os costureiros, cabelereiros, mecânicos...


O prazer da leitura virá, portanto, do prazer da escrita. A escrita retalhada, espalhada pelo escritório ou quarto, é a metáfora que nos encaixa ao trabalho do faz-tudo. Temos espalhados na mente, no computador, no chão, na cama, nas paredes, nossas anotações, pensamentos e ideias bobas. Diria que as ideias bobas são, senão principais, úteis ao texto. Acostumemos com os nossos retalhos e com a necessidade de boas costuras. Nosso ponto de vista não é como um vestido ou calças feitas de tecido não costurado, como a túnica de Jesus. Nosso texto, para ser genuíno, é uma colcha de retalhos, colorida, costurada, cortada, com rasgos, alinhavos, que depois podemos ser retirados.


Não somos bons escritores. Mas convido-lhes a ser amantes da escrita. Como alguém que loucamente canta no chuveiro até aprender a letra, acertar o tom. Somos bricoleur que trabalha na bagunça e produz textos dignos de apreciação.


Referências:


BARTHES, Roland. O Prazer do Texto. São Paulo: Editora Perspectiva, 1987.

CRUZ, Robson. Ser especial ou fazer bem-feito na vida acadêmica? [s.l.], 26 dez. 2023. Instagram: robsoncruz78. Disponível em: < https://www.instagram.com/p/C1UZkr9O9oy/ >. Acesso em: 26 dez. 2023.

LÉVI-STRAUSS, Claude. O pensamento selvagem. Tradução de Tânia Pellegrini. Campinas: Papirus, 1989.



* Membro da Comissão de Comunicação do Programa de Pós-Graduação em Sociologia UFPI (2023). Graduado em Ciências Sociais (UESPI) e Mestre (UFPI) em Sociologia.


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2 commentaires


Um achado de grrande valor!!

Assim defino o texto do Mestre Emanuel Calebe.

Me pego a pensar: "que bom que não sou boa escritora,e nem quero ser".

Me interessa muito mais estar rodeada "de colegas que reflitam conosco". Até mesmo porque assim é a vida, incomensurável. Somos enormes,imensos e as pegadas que deixamos no mundo são frutos de reescritas, costuras, laços, embaraços, desembaraços, nunca a sós sempre acompanhados. Gosto muito de uma antropóloga indiana, - na verdade sou fã desta intelectual - Veena Das. Em recente entrevista concedida há um grupo de pesquisadores brasileiros/as, Das revela que toda a sua escrita teórica têm como afirmamento/base os "passos de carangueijo", onde o encontro com as sujeitas de suas pesquisas - mulhere…


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Fico grato pelas suas palavras, Cleiane. E, com certeza, você é uma das colegas/amigas com quem compartilho as dificuldades de nossa área nos comete. Foi muito bom tomar conhecimento de Veena Das. Comprometo-me a lê-la. Grande abraço!!

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