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ESCREVENDO A HISTÓRIA: POR QUE NÃO DE MANEIRA ESTÉTICA, ARTÍSTICA E POÉTICA?

Atualizado: 17 de dez. de 2023



Por Audi Roberto Rodrigues*


“De que maneira a Historia deve ser escrita?”


É um tema muito recorrente e caro a nós Historiadores. Há quem diga que não se pode fazer uma História que emocione, que fale sobre sentimentos, paixões e afetos. Para muitos a escrita deve ser norteada por uma estrutura dada, que fale somente de datas, conjecturas e processos e que não caberia ao nosso saber emocionar as pessoas.


Penso diferente: a capacidade que a História tem de influenciar socialmente as pessoas está ligada diretamente à maneira como é apresentada, contada e, principalmente, escrita. Nesse diapasão, temos a obrigação, enquanto escritores, de fazer a História tocar as pessoas da maneira mais profunda e poética possível. Nosso oficio é escrever uma História que nunca está dada por completo, que não é processo único e relativista, mas que tem por objetivo primeiro tocar sentimentalmente aqueles que a procuram.


Fazer um texto apaixonado repleto de estética e poesia não é nenhum desdém com a História. É fazer como Durval (2007), que bem caracterizou a História, definindo-a como: A arte de inventar o passado. Arte no sentindo mais amplo do termo. Assim como Durval, pensamos que o poder que a arte tem de tocar os seres pode e deve ser utilizado por nós que fazemos a História.


É possível fazer uma aproximação proposital entre História e Literatura, dialogando com Hayder White e seus escritos sobre escrever a história a partir uma escrita literária e que, nesse sentido, traria para o nosso saber pontos bem mais estéticos e de maior capacidade para envolver e emocionar o leitor. Nessa perspectiva, a teoria literária trouxe para o campo da escrita historiográfica novas compreensões. Na medida em que elaborou teorias do discurso que servem para analisar e identificar os aspectos “literários” e poéticos da própria escrita histórica (WHITE, 1991, p. 3).


Para enfatizar ainda mais o caráter artístico que o fazer historiográfico pode ter, nada melhor que citar pensadores como: Leopold Von Ranke (1795-1886) e Julian Michelet (1798-1874), considerados por muitos os pais fundadores da história como ciência e extraordinários escritores; foram de suma importância no século XIX para a institucionalização da nossa pratica e do saber histórico enquanto ciência. Nunca negaram o caráter estético e artístico que nossa escrita pode ter. Nesse sentido, nas palavras de Durval (2007), "todos esses pensadores reconheciam a dimensão artística da História”. Portanto, nesse texto procurarei relacionar a nossa escrita enquanto cientifica e metodológica com a literatura. Enfatizando que nossa escrita pode ser também poética, artística e estética, sem perder evidentemente o caráter cientifico da nossa pratica.


História e literatura


A maneira que um fato é narrado pelos historiadores e a relação que desde o estruturalismo “História e Literatura” vem dispondo é um tema que frequentemente é debatido entre estudiosos de ambos campos. Nesse embate, os escritos de Hayder Whithe e Michel de Certeau, que juntos protagonizaram discussões interessantes e conflituosas, são de grande valor para o nosso texto. Assim, parece-nos interessante mencionar que, para o primeiro, os historiadores poderiam usar uma certa ficção no texto historiográfico, sem evidentemente abrir mão do arquivo histórico. Ou seja, podemos escrever um texto que tenha qualidades literárias, mas não podemos inventar um fato, sujeitos e acontecimentos que não existiram. Contrário a isso, Michel de Certeau teoriza que ao historiador caberia meramente narrar e escrever os fatos tal como eles se impuseram sem a utilização da ficção ou personagens inventados. Assim sendo, a história teria como objetivo em sua escrita a procura da verdade, já a literatura poderia ser dotada de imaginação puramente (DURVAL, 2007, p. 44).


Mesmo sabendo da importância de Michel de Certeau para o nosso campo do saber, aprofundaremos nossos estudos e atenção ao que pensa Hayder Whithe, na medida que suas pesquisas contribuem de maneira muito efetiva para nosso objetivo: fazer uma relação entre a escrita histórica e a literatura. Existe, portanto, benefícios de se escrever história a partir da linguagem literária, pois é partir dela que podemos fazer da nossa ciência uma saída da barbárie, do caos e das injustiças que fizeram parte da História da civilização humana.


A priori, faz-se necessário apontar a rede conceitual que as teorias literárias detêm para a compressão da escrita histórica. Hayder Whithe enfatizou, em seus escritos, que:


A teoria literária tem importância tanto direta como indireta para a compreensão da escrita histórica. Direta, na medida em que elaborou, com base na moderna teoria da linguagem, algumas teorias gerais do discurso que podem ser utilizadas para analisar a escrita histórica e para identificar seus aspectos especificamente "literários" (ou seja, poéticos e retóricos) (WHITHCE, 1991, p. 3).

Com base nesse entendimento, a teoria literária desempenha um papel tanto direto quanto indireto na nossa abordagem da escrita histórica. Muitos de nós, como historiadores, tendemos a nos distanciar das práticas literárias, o que consideramos um grande equívoco. Embora de forma sucinta, este texto visa levantar questões que nos fazem refletir sobre a maneira como abordamos a historiografia e, mais especificamente, nossa escrita.


A partir das perspectivas oferecidas por Hayden White, é evidente que nossa escrita histórica pode e deve se alinhar com diversas outras disciplinas, como literatura, arte e estética. O objetivo principal deste texto é promover uma abordagem da história que não apenas informa, mas também envolve emocionalmente o leitor, aumentando assim o valor percebido do fazer historiográfico em nossa sociedade atual.


Em essência, envolver-se em diálogo com os escritores e historiadores mencionados ao longo deste texto é crucial para a elaboração de narrativas históricas que realmente ressoem com aqueles que buscam entender nosso passado. Diria até que temos a responsabilidade, enquanto historiadores, de criar narrativas que permitam aos leitores serem afetados pelos signos, emoções e complexidades do passado. Isso exige de nós uma abertura para o desconhecido e um relacionamento mais profundo com as questões temporais que enfrentamos (DURVAL, 2007, p. 213).


Referências:


ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz. A arte de inventar o passado. São Paulo, 2007.


WHITE, Hayden. Teoria literária e escrita da história. In: Revista Estudos Históricos, v. 7, n. 13, p. 21-48, 1994.


DE ASSIS, Gabriella Lima. Hayden White entre a história e a literatura. In: Albuquerque revista de história, v. 4, n. 8, 2012.


CERTEAU, Michel de. A escrita da história. 1982.



* Pesquisador do Núcleo de História e linguagem contemporânea. Graduando em Historia pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB).





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