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ENTRE O GOL E O DECRETO: A POLÍTICA ENQUANTO A TORCIDA GRITA

Por Gustavo Bertoche*


Os romanos já haviam compreendido: o pão e o circo docilizam a população, direcionando as suas energias agressivas para objetos imaginários — a torcida por um time, as discussões sobre táticas de jogo, as discordâncias quanto aos melhores jogadores.


Enquanto os media tradicionais (os jornais, a televisão, o rádio) e os novos media (nas redes sociais) tratam do circo, as autoridades políticas agem sem nenhuma vigilância: para atender aos interesses de seus financiadores, aprovam leis e publicam decretos e portarias que ninguém noticia.


A política é o que acontece enquanto os idiotas estão interessados em jogos de futebol.


* * *


Aliás, "idiota" (em grego: ἰδιώτης), no sentido original do termo, é a pessoa que, ao somente se preocupar com seus próprios assuntos privados, deixa de lado todo o interesse relativo à sociedade política: "idiota" é o indivíduo que acredita que, se ele comemora um gol numa partida de copa do mundo, isso só diz respeito à sua própria vida, e que ninguém mais tem nada a ver com isso — como se um circo mundial não fosse, em primeiríssimo lugar, um evento político e econômico.


Nesse sentido, o propósito da copa do mundo é precisamente o de idiotizar: o de fomentar a ilusão de que a torcida por um time e a comemoração de um gol num jogo são atos individuais e particulares, o produto acabado do uso, por cada pessoa, da liberdade de dispor de seu tempo como lhe aprouver.


Mas isso é uma ilusão: como corretamente mostrou Marcuse, a torcida por um time num torneio estruturado, mediatizado, capitalizado e apresentado como passatempo esportivo nada tem de livre: é já a captura da consciência por uma forma fechada de atividade econômica — em que, até mesmo no tempo que tem para si, o indivíduo é forçado a participar da roda de produção e consumo, enquanto se lhe nega a possibilidade do silêncio e da introspecção que são as condições do pensamento.


Isto é: o torcedor é um idiota no sentido mais estrito. É um idiota por não perceber que está participando de um movimento político diversionista, criado para distraí-lo do que realmente importa; e é um idiota por entregar o seu tempo livre, aquele único tempo que poderia realmente lhe pertencer, à manutenção da atividade econômica — para obter o prazer catártico dos "dois minutos de ódio" (Orwell), ele voluntariamente entrega o seu tempo de ócio para as corporações.


* * *


Mas é difícil compreender isso tudo — e ainda mais difícil é tomar a decisão de não ser um idiota. Afinal, ser um idiota é ser como todos; é ter assunto para conversar, é estar entretido, é não ter a obrigação dolorosa e cansativa de pensar. É difícil não ser um idiota quanto tudo é feito para nos idiotizar; como escreveu Antonio Machado,

¡Qué dificil es cuando todo baja no bajar también!




* Escritor e Pesquisador. Doutor, Mestre e Graduado em Filosofia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Professor da Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR).

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