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DIPLOMAS SEM CAMPUS: O ENSINO SUPERIOR TRANSFORMADO EM SIMULAÇÃO

Por Gustavo Bertoche*


Em 2020 as matrículas nos cursos superiores em formato EAD superaram as matrículas nos cursos presenciais. Naquele ano, 56% das matrículas foram feitas para cursos na modalidade virtual. A cada ano essa proporção cresce. Em 2025, dois em cada três novos estudantes do ensino superior optaram pelo ensino à distância.


O problema: ao fim de três ou quatro anos, os estudantes EAD receberão um diploma que atestará a obtenção de um grau universitário. Esse diploma terá validade legal; será, todavia, um documento falso.


Afinal, uma tela de computador numa mesinha ao lado da cama não é uma Universidade.


O aspecto mais importante da vida universitária não é aquilo que o professor diz durante a aula. O que é mais essencial na Universidade é a convivência, num ambiente acadêmico, entre os estudantes; é o estabelecimento de relações pessoais entre os mestres e seus alunos; é a escolha de uma orientação - que inclui um compromisso de afetos de ambas as partes; é a participação em seminários, conferências, congressos; é a descoberta das ciências (naturais, humanas, lingüísticas) na própria prática; é a convivência nos laboratórios, nos institutos, nos centros de pesquisa; é a compreensão dos aspectos micropolíticos dos departamentos; é a experiência vivida da continuidade da vida intelectual da civilização.


Isto é: o ensino universitário somente é possível in persona, no espaço do campus, com o inevitável comprometimento de cinco, seis, sete horas naquele ambiente todos os dias por quatro ou cinco anos. A existência de universidades EAD não democratiza o ensino superior: democratiza o diploma, o que é algo completamente diferente.


* * *


Em outras palavras: o ensino universitário à distância é uma fraude — sempre, inevitavelmente, sem exceção. Essa fraude é criminosamente legalizada pelo Ministério da Educação — para o benefício financeiro dos conglomerados "educacionais" que, assim, podem demitir todos os professores com mestrado e doutorado e instituir turmas online de 200 alunos sob a responsabilidade de um tutor sem qualificação acadêmica.


Um dia essa fraude acadêmica generalizada cobrará o seu preço à nossa civilização: teremos uma população de universitários que ignoram por completo o que seja a Universidade — e que limitar-se-ão a reproduzir o conhecimento, pois serão incapazes de produzi-lo.


Então será tarde demais: o abismo que separa a ciência brasileira da ciência praticada em outros países ter-se-á tornado intransponível.





* Escritor e Pesquisador. Doutor, Mestre e Graduado em Filosofia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Professor da Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR).

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