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DEATH NOTE E A REPRESENTAÇÃO

Atualizado: 2 de jul.

Por Ricardo Cortez Lopes*


A série “Represontologia da Cultura” apresenta artefatos culturais analisados por meio da Represontologia, a ciência das representações. O objetivo é demonstrar aplicações de seus conceitos e também sugerir possíveis temas de pesquisa (quem sabe para publicar na Revista Colirium). Começamos com Death Note, um clássico da animação japonesa.


Death Note acompanha Light Yagami, um estudante brilhante que encontra um caderno sobrenatural deixado por Ryuk, um shinigami — isto é, um deus da morte. O caderno possui o poder de matar qualquer pessoa cujo nome seja escrito em suas páginas, desde que aquele que escreve visualize o rosto da vítima. Movido por um senso distorcido de justiça, Light decide eliminar os criminosos do mundo e tornar-se uma espécie de “deus” de uma nova realidade. No entanto, suas ações chamam a atenção de um misterioso e genial detetive conhecido apenas como "L", dando início a um intenso jogo de estratégia, engano e moralidade entre os dois.


A grande questão represontológica está no fato de que o caderno, como local da escrita, permite o registro da representação da morte da vítima — afinal, no momento em que ela é escrita, a morte ainda não ocorreu de fato. Inverte-se, assim, a lógica segundo a qual o ser humano concretiza uma representação: no universo de Death Note, a representação concretiza-se por si mesma, manifestando-se por meio do indivíduo, que pode morrer de ataque cardíaco ou agir em conformidade com as instruções registradas até alcançar o seu fim.


Até que a morte ocorra, aquilo que está escrito no caderno é uma ficção, uma representação do que poderá acontecer na realidade, ou seja, uma representação de projeção. Entretanto, essa ficção transforma-se em realidade: a representação precede e determina a ação. Normalmente, uma representação produz efeitos na mente e, uma vez concretizada por nós — de acordo com seu grau de nitidez —, pode ser comunicada. A história, porém, inverte esse processo: é a morte que comunica a existência da representação, sem que seja necessário qualquer outro vestígio.


Por fim, o caderno funciona como um deus ex machina, pois permite ignorar as causalidades habituais do cotidiano por meio de uma representação criada intencionalmente. Quando um acidente ou crime ocorre, é possível adotar uma linha investigativa e encontrar uma cadeia de causas que desembocaram naquele acontecimento. Por exemplo: o sujeito não dorme o suficiente; acorda atrasado para o trabalho; atravessa a rua apressadamente; e, por fim, é atropelado.


Com o caderno, a representação supre toda essa causalidade, como acontece no caso do ataque cardíaco. Contudo, quando a forma da morte é descrita detalhadamente, a própria representação passa a expressar e organizar uma causalidade, construída a partir do armazenamento factual. Assim, o caderno não registra apenas um acontecimento futuro: ele cria uma representação capaz de produzir os fatos necessários para que aquilo que foi escrito se concretize.





Referências:


LOPES, Ricardo Cortez. Repræsontologia: fundamentos da ciência das representações. São Paulo: UICLAP, 2024.





* Escritor e Pesquisador. Doutor, Mestre e Graduado em Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.


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